Atrasos salariais refletem em protestos em quatro clubes da Série B

Problemas financeiros fizeram com que atletas de quatro equipes, entre eles, Avaí e Chapecoense, protestassem pelos atrasos salariais ao longo da disputa da Série B

A reta final da Série B do Campeonato Brasileiro não ficou marcada apenas pelo título da Chapecoense conquistado com um gol no último minuto. Cansados de lidar com salários atrasados e outras pendências financeiras, jogadores do Verdão do Oeste, Avaí, Cruzeiro e Ponte Preta decidiram nas últimas semanas fazer algo não tão comum no futebol brasileiro: protestar diante dos atrasos.

Pedro Castro e Mecelin disputam bola dentro de campoJogadores da Série B se unem contra atrasos salariais – Foto: Márcio Cunha/Chapecoense/ND

Os cruzeirenses optaram por não se concentrar antes de um jogo, enquanto que os atletas das outras três equipes cruzaram os braços e não treinaram por um dia.

A situação mais grave é a do Cruzeiro, que, atolado em dívidas, não conseguiu o acesso e vai ficar mais um ano na segunda divisão. Nos bastidores, os jogadores fizeram um protesto contra os atrasos salariais e a falta de perspectiva do pagamento dos vencimentos pela diretoria do clube e não se concentraram na Toca da Raposa para a partida contra o Oeste, vencida pela equipe do interior paulista por 1 a 0.

No dia seguinte ao compromisso, a diretoria se reuniu com os atletas e respondeu a alguns questionamentos, sem, no entanto, dar, naquele momento, uma previsão do pagamento dos atrasados.

O presidente da Raposa, Sérgio Rodrigues, reconheceu os erros da direção e afirmou, na ocasião, que o diálogo com os jogadores não estava adequado.

Segundo ele, parte dos atrasados foi quitada. O ambiente conturbado levou o técnico Luiz Felipe Scolari a deixar o clube. Felipe Conceição foi contratado para o lugar do pentacampeão e terá, na próxima temporada, a missão de conduzir o time celeste de volta à elite do futebol brasileiro.

“Cada um entendeu o erro que cometeu. Equalizamos as conversas, os jogadores viram os esforços que estão sendo feitos, mostramos o cenário que temos pela frente. Embora difícil (o cenário), todo mundo sabe que é, mas o quanto a gente trabalha para obter recursos”, disse, na época, o mandatário.

“Faltava talvez a gente ampliar o diálogo dentro deste tipo de situação. A gente colocou bem firme, como vai ser e vai funcionar. Sei onde errei, eles sabem como erraram”, acrescentou o dirigente, que também afirmou que “a roupa suja se lava em casa”.

Protestos em SC

Já os atletas de Avaí, Chapecoense e Ponte Preta ficaram sem participar de um treinamento para mostrar aos dirigentes o descontentamento deles com as pendências.

Os protestos foram liderados, em todos os casos, pelos mais experientes dos elencos. A postura assertiva reforçou que eles estão mais atentos aos seus direitos.

“Os atletas e a sociedade de um modo geral acordaram para as garantias que as leis preveem, algumas há bom tempo. Os meios de comunicação evoluíram, trouxeram notícias mais fundamentadas e levaram atenção e esclarecimento de temas jamais abordados. O mundo mudou para melhor nesse particular e os atletas passaram a ser mais atentos aos seus direitos, responsabilidades e obrigações contratuais também”, avaliou Felipe Augusto Leite, presidente da Fenapaf (Federação Nacional dos Atletas Profissionais de Futebol), em entrevista ao Estadão.

Nem mesmo a campeã Chapecoense, apontada como exemplo de gestão antes de ser rebaixada em 2019, conseguiu manter em dia as suas contas. No entanto, após pressão do elenco, a diretoria pagou parte dos salários em atraso no fim de janeiro. Foi acertado o pagamento referente a dezembro (CLT). Ainda restam, porém, algumas pendências, como direitos de imagem.

O Avaí, por sua vez, explicou que “o clube tem ativos para receber, mas o que vem atrapalhando é a remessa destes valores e isso tem sido comunicado a todos os colaboradores, inclusive aos atletas”.

Também assegurou que “tem agido de forma transparente, informando a todo instante o andamento destes esforços para cumprir os compromissos”. A equipe de Florianópolis chegou a brigar pelo acesso, mas terminou em nono lugar.

“Manifestação legítima”

Presidente da Ponte Preta, Sebastião Arcanjo, o Tiãozinho, tem um histórico de luta trabalhista e sindical. Até por isso, o dirigente, que já foi vereador de Campinas e deputado estadual por São Paulo, não condena a atitude dos jogadores. Ele considera que o protesto é legítimo e assegura que “acordo feito entre as partes está sendo cumprido”.

“Como alguém que sempre lutou pelos direitos das pessoas, entendo que este tipo de manifestação é legítima e a postura da Ponte Preta sempre foi a de um diálogo honesto e amplo”, disse Tiãozinho em entrevista ao Estadão, antes de apontar a contrapartida nesse caso.

“Contudo, entendemos também que os atletas devem dar seu melhor em campo, a contrapartida tem de ser e é sempre exigida. Um médico que faz um dia de paralisação por uma questão trabalhista deve continuar se empenhando ao máximo para salvar a vida do paciente que atende no hospital”.

Único presidente negro nas séries A e B, Tiãozinho analisa que o fato de os jogadores tomarem mais partido, não só sobre os seus direitos, mas também em relação a temas inerentes à sociedade, é algo natural hoje e “uma evolução natural e necessária”.

“A própria sociedade exige deles posturas e posicionamentos sobre os mais diversos temas, bem além dos direitos trabalhistas: racismo, homofobia, contra o feminicídio, posturas adequadas em relação à pandemia”, salientou.

Segundo o dirigente, “a pandemia e os impactos financeiros gerados por ela causaram uma questão estrutural no futebol neste último ano”. Com a crise sanitária no País, vieram dívidas acumuladas.

Ele garante que não há mais pendências com os funcionários e que a diretoria está se empenhando para viabilizar recursos para quitar todos os débitos com o elenco. A equipe fechou a Série B em sétimo lugar.

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