Chapecoense continua em busca da reconstrução e familiares de esclarecimentos

Após cinco anos da tragédia na Colômbia, o clube do Oeste de Santa Catarina ainda vive a reconstrução baseada em aspectos variados e complexos

Cinco anos se passaram desde aquela madrugada de 29 de novembro de 2016, que um avião caiu na Colômbia, matou 71 jogadores e dirigentes do futebol da Associação Chapecoense de Futebol, profissionais da imprensa e convidados do clube. A reconstrução, especialmente dentro de campo, precisou iniciar dias depois, continua até hoje, e ainda deve seguir por alguns longos anos. Reconstrução que é baseada em aspectos variados e complexos, como pelas mudanças de dirigentes, resultados em campo, situação financeira do clube, acordos judiciais e extrajudiciais com familiares de jogadores, e processos judiciais em que a Chapecoense é vítima em razão da queda do avião.

(Chapecó — SC 03/12/2016) Cerimônia de Honras Fúnebres em homenagem às vítimas do acidente com o avião que transportava a Delegação da Associação Chapecoense de Futebol e jornalistas — Foto: Beto Barata/Governo Federal/Arquivo/ND(Chapecó — SC 03/12/2016) Cerimônia de Honras Fúnebres em homenagem às vítimas do acidente com o avião que transportava a Delegação da Associação Chapecoense de Futebol e jornalistas — Foto: Beto Barata/Governo Federal/Arquivo/ND

Em campo, a Chapecoense foi re-estruturada rapidamente após a tragédia. Em 2017, ano seguinte, conquistou o bicampeonato estadual, disputou a final da Recopa Sul-Americana, estreou na Libertadores, e conquistou a liderança no Brasileirão. Os anos seguintes, porém, foram de muitos altos e baixos em campo, culminando com o rebaixamento para a Série B do Campeonato Brasileiro de 2022.

Além do resultado em campo, outros complicadores foram as mudanças, inclusive não programadas, de dirigentes. O atual presidente Gilson Sbeghen, por exemplo, era vice-presidente administrativo e financeiro até o final de 2020, quando assumiu a presidência do clube, depois da morte do então presidente, Paulo Magro, vítima da Covid-19. “A princípio, ficaríamos apenas um ano, de 2019 a 2020, mas nosso mandato foi prorrogado e perdemos o nosso líder, Paulo Magro, que montou toda a diretoria e vinha fazendo todo um trabalho de reconstrução no clube. Então, tivemos novamente que reaprender muito”, afirma Sbeghen.

Gilson Sbeghen, presidente da Chapecoense — Foto: Angélica Lüersen/Especial NDGilson Sbeghen, presidente da Chapecoense — Foto: Angélica Lüersen/Especial ND

Em 2022, a presidência muda novamente e deve ser assumida pelo empresário chapecoense Nei Maidana, após um acordo de fusão das duas chapas que iriam concorrer inicialmente. Desta forma, as conversas entre atual e nova diretoria já iniciaram. Será preciso definir nomes de novos dirigentes, como do novo treinador do time. Ainda, passam por definições do modelo que será adotado pelo clube para a migração de um clube-empresa, conforme possibilidade da lei 14.193/2021.

“Sabemos que um dos anos mais difíceis da Chapecoense será em 2022, mas estamos confiantes. Queremos que o torcedor volte ao estádio, porque nós queremos retomar a identidade, o DNA da Chapecoense, mais próximo ao torcedor. Queremos retomar aquela Chapecoense de até 2016 que foi se perdendo com o tempo”, afirma Maidana.

A dívida do clube e os acordos com familiares

O resultado em campo de 2021 afeta ainda mais a situação financeira já delicada do clube para 2022, pois há uma previsão de queda de um sexto da arrecadação deste para o próximo ano. “Não é segredo a dificuldade financeira do clube, a restrição orçamentária em razão da pandemia e as dívidas anteriores a esta diretoria. Avaliamos constantemente toda a situação e nosso foco foi não aumentar essa dívida e honrar os compromissos com as famílias das vítimas. A pressão é grande interna e externamente, então daremos todo o apoio para a nova diretoria”, afirma o atual presidente Sbeghen.

Gilson Sbeghen, presidente da Chapecoense – Foto: Angélica Lüersen/Especial NDGilson Sbeghen, presidente da Chapecoense – Foto: Angélica Lüersen/Especial ND

A Chapecoense tem em torno de R$ 120 milhões em dívidas atualmente. São R$ 90 milhões anteriores à diretoria atual e outros R$ 30 milhões referentes a acordos judiciais e extrajudiciais já pagos a familiares de jogadores que faleceram na queda do avião em 2016.

“Nenhum familiar de atleta irá inviabilizar o clube. Procuramos todos e sempre focamos em manter os acordos. Hoje temos 83% de acordos realizados”, ressalta o vice-presidente jurídico, Ilan Nazário. São 23 acordos realizados e sendo pagos judicialmente, três já quitados e ainda tramitam 11 ações de sete familiares. A previsão do setor jurídico é de que até março de 2028 todos estejam pagos.

A Chapecoense também é vítima em três processos judiciais, um que tramita na Justiça Federal brasileira, outro na Colômbia e um processo que ainda será ingressado na Inglaterra, pois as resseguradoras estão situadas naquele país. Os detalhes não podem ser repassados em razão de segredo de justiça, mas a expectativa do setor jurídico é que eles tenham uma possível conclusão talvez em 10 ou 15 anos. “Também fomos prejudicados, perdemos nossos dirigentes, nossos braços do clube, e nossos jogadores, nossas pernas. Por isso, buscamos os responsáveis e as indenizações”, ressalta Nazário.

Associações de familiares: auxílio assistencial e judicial

Ao longo dos últimos anos, duas associações foram formadas em razão da queda do avião, a Associação dos Familiares das Vítimas do Voo da Chapecoense (AFAV-C) e a Associação Brasileira das Vítimas do Acidente com a Chapecoense (Abravic).

(Chapecó — SC 03/12/2016) Retirada dos caixões da aeronave Hércules durante a Cerimônia de Honras Fúnebres em homenagem às vítimas do acidente — Foto: Beto Barata/Governo Federal/Arquivo/ND(Chapecó — SC 03/12/2016) Retirada dos caixões da aeronave Hércules durante a Cerimônia de Honras Fúnebres em homenagem às vítimas do acidente — Foto: Beto Barata/Governo Federal/Arquivo/ND

A Abravic, presidida pelo advogado chapecoense Fabiano Porto, tem um caráter exclusivamente assistencial. Surgiu pela iniciativa do jogador Túlio de Melo, que juntou doações anônimas de outros jogadores da Série A de 2016. Conseguiram executar projetos de abril de 2017 até setembro de 2019 voltados à alimentação, saúde, estudos e saúde mental dos familiares das vítimas. Também auxiliam no evento “Para sempre lembrados”, homenagem de cinco anos que será realizado na segunda-feira (29). “Neste momento, os projetos permanecem, mas estão suspensos por questão financeira. Temos ideias, vamos tentar executar outros tipos de serviços, mas precisamos de avanços nas questões judiciais”, afirma Porto.

Já a AFAV-C, da qual participam 33 famílias, é presidida por Fabienne Belle, viúva de Luiz César Cunha, fisiologista e integrante da comissão técnica da Chapecoense, e por Mara Paiva, viúva do ex-atleta e jornalista Mário Sérgio. Elas estão focadas na  luta pelas causas coletivas, ou seja, soluções jurídicas relativas ao acidente. “As empresas e instituições  envolvidas nesta tragédia precisam ser responsabilizadas, para que negligências como esta não voltem acontecer, para que tenham um rigor em suas ações”, ressalta Fabienne.

Nesses cinco anos, ressalta Fabienne, o principal avanço foi o levantamento de toda a documentação envolvida no acidente. “Documentos que vão desde a origem e funcionamento da LaMia, passando pela negligência das instituições públicas responsáveis pela aviação civil na Bolívia e Colômbia, até a negociação do seguro da aeronave por parte de empresa de consultoria em gestão de riscos e seguros”, ressalta Fabienne.

Atualmente, há uma Ação Civil Pública no Brasil aguardando cartas rogatórias (forma de comunicação entre o judiciário de países diferentes); ação em Londres que terá audiência em março de 2022; ação nos Estados Unidos com audiência em Julho de 2022; e ação na Colômbia segue em andamento.

CPI da Chapecoense no Senado

Os documentos foram entregues pela Afav-C para as mais diversas ações judiciais, ao governo brasileiro, e aos senadores brasileiros, que criaram a CPI da Chapecoense. Presidida pelo deputado Jorginho Mello (PL/SC), a CPI foi criada em 2019, teve uma pausa em razão da pandemia da Covid19 e voltou a se reunir neste mês de novembro, realizando duas reuniões.

(Distrito Federal — 04/02/2020) CPI sobre a situação das vítimas e familiares do acidente da Chapecoense — Foto: Jane de Araújo/Agência Senado/Arquivo/ND(Distrito Federal — 04/02/2020) CPI sobre a situação das vítimas e familiares do acidente da Chapecoense — Foto: Jane de Araújo/Agência Senado/Arquivo/ND

Em uma das reuniões, aprovaram requerimentos para convocar pessoas consideradas importantes para identificar o motivo pelos quais os familiares ainda não terem recebido suas devidas indenizações; e ainda ouviram a ex-controladora de voo boliviana Celia Castedo Monasterio, presa no Brasil. “Minhas funções eram de informar, assessorar o que eles precisam de documentação e apoio ao tráfego aéreo. Não sou inspetora, não sou autoridade, não tenho conhecimento das características de cada avião”, ressaltou ao ser questionada se poderia ter impedido o avião de levantar voo. Ainda, disse que alertou três vezes o despachante Alex Quispe – que faleceu no voo – sobre a questão do combustível, mas que a decisão final de voar ou parar para abastecer em meio ao voo era do piloto.

Ao final das reuniões, o presidente da CPI afirmou que os senadores devem reunir as famílias da Chapecoense e seus advogados para fazer uma proposta de entendimento, sem ter nenhum prejuízo das ações que já tramitam. “Vamos tentar intermediar uma conversa nos próximos dias. Também vamos convocar novas pessoas, e identificar quem autorizou verdadeiramente este voo, para não tirarem o corpo fora e deixarem esta senhora (Célia Monasterio). Então, a CPI reiniciou com todos os membros com este grande objetivo: entregar uma solução o mais rápido possível”, afirma Jorginho Mello.

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