Filhas repensam profissão após perderem os pais na tragédia da Chapecoense

A ressignificação da dor e da perda também trouxe outra visão sobre a vida da família

Há cinco anos, Emanuelle Schardong era apenas advogada, atualmente é estudante de Jornalismo e sonha em exercer a profissão do pai. Há cinco anos, Dhayane Pallaoro era publicitária. Hoje é empresária em homenagem ao pai e trabalha com logística e armazenagem de produtos alimentícios. O que mudou? As duas perderam seus guerreiros na tragédia da Chapecoense, em 29 de novembro de 2016. Dhayanne é filha do então presidente da Chapecoense, Sandro Pallaoro; e Emanuelle é filha do narrador esportivo Fernando Doesse Schardong.

Emanuelle, filha de Fernando, e Dhayane, filha de Sandro— Foto: Colagem/NDEmanuelle, filha de Fernando, e Dhayane, filha de Sandro— Foto: Colagem/ND

Tanto Fernando quanto Sandro, em razão das profissões, eram o núcleo da família e a maior parte das atividades eram organizadas por eles. “Eu era a filha protegida, ele organizava e se preocupava com tudo”, lembra Dhay com carinho. “Meu pai me buscava no trabalho para eu almoçar na casa dele e da minha mãe, tínhamos 5 ou 10 minutos todos os dias juntos, nós dois no carro, era nosso momento”, lembra Manu.

Quando a ausência bateu, as duas acabaram assumindo uma série de responsabilidades, desde o momento do velório até hoje, cinco anos depois. Os momentos de ressignificação da vida foram tão intensos que elas repensaram até a profissão que haviam escolhido anos antes.

De publicitária para empresária de logística

Dhayane não conseguiu ver a empresa de frutas do pai, Sandro Pallaoro, correndo o risco de fechar. “Meu pai era meu espelho, era um guerreiro. Ele lutou muito pela empresa. Durante dois anos tentamos mantê-la igual, com a ajuda da minha mãe também, depois percebemos que aquele era o saber dele, então adaptamos para o nosso saber e agora trabalhamos com logística e armazenagem de produtos alimentícios”, relata.

A mudança de vida fez Dhayanne, que estava com 27 anos e era publicitária, tornar-se empresária e precisar adquirir conhecimentos sobre administração e logística. “Sempre penso no que ele faria se estivesse aqui, e sei que ele se envolveria em tudo sem ser um peso”, afirma.

Dhayane Pallaoro participando de audiência da CPI da Chapecoense — Foto: TV Senado/Divulgação/NDDhayane Pallaoro participando de audiência da CPI da Chapecoense — Foto: TV Senado/Divulgação/ND

Pensando nisso, também se tornou numa porta-voz das famílias das vítimas e já participou de inúmeras audiências e reuniões em razão da tragédia. “Esperamos esclarecimentos, pois havia uma cadeia ciente de irregularidades que ocorriam. Também esperamos alguma mudança, como nas legislações dos voos fretados no Brasil”, reforça.

A ressignificação da dor e da perda também trouxe outra visão sobre a vida da família. Dhayanne havia se casado dois anos antes e após a perda do pai, decidiu ser mãe. Hoje, o filho está com 3 anos. “Quando ele vê uma foto ou vídeo, ele reconhece o vô, quer saber das histórias. E nós conversamos muito, é uma maneira de manter as lembranças e meu pai próximo de nós”, afirma.

De advogada para (futura) jornalista

As formas de lembrar de Fernando são inúmeras, às vezes deixando o rádio ligado, às vezes imaginando o que ele diria. A maior homenagem, no entanto, veio na área profissional. “Eu já havia pensado em ser jornalista, mas acabei cursando Direito e trabalho há 8 anos como advogada. Após a morte do pai, eu e meu filho entramos em campo num jogo. Eu vi os jogadores concedendo entrevista e olhei para aquele momento e pensei que precisava fazer algo para me aproximar daquele mundo”, recorda.

Emanuelle Schardong, filha do narrador esportivo Fernando Doesse, começou a cursar Jornalismo para homenar o pai — Foto: Angélica Lüersen/Especial NDEmanuelle Schardong, filha do narrador esportivo Fernando Doesse, começou a cursar Jornalismo para homenar o pai — Foto: Angélica Lüersen/Especial ND

Alguns meses depois, Manu estava matriculada no curso de Jornalismo. A previsão é que no final de 2022 esteja formada. “Penso em algum projeto relacionado a áudio, é o que mais me fascina, e fico imaginando o que meu pai faria e diria. Dar voz a esse sonho faz eu me sentir próxima dele”.

Os processos de ressignificação também foram coletivos, comemorando o aniversário do pai no dia 4 de julho, mas também muito individuais dentro da família. Ela sonha em ser jornalista, a mãe aprendeu a dirigir, a irmã teve um filho. “O foco foi nos compreender como pessoa, ressignificar a vida com a ausência dele”, afirma.

Para Manu, a forma como iriam lidar com tudo iniciou no dia do enterro. “Temos dias ruins, é claro, especialmente perto do Natal. Mas me apego nas memórias positivas. Meu filho era a paixão do meu pai. Hoje consigo entender até porque fui mãe cedo, para que eles pudessem viver esse tempo juntos. Eles eram tão unidos que meu filho produziu um microfone artesanal com a ajuda da outra avó para homenagear meu pai, e colocou junto ao caixão”, lembra. “Já minha mãe, durante o enterro, começou a cantar uma das músicas preferidas do meu pai, Gostava tanto de você, do Tim Maia. Todos começaram a cantar junto. É um dos momentos que guardo no meu coração para sempre”.

Lembre de Sandro Pallaoro e Fernando Schardong

Nascido em Pato Branco (PR), Sandro Pallaoro jogava futebol desde novo, mas não quis sair de casa na adolescência para não deixar os pais. “Meu pai e minha avó conversavam todos os dias por telefone, eles eram muito apegados”, lembra a filha Dhayanne. Em 1994, Sandro mudou-se para Chapecó, construiu uma empresa no ramo hortifruti e, em 2007, começou a doar frutas para as viagens do time da Chapecoense. Foi aí que a história de amor começou.

Sandro Luiz Pallaoro, presidente da Chapecoense entre novembro de 2010 e novembro de 2016 — Foto: Arquivo/NDSandro Luiz Pallaoro, presidente da Chapecoense entre novembro de 2010 e novembro de 2016 — Foto: Arquivo/ND

No final de 2010 foi eleito presidente do clube, que estava na série C do Campeonato Brasileiro. Guiou a Chapecoense até a série A, em 2014, e à final da Copa Sul-Americana, em 2016. Um ano antes, chegou a ser eleito “Empresário do Ano” da cidade de Chapecó. Toda essa ascensão fez a vida da família Pallaoro girar em torno da Chapecoense e dos jogos. “A nossa vida era o clube. Meu pai envolveu todos da família no clube. Hoje entendo porque foi tudo tão rápido. Hoje faz muito sentido para mim”, afirma Dhayane.

Já Fernando Doesse Schardong nasceu em Ibirubá (RS), onde começou a vida como radialista. Mudou-se para Chapecó no início dos anos 2000 e era narrador esportivo da rádio Chapecó desde 2005. Apresentava, também, os programas Sertão em Festa e Debate Esportivo, e coordenava a Equipe Esporte Total da emissora. Era também colunista do jornal Voz do Oeste, mantinha o Blog do Fernando Doesse, e era vice-presidente da Associação dos Cronistas Esportivos de Santa Catarina (Acesc). Foi eleito o melhor narrador do estado em 2010. “Temos certeza que meu pai faleceu fazendo o que amava. A última mensagem dele para mim foi afirmando que estava tudo bem, antes de embarcar no voo. Isso nos tranquiliza muito”, conta a filha Manu.

Fernando Doesse Schardong era narrador esportivo da rádio Chapecó desde 2005 – Foto: Arquivo/NDFernando Doesse Schardong era narrador esportivo da rádio Chapecó desde 2005 – Foto: Arquivo/ND

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