Fábio Machado

Rotina, contratações e análise dos jogos dos clubes catarinenses. A história do futebol no Estado é resgatada com postagens que relembram os títulos e jogadores que marcaram Santa Catarina.


Crônica: Lembranças do futebol raiz – Parte 1

Na crônica deste fim de semana, a primeira parte de algumas lembranças do futebol raiz. Saudades desses tempos? Boa leitura!

Em alguns estádios pelo Brasil afora, a faixa escrita “Pela volta do futebol raiz” chama atenção. Mas afinal, o que é esse tal do futebol raiz? Na verdade, é uma manifestação de alguns torcedores pela volta ao passado, onde a bola rolava mais descompromissada e sem as ditas “frescuras” atuais. Por aqui em Florianópolis – e não muito diferente de outros lugares – em dia de grandes jogos, quando não havia cadeiras numeradas, ou melhor, nem cadeiras tinham na maioria dos estádios, o recomendável era chegar cedo. Muito cedo, senão o pobre torcedor corria o risco de não conseguir entrar, seja no antigo Adolfo Konder ou no Orlando Scarpelli. São muitas as histórias de torcedores que voltaram para a casa com o consolo de acompanhar o seu time pelo rádio. Mas para quem conseguia entrar no campo, algumas situações do futebol raiz são lembradas aqui. Primeiro a almofada que o torcedor trazia de casa para sentar na arquibancada dura dos estádios da capital. A cena era comum: lá vinha o torcedor, segurando uma bolsa “capanga” e um rádio numa das mãos, e na outra a tal almofada, geralmente com um patrocínio de uma das extintas lojas da capital. A meta era voltar para casa sem a “bunda” da calça suja de barro. Ou de limo. Outra lembrança, era a turma de guris que ficavam próximos da catraca. Como na época menores entravam de graça acompanhados dos seus pais ou um responsável, a turma aguardava que um “pai emprestado” colocasse a mão no seu ombro e juntos passassem pelo bilheteiro, que já sabendo da história, nem ligava se um pai fosse negro e o filho um loiro de Antônio Carlos. Ou vice-versa. Bastava entrar dentro do estádio que cada ia para o seu lado. Muitos desses guris, na maior cara de pau ainda falavam ao se despedir “tchau, pai”. O riso era geral. Da bilheteria até a arquibancada, ou mesmo o setor popular, onde a turma assistia aos jogos em pé, pagando um preço mais acessível (nariz enfiado no alambrado enferrujado do saudoso estádio Adolfo Konder, Costeirinha na Ressacada e Coloninha no Scarpelli) o cheiro da comida não “gourmetizada” como as de hoje, era uma festa para os estômagos. Não tinha essa história de comprar o bilhete num caixa para se dirigir ao outro “guichê” para pegar a comida com os atendentes de touca e de luvas. A coisa era direta e objetiva. O pipoqueiro pegava o teu dinheiro, dava o troco e te entregava o saquinho de pipoca. Com as mãos (sabe-se lá onde estava) ele ainda por capricho ajeitava as pipocas no saquinho. O mesmo ocorria com o milho, o picolé, com o pinhão, com a cocada, com a roleta e com o amendoim. Ninguém ficava de “mimimi” se o dinheiro ficava ali do lado da comida, às vezes até servindo de peso para as cédulas não voarem. Em dia de grande jogo, com as arquibancadas lotadas, os vendedores ambulantes não conseguiam subir para vender os seus produtos. Sem problema. A negociação era feita no grito ou no gesto. Aí o picolé, ou o milho, ou a cocada, ou o pinhão subia de mão em mão até o cliente no alto da arquibancada que pegava o dinheiro, e fazendo o caminho da volta, descia de mão em mão até o vendedor lá embaixo, que satisfeito, ia repetir negociação alguns metros à frente. Ninguém reclamava, ninguém invocava o estatuto do torcedor. Isso era o chamado futebol raiz. Na coluna do próximo fim de semana, retornaremos ao assunto.