Fábio Machado

Rotina, contratações e análise dos jogos dos clubes catarinenses. A história do futebol no Estado é resgatada com postagens que relembram os títulos e jogadores que marcaram Santa Catarina.


Crônica: Lembranças do Futebol raiz – Parte 2

Na crônica deste fim de semana, a segunda parte de algumas lembranças do futebol raiz. Saudades desses tempos? Boa leitura!

Na crônica do fim de semana passado, relembrei algumas situações do chamado futebol raiz: o futebol de antigamente (nem tão antigamente assim), sem os protocolos e o excesso de precauções de hoje. No conto, o resgate na memória para o presente sobre as lembranças da chegada dos torcedores nos estádios, a passagem dos menores nas bilheterias com os seus pais “emprestados” e a variedade de comida que os vendedores ambulantes ofereciam sem nenhuma proteção “pegavam o dinheiro com uma das mãos e devolviam o alimento com a outra”.  Prosseguindo com o tema na coluna desta final de semana, relembro a expectativa pelo jogo e a espera pela entrada dos atletas. Era uma festa! Cada estádio aqui da capital tinha a sua própria característica: no campo do Adolfo Konder, onde hoje fica o Shopping Beira Mar, no centro de Florianópolis, por ser menor, a grande maioria dos torcedores se conheciam. Muitos, aliás, quando o jogo era numa quarta-feira à tarde, eram colegas da mesma repartição que “matavam” o serviço para torcer pelo Avaí. Enquanto a bola rolava no gramado “careca” do “pasto do bode”, o paletó ficava pendurado na sua cadeira lá no escritório: “ele saiu para uma reunião, deve voltar no fim da tarde”, justificam as secretarias ou os colegas da firma. Era comum também ver muitos estudantes dos colégios da cidade com os seus cadernos nas mãos. Obviamente que nesse dia, a matemática, o português e a geografia eram jogados para o escanteio. Lembrando que no estádio Adolfo Konder não havia sistema de iluminação, por isso durante boa parte dos anos 1970 até 1983, quando o Avaí se mudou para o estádio da Ressacada, no sul da ilha, os jogos eram durante o expediente comercial. Atravessando a ponte, no estádio Orlando Scarpelli, enquanto a bola não rolava, a festa ficava por conta da Charanga do Paulinho. Com um batuque contagiante levantava a galera. A turma que ficava ali em volta, não conseguia escapar da farinhada que alguns torcedores levavam para o estádio. Se o jogo fosse no domingo, na quinta ainda tinha torcedor tirando farinha que ficava agarrada no interior das orelhas. Agora vou confessar uma coisa para os queridos e queridas leitores. O que mais sinto falta do futebol raiz, é da entrada dos atletas em campo daquela época. Não tinha o protocolo xarope de hoje: com os atletas entrando caminhando ao som de hino. Atualmente parece que os jogadores estão numa procissão. Antigamente os jogadores entravam no campo correndo, bufando e com o sangue nos olhos. Enquanto isso, a torcida nas arquibancadas explodia em êxtase como seu um gol fosse marcado. Foguetes explodiam, papéis picados e balões se espalhavam pelo ar. E as bandeiras eram tremuladas. Depois dessa entrada triunfal e festiva, os atletas de mãos dadas saudavam as torcidas. Primeiro para o lado das sociais, depois para a galera, para o povão. De todas as lembranças do chamado futebol raiz, é exatamente a entrada dos atletas no gramado que tenho mais saudade.

+

Fábio Machado