Fábio Machado

Rotina, contratações e análise dos jogos dos clubes catarinenses. A história do futebol no Estado é resgatada com postagens que relembram os títulos e jogadores que marcaram Santa Catarina.


Crônica: O artilheiro eterno. Gols nos goleiros adversários e gols na vida.

A crônica deste fim de semana narra a vida de um atacante do futebol catarinense que dedica a sua vida no amparo ao próximo. Nos gramados foi o terror dos goleiros adversários e hoje marca outros gols

Domingo, sete horas da manhã. Ele acorda, e no caminho para a cozinha, liga a TV para acompanhar a missa. Desde muito cedo quer elevar os seus pensamentos, quer mentalizar visando o equilíbrio e a sua paz interior: quer rezar! Na pia, prepara o café como se fosse uma liturgia. Plácido, mira a janela e evoca mentalmente a frase: “Só por hoje”. Acena um bom dia para alguém que passa na rua. Com o café na mesa, é interrompido, mas ao invés de reclamar, ele ri alto com os seus queridos amigos da casa: Negão, Tasca, Pink, Spok, Pirata e Boquinha. Seus cães que dividem o mesmo espaço com muito amor, carinho e claro, muita bagunça. Assim como São Francisco, ele conversa com os seus “patudinhos”, na verdade irmãos, em voz alta. “Eu recebi uma dádiva muito maior do que o bem-estar material; minha recuperação. Vou agradecer ao Deus da minha compreensão por libertar-me do vício ativo. ” Quem presencia esse ambiente calmo, sereno e equilibrado, não imagina que esse é o início de mais uma jornada diária de um ex-atacante que na época de atleta era o terror das defesas adversárias, assim como era o terror de si próprio: virando noites e noites com bebidas, todas as bebidas e muita rebeldia. Albeneir Marques Pereira, o Bena. Certa vez, na entrada do Orlando Scarpelli, antes de uma partida que eu iria atuar como repórter, não tive como deixar de vê-lo com os seus quase dois metros de altura na porta de acesso. “E aí, Bena, que cara é essa, amigo? ”. Sua resposta foi direta: “Fábio Machado, não querem deixar eu entrar para ver o Figueirense. Fui barrado”. De boca aberta, não consegui entender nada. O terceiro maior artilheiro do Figueirense, ídolo da torcida, barrado na entrada do estádio Orlando Scarpelli? ”. Alguns dias depois, ainda na mesma semana, convidei o Albeneir para ir no programa Mais Esporte que apresentava ao lado do Renatinho Pires na Primer TV, em São José. No horário marcado, Bena apareceu. Ele falou; desabafou, deu autógrafos e tirou fotos com fãs que sabiam da presença dele no programa. Poucos dias depois, feliz, vi o artilheiro em outros canais de TV (redescobriram ele) e vi ele sendo chamado pela diretoria do Figueirense para desenvolver um trabalho internamente. Somo amigos. Albeneir me liga, trocamos ideias. Rimos quando ele diz: “Eu vou matar esse quero-quero que te passa informações dos bastidores dos nossos clubes”. Quando perdi meu querido filho Flávio, ele foi um dos primeiros a me ligar, a me passar conforto espiritual. Na cerimônia de despedida, ficou o tempo que foi possível ao meu lado. O nosso “ídolo eterno” ocupa seus dias cumprindo uma missão: atua no Recanto Silvestre do Padre Prim, conversando com ex-viciados. Diariamente recebe ligações de pais desesperados com filhos e filhas que estão nas drogas e nas bebidas e costuma falar: “Dá a real”, o papo é reto. Ele sabe do que está falando, em dezembro completará 14 anos limpo. “Fazer o inventário pessoal significa que criamos o hábito de olhar regularmente para nós mesmos”.  Obrigado, Albeneir.  Você é artilheiro dos gramados e da vida.