Fábio Machado

Rotina, contratações e análise dos jogos dos clubes catarinenses. A história do futebol no Estado é resgatada com postagens que relembram os títulos e jogadores que marcaram Santa Catarina.


Um depoimento sobre o centenário do Figueirense

O leitor diário da coluna, o historiador Maury Dal Grande Borges me envia um emocionado texto que compartilho com os amigos leitores. Boa leitura:

“Era de interesse da torcida conhecer as atrações para a semana do centenário. Nos bastidores, a expectativa girava em torno das comemorações. Mas os detalhes, quem iria divulgar? A curiosidade nos levou então à sede do clube e lá estava à secretária Lidiane, guardiã da história alvinegra. Disse-me que a missa, o hasteamento das bandeiras e o foguetório eram de conhecimento geral; outros eventos permaneciam em segredo.

Nesse instante adentra a sala, apresentando certo cansaço, o presidente Norton, trazendo anotações rabiscadas numa folha. Tratava-se da programação, na qual constava homenagem a um ex-atleta, ainda sem revelar quem era. Em meio a nossa conversa, um visitante se aproxima. De estatura mediana, com certa idade e de chapéu na mão, foi logo querendo saber detalhes dos festejos, inclusive de quando se daria a homenagem a Calico, o ponto alto da festa.

Surpreso e sem saída, o presidente abriu o jogo e confirmou que essa seria a principal atração. Com ar de satisfação, o desconhecido visitante emendou, “pois é, o Calico integrou a seleção catarinense, foi considerado pela imprensa o ‘Menino de Ouro’ na década de 30, foi artilheiro do clube em competições oficiais e, ao lado dos três irmãos, Décio, Nery e Sidney, conquistou os inéditos títulos do regional e do estadual de 1939”. Norton, atônito, perguntou-se, “Mas quem seria esse torcedor que conhecia tão intimamente detalhes da história do ídolo alvinegro? ”.

A identidade do visitante tornou-se obrigatória e foi então, revelada: era João dos Passos Xavier, carpinteiro e poeta, primeiro presidente do Figueirense, eleito na noite de 12 de junho do distante ano de 1921, na localidade da Figueira, centro de Florianópolis, onde, segundo ele, “os canteiros eram mais floridos e as flores mais perfumadas’’.

Antes de se despedir, salientou ainda que a comenda deveria ser composta por um medalhão dourado que, no seu centro, em alto relevo, constasse a silhueta de um jogador em posição de chute, e que esta condecoração deveria ser entregue ao representante da família do ex-jogador. Surpreso com os minuciosos detalhes descritos, Norton confirmou o que vinha mantendo em absoluto sigilo e que, inexplicavelmente, correspondia às solicitações de João dos Passos.

Feliz em saber que o seu desejo estava confirmado, partiu, João, agradecido. Foi daí que Lidiane observou que as flores mencionadas no jardim do nosso poeta-presidente também estão no sobrenome do atual chefe, Norton Flores Boppré, coincidências poéticas apartadas por 100 anos. Será que as flores que separam o século entre o poema e o nome do presidente carregariam o mesmo perfume? Bom só os espiritualistas poderão responder. Com os raios do sol beijando a janela do quarto, despertei do sonho, ao som dos clarins que anunciavam a abertura das comemorações pelo século de existência do mais vezes campeão.

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Fábio Machado