Fábio Machado

Rotina, contratações e análise dos jogos dos clubes catarinenses. A história do futebol no Estado é resgatada com postagens que relembram os títulos e jogadores que marcaram Santa Catarina.


Histórias da bola: A louca aventura dos “catarinas” no futebol de Brasília, em 1977.

Episódio relembrado na coluna do Fábio Machado neste fim de semana no ND, ganhou destaque na imprensa nacional. Uma aventura sem final feliz, mas que rendeu histórias dramáticas e até engraçadas.

A LOUCA AVENTURA

Matéria ganhou destaque na edição impressa do jornal ND. Sábado e domino, 3 e 4 de abril. – Foto: repridMatéria ganhou destaque na edição impressa do jornal ND. Sábado e domino, 3 e 4 de abril. – Foto: reprid

Uma louca viagem de jovens atletas sem espaços no Figueirense (e também no Avaí) em busca dos seus sonhos no futebol. Este é o resumo da aventura de 20 atletas e membros de comissão técnica que no ano de 1977 partiram de Florianópolis para Brasília para seguir com o sonho de ser jogador profissional. A história começa quando o Major Ortiga, ex-presidente do Figueirense é transferido para Brasília. Chegando lá, e com a veia pelo futebol ainda pulsado forte após ter marcado época como presidente do Figueirense conquistando títulos e levando o time para o Nacional, viu no Grêmio Brasiliense, um clube social com o futebol desativado, a oportunidade de voltar a presidir uma equipe. Sem comissão técnica e jogadores disponíveis pensou: “Por que não importar essa turma que não está tendo espaço lá em Florianópolis?”. Da ideia a prática. Para o projeto foram convocados para atuar como treinador, Gercino Lopes (falecido) e Joel Passos como assistente. E na lista dos atletas, nomes conhecidos e importantes no futebol do estado como Sabará, Ademir, Raulzinho, Jorge Alemão, Jardim, Sebinho, Jaílson, Zé Carlos, Celinho, Crispim e Izalto entre outros.

Os “candangos” no Grêmio Brasiliense: Em pé: Joaco, Mosca, Izalto, Jorge Alemão e Baiano. Sentados: Sebinho, Zé Carlos, Celinho, Jaílson, Ademir, Jardim e Beto Pescoço. Na frente: Fatia, Joel Passos, Edenílson e Raul – Foto: Celinho/Acervo pessoal/NDOs “candangos” no Grêmio Brasiliense: Em pé: Joaco, Mosca, Izalto, Jorge Alemão e Baiano. Sentados: Sebinho, Zé Carlos, Celinho, Jaílson, Ademir, Jardim e Beto Pescoço. Na frente: Fatia, Joel Passos, Edenílson e Raul – Foto: Celinho/Acervo pessoal/ND

DESTAQUE NA IMPRENSA NACIONAL

A aventura chegou a ganhar destaque nas páginas da revista Placar, na edição de18 de fevereiro de 1977 – Foto: Placar/reproduçãoA aventura chegou a ganhar destaque nas páginas da revista Placar, na edição de18 de fevereiro de 1977 – Foto: Placar/reprodução

Na época, esse fato chegou a ganhar projeção nacional com a revista Placar que na edição do 18 de fevereiro de 1977 dedicou duas páginas assinadas pelos repórteres Márcio Varella do Distrito Federal e Mário Medaglia aqui de Florianópolis sob o título: “Os novos candangos”.  Muitos lembram dessa passagem hoje com risos, outros não tem nenhuma lembrança boa deste episódio. “Saímos de Florianópolis para a capital federal por conta e risco, viajando praticamente dois dias em ônibus com total desconforto”. “Imagina o calor que passamos”, relembra com bom humor o ex-ponta Célio Garcia de Moura, conhecido como Celinho que depois brilhou no futebol amador defendendo o Ajax do Saco dos Limões e o Palmeiras, do Roçado em São José entre outros clubes do nosso futebol amador. “Péssimas lembranças: alojamento sem nenhuma estrutura, sem salário, fomes e brigas”, foi a primeira lembrança evocada pelo ex-atleta Izalto, figura conhecida da cidade e morador do norte da ilha.  A maioria dos atletas saíram daqui apenas com promessas e pensando na possibilidade lá na frente. “O problema é que o tempo foi passando e a turma foi perdendo a paciência”, relembrou o já citado Celinho. Aulo Jardim, ex-zagueiro e que atua hoje como comentarista de rádio esportivo relembra entre lamentos e risos as situações vividas entre ele e seus colegas na capital federal. “Deu tudo errado. Não pagaram a gente. Para dormir, um sofrimento, pois além do calor, os borrachudos atacavam. Muitos se levantavam para espantar os insetos. Ninguém descansava”. As lembranças ruins continuam ao lembrar da fome que muitos passaram. Durante os dois meses que por lá treinaram, a “comida era praticamente a mesma: arroz, carne moída e batata” e quando tinha janta, o prato era repetido. No café da manhã, dois latões de café com leite e pão com manteiga. “Isso é comida de jogador de futebol?”, questiona Jardim que depois brilhou no futebol amador defendendo tradicionais equipes na Grande Florianópolis.

O INÍCIO DO FIM

A barca que já era furada pela falta de pagamento e de condições de trabalho, começou a virar quando ocorreu um baile onde a delegação ficava hospedada e treinando. “O clube lá era tipo o LIC ou um Paula Ramos daqui de Florianópolis. Era um clube social com piscinas e um super salão de festas”, relembra Celinho. Até que num fim de semana ocorreu uma festa chique, um baile de debutantes. Os jogadores que só “sofriam e passavam fome” pediram para o então treinador Gercino intermediar junto ao presidente Major Ortiga para que os jogadores pudessem marcar presença na festa sábado à noite. Com relutância e com um “pé atrás” a autorização foi concedida. Mas com as seguintes condições: que todos se comportassem, pois era um baile dedicado às filhas dos militares. Lembrando que o Brasil vivia o período da ditadura. Época dura, de repressão. A orquestra iniciou tocando seus acordes e os nossos atletas se comportaram bem até que num determinado momento começou a voar cadeiras e mesas para todos os lados. Sabará, hoje um músico dono de uma das vozes mais bonitas do estado, apontado pelos colegas da confusão se defende: “Eu estava no balcão quando um cara lá mexeu comigo, por que eu tinha feito um gol no time dele, o CEUB, num amistoso” Daí em diante, jura Sabará que não lembra de mais nada, só do pau rocando para todos os lados. Conclusão: deu polícia militar, polícia federal, matéria na imprensa de Brasília no dia seguinte e o Major Ortiga com caras de poucos amigos. Na semana seguinte, para aliviar a barra da turma, amistosos seriam “providencialmente” marcados em Santa Catarina. Longe de Brasília, é claro. E um deles chegou a ocorrer. Foi no Norte do estado, diante do Joinville, então campeão estadual no dia 19 de março de 1977.  O Grêmio Brasiliense, apesar da derrota por 5 x 4, realizou uma grande partida surpreendendo a imprensa local. De Joinville a delegação retornou para Florianópolis. Cada jogador retornou para a sua casa e terminou dessa forma, a louca aventura “dos novos candangos”. Alguns desses atletas permaneceram no futebol profissional e vestiram as camisas de Avaí e Figueirense entre outros clubes do estado. Outros, desiludidos migraram para o futebol amador. Mas todos eles retornaram da louca aventura na capital federal sem dinheiro, sem contrato assinado e com fome, mas com muitas histórias para contar para os amigos, filhos e netos.

Ficha do jogo histórico do Grêmio Brasiliense no território catarinense diante do Joinville, então campeão do estado. O fim de uma aventura – Foto: Reprodução/NDFicha do jogo histórico do Grêmio Brasiliense no território catarinense diante do Joinville, então campeão do estado. O fim de uma aventura – Foto: Reprodução/ND

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