Drika Evarini

adrieli.evarini@ndmais.com.br Opinião, novidades, contratações e bastidores do esporte joinvilense e muito mais. Apaixonada por futebol, basquete, futsal e tudo que envolve o mundo do esporte, está sempre atenta a tudo que acontece dentro e fora dos campos e das quadras.


Público volta ao estádio em decisão que ignora matriz de risco em Joinville

Governo estadual confirmou liberação na semana passada, em decisão necessária para os públicos, mas perigosa diante do cenário da pandemia

Sem pandemia, a rampa ficaria cheia, com torcedores dividindo espaço, cantando, recepcionando o time, vendo as bandeiras e faixas da União Tricolor subindo. Nessa época, com o JEC na boa fase que vive, o jogo do próximo sábado (18), contra o Bangu, certamente seria de Arena Joinville cheia.

Estado libera a volta da torcida aos estádios mesmo em estado gravíssimo para a pandemia – Foto: Carlos Junior/Arquivo/NDEstado libera a volta da torcida aos estádios mesmo em estado gravíssimo para a pandemia – Foto: Carlos Junior/Arquivo/ND

Hoje, a capacidade é de 17.515, nas condições ideais, sem restrições e com a arquibancada coberta liberada. Mas, temos restrições e não temos arquibancada coberta disponível. Joinville, especialmente, vive situação delicada. Mais uma vez, continua no nível gravíssimo na matriz de risco da Covid-19, é a cidade com mais mortes, mais casos confirmados, mais casos ativos e poucos leitos de UTI (Unidade de Terapia Intensiva) disponíveis.

A volta do público ao estádio foi uma luta travada por meses. Os clubes, especialmente os menores e aqueles com dificuldades financeiras, como é o caso do JEC, precisam das receitas originadas pela venda de ingressos. Muito ou pouco, essa renda ajuda no fim das contas. E o Estado, finalmente, cedeu. Liberou a torcida a voltar aos estádios na Copa Santa Catarina, definiu as regras e abriu mão de algumas especificidades mais duras, como o percentual e a necessidade obrigatória de teste PCR para quem acessar as arquibancadas.

Após reunião com os clubes na segunda-feira (13), o governo estadual voltou atrás e, ao invés de limitar em 2,5 mil torcedores, independentemente da capacidade do estádio, fixou em 30% de liberação. Com isso, 5.255 torcedores poderão ver o JEC na Arena Joinville na Copa Santa Catarina, competição conquistada pelo time em janeiro deste ano.

Além disso e entre outras exigências, os torcedores terão que apresentar comprovante de ciclo vacinal completo ou testes negativos para a Covid-19 para acessar o estádio, ainda assim, com protocolos que dizem respeito a locais, distanciamento e logística.

A verdadeira “briga” travada pelos times é válida e necessária. Os clubes catarinenses precisam desse dinheiro, precisam de sua torcida e veem, por todo lugar, liberações que começaram antes mesmo de a pandemia ter sido “controlada”.

Em Joinville, comércios lotados, shoppings lotados, bares lotados e até festas acontecem enquanto a cidade continua sendo o epicentro da pandemia, continua tendo o maior número de casos e de casos da variante Delta. Os presidentes dos clubes precisam de uma verdadeira ginástica e do famoso “escolher o que pagar” em uma crise que só aumenta, enquanto parques são flagrados cheios e sem qualquer protocolo de segurança fim de semana após fim de semana.

O erro das flexibilizações resultou diretamente na constante gravidade que vive Joinville e região. Santa Catarina se pinta de laranja e amarelo, diminuindo casos, casos ativos, ocupação hospitalar e a maior cidade do estado continua mergulhada no vermelho.

Desde o início da pandemia, a justificativa para barrar o público era, justamente, a gravidade da situação e a cada tentativa de iniciar as tratativas para a volta da torcida, o estado sacava a carta coringa de “a maioria das regiões está no gravíssimo e, no gravíssimo, não há possibilidade”. Desta vez, parece que o coringa foi invalidado. O vermelho continua aqui, mas não há uma linha sequer na portaria que regulamenta a volta, que trate da matriz de risco, que a leve em consideração.

A volta é importante, até necessária, ao menos para os cofres. A maneira como foi viabilizada é que incomoda. A portaria com as regras foi publicada menos de 48 horas antes do início da competição, tão “em cima da hora” que o Caçador sequer abrirá seus portões justamente porque não teve tempo para se organizar. Publicada às pressas e sem entender as necessidades de cada região. O que valia há um ano parece não importar agora.

O que mudou? A pressão. Apenas. Porque o cenário é ainda pior. Mais mortes, mais casos, a Delta. A vacinação avança? Sim. Mas em Joinville, e ainda é uma equação a ser estudada, os casos não cessam.

O futebol é o vilão da pandemia? Claro que não. O JEC fará uma logística para evitar que o que aconteceu em Minas Gerais se repita aqui? Não tenho dúvidas. Mas, ainda assim, o que me incomoda, particularmente, é a maneira como a torcida foi “liberada”. E o argumento de apontar a liberação de outras atividades como “muleta” para a volta da torcida é um erro. Não se justifica um com o outro, aponta-se um problema e evidencia-se uma solução. Utilizar uma falha para validar um pedido é ingenuidade, para dizer o mínimo.

Acho que a Arena vai ser um foco de contaminação? Não, não acho. Mas há uma questão em cheque que envolve sensibilidade. De um lado, a sensibilidade de entender o contexto e a necessidade da torcida, de outro a sensibilidade de liberar um evento – mais um – enquanto os casos continuam se multiplicando.

Lidamos com uma situação delicada, em que interesses diversos, necessidades diversas e realidades diversas precisam ter peso. Porém, uma portaria que sequer menciona uma matriz utilizada há 18 meses para balizar ações é, no mínimo, questionável.

Fato é que o JEC tem pouco mais de uma semana para se adequar e pensar em todo o protocolo, acolhimento, cumprimento de medidas e logística com um problema a mais: continua sem a arquibancada coberta. E este é um outro assunto que também mostra a falta de cuidado do poder público com seu próprio patrimônio.

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