Lembrando heróis do passado, Criciúma celebra 30 anos da Copa do Brasil

Jogadores, torcedores e jornalistas relembram a maior conquista do clube e do futebol catarinense

O relógio marcava 18h30min, o árbitro Cláudio Vinícius Cerdeira soava o apito, iniciava ali a partida que marcaria a história do Criciúma Esporte Clube e do futebol catarinense. Foram noventa minutos de muita tensão e luta no Estádio Heriberto Hülse.

De um lado do campo um time do interior de Santa Catarina, desconhecido até então, e tido como ‘azarão’ da competição, do outro um time da capital do Rio Grande do Sul e que se destacava no cenário nacional.

Nenhuma das equipes chegou ao gol, mas, após o apito final e o empate de Criciúma e Grêmio, o dia 2 de junho de 1991 ficou marcado na história da cidade, do clube e de todo o Estado. Isso porque, sacramentou a conquista da Copa do Brasil pela equipe catarinense, já que na partida de ida da final, em Porto Alegre, as equipes empataram em 1 a 1 e naquela época o gol fora de casa era decisivo.

Vilmar (E), Itá e Vanderlei reencontram o troféu da Copa do Brasil que ergueram em 1991 – Foto: Reprodução/NDTVVilmar (E), Itá e Vanderlei reencontram o troféu da Copa do Brasil que ergueram em 1991 – Foto: Reprodução/NDTV

Nesta quarta-feira (2), fazem 30 anos deste dia fatídico em que foi conquistado o maior título nacional de uma equipe catarinense. Responsável por marcar o gol que garantiu o empate em Porto Alegre, o zagueiro Vilmar lembra com carinho até hoje do lance que ocorreu em uma cobrança de escanteio.

“Cheguei e falei assim Altair vai você para a gente ir dosando. O Itá mandou voltar o Altair. E eu fui para área. Por isso que eu acho que o gol é tão maravilhoso e histórico. Saí da grande área e antecipei o zagueiro do Grêmio”, recorda.

Um ano antes, em 1990 a equipe já tinha realizado um feito histórico na Copa do Brasil chegando na semifinal, sendo eliminado pelo Goiás.

“A base ela foi montada em 1989 na época o time foi montado com técnico Levir Culpi que tinha feito uma campanha muito boa com o Marcílio Dias. A base se manteve e em 90 semifinal e 91 título”, comenta o atacante Vanderlei. “O perder parece que acabou tudo e acredito que não, acho que quando vier perder se ganha experiência, maturidade para que ali na frente possa se reconquistar”, lembra o volante Gelson.

De desacreditado a campeão

De time desacreditado, a campeão. O Tigre devorou o Ubiratan-MS, Atlético Mineiro, Goiás, Remo e Grêmio para levantar o ‘caneco’. A hegemonia no Estádio Heriberto Hülse foi fundamental para a conquista.

“Aqui nós não perdíamos para ninguém podia vir São Paulo, Palmeiras, Corinthians todo mundo chegava aqui apanhava e apanhava mesmo”, conta o lateral e capitão do time, Itá. “Nós contávamos com uma torcida muito ferrenha, tínhamos na equipe dentro e fora de campo, uma união invejável”, completa.

Até hoje conquista é o maior título nacional de uma equipe catarinense – Foto: Site Oficial do CriciúmaAté hoje conquista é o maior título nacional de uma equipe catarinense – Foto: Site Oficial do Criciúma

Comandados pelo então desconhecido Luiz Felipe Scolari, o Felipão, a equipe composta por Alexandre Pandóssio; Sarandi, Vilmar, Altair, Itá, Roberto Cavalo, Gelson, Grizzo, Zé Roberto, Soares, Jairo Lenzi, Vanderlei, entre outros, está marcada na memória de toda a cidade.

Festa nas arquibancadas

No início da caminhada da competição, a torcida do Criciúma não acreditava que a equipe poderia conquistar o título. “Íamos no jogo porque não acreditávamos, nossa torcida praticamente não acreditava porque éramos o ‘patinho feio’”, lembra o torcedor Aderbal dos Campos.

Uma equipe organizada e que encantava, é o que lembra a torcedora Edna Zanete. “Tinha um time unido, time era massa, ganhava todas, parecia uma coisa. Eles sabiam certinho a hora de jogar para fulano de tal ou ciclano. Faziam tudo certo”, lembra ela.

Ambos os torcedores acompanharam aquela campanha de perto e estiveram no, então, Estádio Olímpico em Porto Alegre na primeira partida da final.

“Levamos quase 5 mil pessoas lá. Antes do almoço fui fazer um aperitivo em um bar na esquina do Olímpico e aí começou a passar o pessoal de Criciúma, muitos me conheciam e começavam a parar, estacionava o carro e vinha tudo pra frente desse bar”, lembra Campos. “Foi uma felicidade, a volta foi marcante e sei que foi muito lindo, principalmente e a hora que o Vilmar fez o gol, teve brigas”, lembra Edna.

Durante a partida, uma confusão foi registrada entre as torcidas. “Meu cunhado que morava ali ele era colorado, tava com a camisa do Internacional e foi aonde começou a confusão lá, começou por causa dele, por causa da camisa, os gremistas vieram arrancar a camisa dele e se deram mal, se deram mal porque conseguirmos fazer eles correr”, recorda Campos.

Na partida de volta, a festa foi grande. Durante a semana, a torcida se mobilizou com bandeiras por todos os lugares da cidade. “Aqui foi as carreatas, tudo, até caminhão tinha pessoal em cima. Foi uma felicidade”, conta. “Esse gostinho ninguém tira de nós, esse gosto de ser campeão da Copa do Brasil”, fala Edna.

Época que desperta paixões

Apesar de não ter acompanhado a conquista, foi pela curiosidade sobre o título de 1991 que Fernando Geremias começou a colecionar e se apaixonar pelo Criciúma. “O tempo mais glorioso do futebol de Santa Catarina foi em 1991 e 1992. Então comecei a buscar objetos, camisas, flâmulas, medalhas, tudo relativo àquele tempo”, destaca.

Atualmente, Fernando tem em casa um museu com mais de 600 camisas do Tigre. “Tenho desde jornais até tudo que puder encontrar do Criciúma. Já são quase 600 camisas, então tenho um quarto museu que guardo elas com muito carinho desde o Comerciário até o Criciúma”, conta o torcedor.

Histórias que a imprensa não esquece

A emoção da conquista e de poder cobrir toda a caminhada do Criciúma em 1991, não sai da memória do radialista Márcio Cardoso, que acompanha a equipe há 40 anos.

“ Ninguém acreditava, mas aí a coisa foi acontecendo. O primeiro jogo em Mato Grosso do Sul foi aquele empate lá com o Ubiratan, segundo jogo aqui em Criciúma lembro como se fosse agora. O Criciúma largou atrás no marcador e disse ‘Meu Deus não é possível’, com todo respeito ao Ubiratan, mas em casa perder. Aí veio o empate, veio a virada e aí ganhou de 4 a 1. Aí a coisa começou a acontecer”, conta.

As conversas depois do treino com o técnico Felipão, são lembradas até hoje pelo radialista. “Ele era muito legal, era uma pessoa que dava atenção para todo mundo. Dizem que depois ele ficou carrancudo, comigo não, comigo ele era uma pessoa de muito diálogo depois do treino. Depois do treino ele chamava e perguntava: ‘O que vocês querem aí?’. A gente conversava com ele, hoje tu não tem mais essa liberdade”, fala Cardoso.

Radialista Márcio Cardoso cobre o Criciúma há 40 anos e lembra com detalhes a conquista – Foto: Reprodução/NDTVRadialista Márcio Cardoso cobre o Criciúma há 40 anos e lembra com detalhes a conquista – Foto: Reprodução/NDTV

Já o radialista Rogério Dimas que, também, é um dos setoristas do Criciúma mais antigos, destaca que a união foi a grande marca daquele time que fez história. “Era uma família praticamente. Lembro que Sarandi Soares, Gelson, Alexandre Pandóssio e Itá, conviviam muito juntos entre eles, até nas horas de folga com os familiares. Era literalmente uma família do Criciúma Esporte Clube naquele temporada”, relembra.

Para ele, uma partida que marcou muito e pavimentou o título foi contra o Atlético Mineiro, que tinha um dos melhores times do país naquele ano. “Um jogo que me marcou bastante foi o Atlético Mineiro. Aqui o Criciúma venceu de 1 a 0 gol do Vanderlei de cabeça e depois no jogo de volta lá ganhou também com Roberto Cavalo gol de falta, porque todo mundo imaginou que quando chegasse ali no Atlético Mineiro o Criciúma não passaria”, afirma Dimas.

Após o apito final e a conquista do título inédito, Cardoso lembra que foi impossível entrevistar os jogadores. “ Terminou o jogo houve uma invasão. Jogadores pulando para cá e para lá. Eu queria entrevistar os jogadores para falar da conquista, consegui um ou dois porque não dava. O torcedor avançou, rasgou camisa, rasgou calção”, conta o radialista.

História contada em livro

O jornalista Jota Éder lançou recentemente de forma online o livro ‘1991- Criciúma Campão da Copa do Brasil’. A obra traz histórias inéditas da conquista.

“Até essa semana já tinha entrevistado, gravado por telefone com 47 pessoas, todos os jogadores vi os ainda porque infelizmente três deles já faleceram, falei com todos os dirigentes vivos também, membros da comissão técnica, inclusive o Felipão e alguns torcedores, jornalistas e radialistas que acompanharam aquela campanha”, conta Éder.

Tigre entra em campo pela Copa do Brasil

Não foi planejado, mas nesta quarta-feira (2), o Criciúma entra em campo justamente pela Copa do Brasil. A equipe encara o América-MG, às 21h30min, fora de casa na partida de ida e busca seguir na competição nacional.

“Uma coincidência. Logo no dia 2 de junho de 1991 quando o Criciúma foi campeão da Copa do Brasil – único time catarinense campeão da Copa do Brasil – uma coincidência muito grande e uma responsabilidade ainda maior, porque seria ótimo nesse dia do aniversário a gente dar esse presente, trazer esse resultado lá de Belo Horizonte”, ressalta o presidente do clube, Anselmo Freitas.

Relembre a trajetória do campeão:

PRIMEIRA FASE

21 de fevereiro – Ubiratan/MS 1 x 1 Criciúma – Douradão
28 de fevereiro – Criciúma 4 x 1 Ubiratan – Heriberto Hulse

OITAVAS DE FINAL

10 de março – Criciúma 1 x 0 Atlético-MG – Heriberto Hulse
20 de março – Atlético-MG 0 x 1 Criciúma – Independência

QUARTAS DE FINAL

18 de abril – Goiás 0 x 0 Criciúma – Serra Dourada
25 de abril – Criciúma 3 x 0 Goiás – Heriberto Hulse

SEMIFINAL
12 de maio – Remo 0 x 1 Criciúma – Evandro Almeida
19 de maio – Criciúma 2 x 0 Remo – Heriberto Hulse

FINAL

30 de maio – Grêmio 1 x 1 Criciúma – Olímpico
2 de junho – Criciúma 0 x 0 Grêmio – Heriberto Hulse

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