Silêncio nas arquibancadas: há quase 500 dias, SC não tem torcida nos estádios de futebol

Eventos-teste programados no Estado e avanço da vacinação reabriram o debate: por que as torcidas ainda não puderam voltar às arquibancadas?

Gritos, cantos, incentivos, orientações e reclamações. Os elementos que caracterizam uma partida de futebol costumam, na maioria das vezes, partir dos torcedores, que ocupam as arquibancadas com suas camisas, bandeiras, instrumentos e músicas decoradas. Em Santa Catarina, com a pandemia da Covid-19, o cenário é de cadeiras vazias e arquibancadas em silêncio há mais de 1 ano e 4 meses.

É nesse ambiente, com caixas de som que tentam imitar o apoio da torcida, que o Estado abriga suas competições esportivas, sejam elas nacionais os estaduais.

Neste sábado (24), são exatos 496 dias que os estádios catarinenses não recebem torcedores. Estes só conseguem acompanhar o desempenho de seus clubes por meio da televisão, do rádio ou da internet.

A situação é ainda mais desfavorável para os torcedores catarinenses que torcem para os clubes que estão nas divisões C e D do Campeonato Brasileiro. Sem transmissões pela televisão, os jogos desses times costumam ser acompanhados por sites piratas ou, às vezes, por transmissões dos próprios clubes, via Facebook.

Onde é o lugar da torcida?

Grande Florianópolis

Para os torcedores, em especial os que integram as chamadas torcidas organizadas, o jeito de torcer mudou completamente. É o que conta o diretor administrativo da Mancha Azul, José Carlos Silva Júnior, que relata uma mudança brusca no jeito de apoiar o Avaí por conta da pandemia.

Último jogo com público na Ressacada aconteceu no dia 8 de março de 2020, na partida vencida pelo Leão contra a Juventus, por 2x1 - Frederico Tadeu/Avaí/Divulgação/ND
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Último jogo com público na Ressacada aconteceu no dia 8 de março de 2020, na partida vencida pelo Leão contra a Juventus, por 2x1 - Frederico Tadeu/Avaí/Divulgação/ND
Ressacada recebeu mais um jogo sem público pelo Brasileirão Série B, quando o Avaí venceu o Operário por 1x0, em julho - André Palma Ribeiro/Avaí/Divulgação/ND
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Ressacada recebeu mais um jogo sem público pelo Brasileirão Série B, quando o Avaí venceu o Operário por 1x0, em julho - André Palma Ribeiro/Avaí/Divulgação/ND

“Mudou 100%. Nosso lugar, como torcida organizada, é na arquibancada. Nós estamos privados, entendemos o momento e o motivo, mas estamos privados de exercer a nossa atividade”. Questionado se a Mancha acredita ser um bom momento para retornar ao estádio, o diretor entende que a vacinação é um caminho de voltar à Ressacada.

“Com o aumento gradativo da vacinação, a gente entende que, pelo menos quem já tomou a segunda dose, poderia voltar, aos poucos, ao estádio”. No entanto, ele afirma que a torcida e o clube ainda não tiveram diálogos sobre um possível retorno. O diretor também relembra as poucas vezes que, durante a pandemia, houve encontro entre os torcedores para apoiar o clube.

Do outro lado da ponte

Na Capital, a situação se repete também nas cores verde, branca e preta. Rosângela da Silva, a ‘Rô’, como é conhecida a presidente da torcida Elas Alvinegra, do Figueirense, acredita que já é possível voltar ao estádio, partindo do princípio da responsabilidade.

Contudo, as integrantes do grupo só se falam pela internet, e não se encontram desde março de 2020. “Acho que temos que ter todos os cuidados mesmo. Já estamos com quase dois anos de pandemia, e nem eu e nem a minha família pegamos. De repente, seja excesso de cuidado, mas acho que a gente não peca por excesso, né”.

Ainda assim, para manter as atividades, Rô conta que em todos os jogos do Furacão do Estreito deixa a faixa da torcida no estádio, para mostrar que, de alguma forma, elas estão presentes. Ela acompanha as partidas de casa, onde também é o QG da Elas, que já soma mais de 200 integrantes.

Em março do ano passado, Figueirense recebia o Fluminense pela Copa do Brasil, vencendo o time carioca por 1x0 - Patrick Floriani/Figueirense/Divulgação/ND
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Em março do ano passado, Figueirense recebia o Fluminense pela Copa do Brasil, vencendo o time carioca por 1x0 - Patrick Floriani/Figueirense/Divulgação/ND
Pela Série C, Alvinegro bateu o São José (RS) no dia 11 de julho de 2021, com estádio vazio - Patrick Floriani/Figueirense/Divulgação/ND
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Pela Série C, Alvinegro bateu o São José (RS) no dia 11 de julho de 2021, com estádio vazio - Patrick Floriani/Figueirense/Divulgação/ND

“Tudo que eu faço no campo, eu faço aqui. Eu tenho as ‘mãozinhas’ de quando faz gol, com os números um, dois, três… também a corneta, pra quando eles entram em campo. Eu ainda me sinto dentro do Scarpelli. Consigo me sentir dentro do estádio aqui na minha própria casa”.

Sobre um hipotético retorno à casa do Figueirense, ela diz que os sócios devem ser os primeiros a voltar, até para que isso atraia novos associados ao clube. “Acho que os sócios vão acolher. Mantendo as medidas de seguranças, não tem porquê [não voltar], acho que dá muito certo e vamos conseguir estar presentes. Isso é bom para nós e para os jogadores, mas é uma questão de responsabilidade”.

Sul de SC

Há pouco mais de 200 km de distância de Florianópolis, a cidade de Criciúma abriga opiniões parecidas com as dos moradores da Capital. Fabiano Coelho, diretor de comunicação da torcida Os Tigres, do Criciúma, conta que nos últimos jogos alguns integrantes se reuniram no Criciúma Shopping, no bairro Próspera, para assistir as partidas.

Torcida em dia de jogo do Criciúma do Heriberto Hülse - Instagram Os Tigres/Reprodução/ND
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Torcida em dia de jogo do Criciúma do Heriberto Hülse - Instagram Os Tigres/Reprodução/ND
Com a pandemia, clube não recebe mais torcida no estádio, apenas o material - Instagram/Reprodução/ND
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Com a pandemia, clube não recebe mais torcida no estádio, apenas o material - Instagram/Reprodução/ND

Também houve duas recepções ao time, uma no início do Brasileirão Série C 2021 e outra na reta final da Série C 2020. Após os eventos, o grupo recebeu orientações da Polícia Militar e, com isso, as recepções não aconteceram mais.

Com uma forma de torcer virtual, por conta das transmissões dos jogos do Tigre acontecerem apenas pela internet, Fabiano pondera sobre uma volta ao Heriberto Hülse.

“Dentro da torcida, cada um tem uma opinião. A maioria acha meio injusto já ter evento com bastante público, e o estádio é muito grande, daria para fazer com 30% da capacidade ou só para sócios. Mas a gente também sabe que o futebol move emoção, e chegando lá dentro, a gente não sabe como isso iria funcionar”.

Para o diretor de comunicação, haveria possibilidade, se houvesse um trabalho desenvolvido especialmente para isso. “Se houvesse um projeto bacana, talvez só para os sócios, eu acredito que teria como [voltar ao estádio], mas teria que ser um projeto bem elaborado. Do jeito que está hoje, não tem como”.

“Já tivemos contato com o clube, estão abertos para uma conversa, mas não depende deles. Eles dizem que depende de autoridades como o Ministério Público e Vigilância Sanitária. Então, a princípio, não tem nada”, disse Fabiano.

Norte de SC

De uma ponta a outra de Santa Catarina, as torcidas seguem ansiosas por um retorno às arquibancadas de futebol. Na cadeira de presidente da União Tricolor, torcida organizada do Joinville, Diogo Veiga explica que a logística para apoiar o clube nesta pandemia mudou muito.

Antes, os integrantes entravam com o material na Arena Joinville cerca de duas horas antes. Atualmente, para instalar as bandeiras e faixas, é necessário estar no local, no mínimo, de três a quatro horas antes da partida.

Antes da pandemia, União Tricolor frequentava os jogos no estádio - Yan Pedro/Joinville/Divulgação/ND
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Antes da pandemia, União Tricolor frequentava os jogos no estádio - Yan Pedro/Joinville/Divulgação/ND
Em julho, Arena Joinville segue sem receber torcedores - Vitor Forcellini/Joinville/Divulgação/ND
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Em julho, Arena Joinville segue sem receber torcedores - Vitor Forcellini/Joinville/Divulgação/ND

Em Joinville, após a instalação, os torcedores precisam sair da arquibancada, só voltando 20 minutos após o fim do jogo, para a retirada.

Questionado sobre a recepção dos públicos numa possível volta, Veiga diz que muitos lugares, como mercado e transportes públicos estão com aglomeração ‘gigantesca e ninguém fala nada’.

“Não tem distanciamento. No estádio, poderiam liberar uma certa porcentagem, no máximo 30%”. Ele ressalta que é possível fazer uma demarcação no local. “Sei que vai ser difícil, mas o povo tem que se respeitar um pouquinho também”.

Vale do Itajaí

Na região do Vale do Itajaí, clubes como Marcílio Dias e Brusque também sentem a falta da presença do torcedor.

“É uma experiência que eu não quero ter tão cedo de novo”, descreve Filipe Mega, presidente da Fúria Marcilista. Acostumado a ver o jogo no estádio, ele conta que ainda é estranho acompanhar as partidas na televisão, em especial com o Marcílio Dias, que não está disputando competições transmitidas em rede aberta.

Torcida do Marcílio Dias lotou o estádio no Campeonato Catarinense 2020 - CNMD/Divulgação/ND
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Torcida do Marcílio Dias lotou o estádio no Campeonato Catarinense 2020 - CNMD/Divulgação/ND
Foto tirada no início de 2020 mostra como o estádio do clube fica sem a presença do torcedor - Bruno Golembiewski/CNMD/Divulgação/ND
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Foto tirada no início de 2020 mostra como o estádio do clube fica sem a presença do torcedor - Bruno Golembiewski/CNMD/Divulgação/ND

Sobre uma volta às arquibancadas, ele relata que o tempo sem público foi válido por conta da pandemia, mas que agora outros meios já voltaram e não teria mais motivo para os estádios não adotarem medidas sanitárias. “Precisa voltar, precisa voltar a girar. Tá falindo muitos clubes.”

Para a Força Independente, do Brusque, representada pelo presidente Airton Raiser, o Tom, manter os torcedores privados de acesso ao estádio não faz sentido. “Acho que não é valido, porque os bares da cidade estão fazendo shows e tudo mais, e ninguém faz nada. Não sei porque só a gente tem que pagar o pato. Ou proíbe tudo ou libera tudo”.

Em 2019, Brusque levantou o troféu de campeão da Série D junto da torcida - Lucas Gabriel Cardoso/Brusque/Divulgação/ND
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Em 2019, Brusque levantou o troféu de campeão da Série D junto da torcida - Lucas Gabriel Cardoso/Brusque/Divulgação/ND
Em 2021, clube registrou queda no npumero de sócios e não pode mais receber o publico em SC - Lucas Gabriel Cardoso/Brusque/Divulgação/ND
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Em 2021, clube registrou queda no npumero de sócios e não pode mais receber o publico em SC - Lucas Gabriel Cardoso/Brusque/Divulgação/ND

No Oeste de Santa Catarina, a torcida organizada da Chapecoense foi procurada, mas não houve resposta até a publicação deste matéria.

Da porta do estádio para fora

Questionados se as torcidas organizadas poderiam auxiliar como uma espécie de agente fiscalizadora, com relação às aglomerações feitas nos arredores dos estádios, os representantes tem opiniões diferentes sobre o assunto.

“Acredito que sim. É complicado, pessoal está na ânsia de quase dois anos sem ver um jogo, de reencontrar os amigos, de tomar uma cerveja e de conversar. Acho que ficaria meio difícil, sim, ter um controle referente à isso. Mas a gente também acredita que a vacinação está avançando. Quem sabe, daqui a pouco, já podemos estar lá dentro de novo”, diz Fabiano Coelho.

Para Diogo Veiga, seria uma boa tentativa. “Poderia ajudar. Se eu estou indo para um jogo, tomar uma geladinha, e estou vendo que tem uma galera aglomerada lá, eu vou é ficar perto de quem eu conheço, de quem já pegou a Covid-19, quem já tomou a vacina, eu vou me preservar. Acho que a maioria do povo também tem um pouquinho de consciência”.

Para Rô, é possível haver um controle. “O público que fica nos arredores, geralmente são torcedores das organizadas, que encabeçam aquilo ali. Cada torcida organizada pode orientar os seus integrantes, com distanciamento e sabendo lidar com a situação. É o que já está acontecendo em tudo quanto é lugar, mas precisa ter responsabilidade”.

Ela conta que havia reunião com a Polícia Militar já para definir a colocação de faixas no estádios vazios e que, agora, poderia ocorrer da mesma forma. “Chamem os presidentes da organizadas para encabeçarmos esse cuidado externo”.

A Mancha Azul tem esperança de voltar a frequentar a Ressacada e o seu entorno até o mês de novembro, a depender do avanço da vacinação. A torcida, que já promoveu encontros alegando que utilizou das medidas sanitárias, ainda poderia seguir os mesmos cuidados contra a Covid-19.

Para Mega, presidente da Fúria Marcilista, essa função não é responsabilidade dos torcedores. “Acho que a função da torcida é de apoiar e torcer pro time. A conscientização é de cada um, cada um sabe da sua casa e do risco que representa. Não cabe à torcida organizada, não”.

“Se eles questionam o entorno, é uma coisa simples. Em grandes eventos, se faz uma barricada, fechada a 1 km do estádio, ou quarteirão, coloca efetivo e só passa dali quem tiver ingresso comprado antes, sem ter venda de bilheteria na hora [do jogo]. Em jogos de Copa do Mundo é feito isso aí e nos clássicos também”.

Tom também entende que a organizada poderia auxiliar na manutenção das medidas sanitárias. “Seria tranquilo e a gente conseguiria, sim, com campanhas e até cobranças”.

Ele também acredita haver várias formas de controlar, como com a venda de ingresso antecipado, pela internet e barreira policial em dia de jogo, entrando apenas quem tem ingresso.

Organizadas até na pandemia

A organizada do Criciúma, para se manter durante a pandemia, realizou campeonatos de videogame, movimentando bastante a sede da Os Tigres, além de promover a manutenção dos chamados trapos, que são as bandeiras e faixas, todo jogo colocadas no estádio entre um e dois dias antes da partida. Também houve ensaios da banda, de  15 em 15 dias. No entanto, não há mais encontros e churrasco entre o grupo.

A União Tricolor informou que a situação é mais complicada. “Tá bem complicadinho. A gente não vive com dinheiro do clube, e sim dos associados da torcida e das ações sociais. Já fizemos parcerias para instalar a nossa sede, para diminuir o valor do aluguel. Com a pandemia, diminuiu a frequência dos integrantes”. Contudo, desde o início do ano, o grupo tem sem reunido mais vezes para acompanhar os jogos do time.

A torcida Elas Alvinegra segue sem encontros presenciais. No QG da torcida, na casa de Rosângela, o apoio fica restrito aos familiares. Dentre as 200 integrantes, todas seguem acompanhando o clube de casa.

A Mancha Azul, no início, encerrou as atividades presenciais. “Partimos para o cuidado com o social, auxiliando as comunidades, principalmente as mais carentes da Ilha, com alimentação e higiene e com a população de rua do Centro”.

A Fúria Marcilista passou por diferentes momento durante a pandemia. No início do problema sanitário em Santa Catarina, os torcedores não tinham sede. Contudo, no decorrer dos meses, conseguiram um espaço para receber os torcedores, promover encontros para acompanhar os jogos e outras funções.

A Força Independente, do Brusque, explica que o período pandêmico foi difícil financeiramente. “Foi complicado manter as atividades fora do estádio, principalmente [do ponto de vista] financeiro, porque se não tem jogo, não tem o que cobrar dos integrantes. A gente ainda se reúne pra ver jogos, mas é bem complicado”.

Cartolas na pandemia: vontade e necessidade

Brusque

Para o presidente Danilo Rezini, do Brusque, a volta aos estádios é um ponto a ser considerado. Disputando a Série B, o clube ainda não recebeu o torcedor em casa para acompanhá-lo na competição nacional. Durante a pandemia, a ausência atingiu o time financeiramente, que teve uma queda “considerável”, no número de sócios, como outros clubes do Estado.

“Prejudicou muito. De qualquer maneira, buscamos alternativas, fizemos contenção de despesas, viabilizamos outros projetos para viabilizar fundos pro caixa”. O clube ainda contou com o dinheiro recebido pela CBF, através do avanço às quartas de final da Copa do Brasil 2020 e dos jogos da Série B 2021.

Perguntado se acredita que o futebol está pronto para receber os torcedores novamente, o presidente é enfático. “Acho que se tem um segmento totalmente preparado para enfrentar pandemia, é o futebol”.

“Estamos cumprindo todos os protocolos de saúde dos governos Federal e Estadual. A Federação Catarinense de Futebol e a CBF fazem exigências muito fortes. Todos os atletas e comissão são testados antes dos jogos. Estamos totalmente preparados, no inicio éramos contra, mas hoje já é um pouco diferente”.

Com relação às aglomerações externas, Rezini entende que esse ponto seria responsabilidade do clube dentro do estádio. Fora dali, da segurança pública.

Marcílio Dias

Tarcísio Guedim, vice-presidente do Marcílio Dias, revela os problemas financeiros do clube. O Marcílio, que tem sua fonte de renda principal na bilheteria e no consumo dentro do estádio e no entorno, caiu de 3 mil associados, em fevereiro de 2020, com os quais faturava quase 100 mil reais por mês, para 700 sócios ativos no segundo semestre de 2021, lucrando quase 30 mil reais deste número.

A solução foi adiantar patrocínio, mas a conta acabaria chegando depois. Atualmente, o clube diz que considera urgente a volta das torcidas, afinal, define que o associado não deseja necessariamente um desconto para pagar a mensalidade de sócio, mas sim uma “contrapartida”. “No nosso caso, é entrar no estádio, assistir o jogo sem pagar e não pegar fila na bilheteria”.

“Muitas coisas foram liberadas. Há todo o padrão de segurança, os estádios em Santa Catarina são todos abertos, eu não veria problema em colocar 30% da capacidade do estádio”

Perguntado sobre a aglomeração no entorno, o vice-presidente diz que isso já acontece em outros locais. “A aglomeração já acontece mesmo sem ter o público. Colocando as pessoas que aglomeram para dentro do estádio, é possível fazer um controle maior, porque os bares já estão lotados”.

Chapecoense

Presidente da Chapecoense nesta temporada de 2021, Gilson Sbeghen acredita que já é o momento para se pensar num retorno. “Acreditamos, sim, que seja possível já planejar a volta. Estamos num momento que a pandemia esta num nível decrescente, com aumento no índice da vacinação da população”.

O mandatário ainda estimou um prazo, no qual imagina já receber a torcida verde e branca na Arena Condá. “Acredito que para mais 30 dias ou 40 dias seja possível, sim, mas com todo cuidado, com todo o regramento, com distanciamento, com as medidas sanitárias aplicadas em todos os casos e com redução de público também”.

Joinville

No primeiro ano de mandato, Carlos Fischer também destacou como a falta da torcida refletiu no campo e nos cofres tricolores. Com mais de 50% dos sócios perdidos na pandemia, o clube estima também ter deixado de faturar cerca de 2 milhões de reais com a bilheteria da Arena Joinville.

Perguntado se o torcedor poderia ter sido incluído na preparação dos eventos-teste, programados para começar em 29 de julho em Santa Catarina, Fischer entende que os protocolos de segurança poderiam garantir a saúde dos presentes.

O mandatário acredita que um retorno gradativo, entre pessoas vacinadas, com testes PCR feitos e ainda um baixo percentual presente, em torno dos 30%, o estádio seria seguro, além de planejar o distanciamento e a venda de ingressos antecipada.

Estimando uma previsão, Fischer imagina que setembro seria o mês ideal para que esta retomada fosse planejada.

Criciúma

Anselmo de Freitas, presidente do Criciúma, foi outro dirigente que ressaltou os problemas financeiros. O mandatário cita as despesas com arbitragem e abertura do estádio do time para jogos, relembrando que não há uma receita de bilheteria para auxiliar no caixa do clube. Além disso, no início da pandemia, o Criciúma registrou uma queda no número de sócios, mas garante estar com as contas em dia.

Em decreto publicado pela SES (Secretaria do Estado da Saúde), que garantia a realização de eventos-teste para mais de 500 pessoas, desde que respeitadas as medidas sanitárias, o Criciúma aproveitou o momento para elaborar um protocolo de segurança e, assim, fazer uma solicitação ao Governo do Estado.

Protocolado na Secretaria de Saúde, o clube aguarda um retorno das autoridades. No entanto, em tratativas com a CBF, a entidade nacional informou que, mesmo que liberado o acesso do público aos estádios em Santa Catarina, isso não poderia ocorrer em competições nacionais. A CBF aguarda a liberação do Ministério da Saúde em todas as unidades federativas do país.

No protocolo elaborado, estão inseridos o uso de máscara, utilização de álcool, e o distanciamento. “Todos os estádios em Santa Catarina são abertos, de livre circulação de ar, mas os clubes também tem que tomar as medidas cabíveis”.

Autoridade no assunto

Superintende de Vigilância em Saúde de Santa Catarina, Eduardo Macário explica a relação entre o decreto, que ainda proíbe torcedores nas competições esportivas até 31 de agosto, e a volta dos públicos.

Ele ressalta que a situação epidêmica é de extremo alerta em toda Santa Catarina. Ainda não há panorama tranquilo, com uma alta taxa de casos ativos e de internações em leitos de UTI. 50% de Santa Catarina já recebeu a primeira dose, mas somente 15% receberam a segunda, finalizando o ciclo vacinal. “Ainda é necessário um cuidado”.

Com relação aos eventos-teste, o superintendente é enfático. “São eventos-teste. A situação é de gravidade. Eurocopa também registrou aumento de casos com a volta dos públicos aos estádio de futebol. É  necessário que os indicadores apresentem uma melhora na situação epidemiológica de Santa Catarina, por isso não é momento de retorno”.

Com relação às aglomerações que o futebol provoca, Macário destacou que ainda é necessário um debate sobre os gestores de saúde dobre o tema.

“Os estádios promovem grandes públicos, gerando aglomerações, é necessário um debate entre os gestores de saúde para que esta volta ocorra. 75% de cobertura vacinal é o ideal para que atividades com idas aos jogos de futebol possam ocorrer de forma mais segura, atingindo um patamar de imunidade coletiva”.

“Evitar a transmissão da Covid-19, que pode levar a óbitos e casos graves, é o que faz a vacina, mas ela não bloqueia contra casos leves ou assintomáticos. O risco de transmissão ainda é alto”, relembrou.

O superintendente também reforça que, apesar de a data limite estimada pela SES em vacinar todos os adulto de Santa Catarina seja 31 de agosto, isso só deve ocorrer se o Ministério da Saúde fornecer as doses.

Sobre um retorno, Macário finalizou dizendo que ainda vai depender de mais fatores. “Vai depender da situação. Se houver redução de casos e mais vacinas, isso deve ser construído de acordo com o quadro sanitária. Atualmente, não tem segurança. Haverá ainda uma necessidade de transição, em comum acordo”.

Ponto de vista dos infectologistas

Consultado pela reportagem, o médico Fabio Gaudenzi, infectologista da Dive/SC relata que ainda não é possível retornar com segurança.

“Infelizmente, de acordo com o observado em países que mesmo com uma cobertura vacinal mais robusta que o Brasil e Santa Catarina e taxas de transmissão mais baixas que as observadas aqui tiveram surtos após os eventos-teste para o retorno”.

“Desta forma, no atual cenário epidemiológico catarinense e ainda com a iminência da entrada da variante Delta, não se recomenda o retorno às atividades desportivas com público neste momento”.

Ele também lembra que os eventos podem disseminar o coronavírus com maior incidência. “Mesmo nas regiões com menos casos, eventos desportivos podem se tornar espalhadores da Covid-19, uma vez que pessoas de outras regiões, com maior número de casos acabarão frequentando os eventos”.

“Até o momento, nos eventos esportivos realizados durante a pandemia, não foi possível manter as regras de adequadas de distanciamento e uso de máscara, as pessoas acabam quebrando as barreiras impostas, principalmente em comemorações durante os jogos ou mesmo antes e depois do evento”, relembra Gaudenzi.

Por fim, não há uma estimativa, em números, de quanto a Covid-19 poderia se espalhar através das torcidas. “Não há como prever o impacto de eventos. Até um pequeno evento bem controlado, caso tenha um surto da variante Delta, pode impactar gravemente na saúde de todo o Estado”.

Entidades do futebol

Questionada sobre o assunto, a FCF (Federação Catarinense de Futebol) declarou que tem interesse no retorno de público aos estádios, mas no momento não irá se manifestar.

Contudo, vale ressaltar que a CBF não autoriza um Estado a voltar a receber público e outros não, pois poderia favorecer determinadas equipes. Com isso, os clubes catarinenses, caso fossem liberados a receber público, só poderiam abrigar seus torcedores em competições estaduais.

Tanto o Avaí quanto o Figueirense foram procurados pela reportagem do ND+ para contribuir com o debate proposto nesta matéria, mas não houve retorno até a publicação da mesma.

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