Futebol: Jaraguaense organiza campanha para realizar sonho de jogar nos EUA

Aos 23 anos, Joane Ribeiro Garcia embarca para a Califórnia depois de superar o preconceito e a falta de estrutura do futebol feminino no Brasil

“Quando abandonei o futebol, uma parte de mim ficou quebrada”. Acostumada a fazer a bola rolar pelos campos do país desde os sete anos de idade, a jovem Joane Ribeiro Garcia se viu ‘obrigada’ a abandonar o que mais ama. Os motivos? Preconceito e falta de estrutura.

Joane Ribeiro Garcia deu os primeiros chutes aos sete anos e hoje, aos 23, pode realizar o sonho de jogar profissionalmente nos Estados Unidos – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

A atleta nascida em Jaraguá do Sul sofreu em mais de uma cidade: Joinville, Blumenau, Belo Horizonte e nem a paixão pela bola e o talento nato a fizeram aguentar as frustrações do descaso com o futebol feminino no Brasil. O sonho iniciado ainda na infância foi interrompido dez anos depois e, aos 17 anos, Joane abandonou os gramados.

Mas, se ao abandonar os campos uma parte da jovem catarinense ficou quebrada, hoje, aos 23 anos, ela se prepara não apenas para colocar o curativo, mas para curá-lo de vez. Joane embarca, em outubro, para realizar o sonho cultivado há quase duas décadas: se tornar jogadora profissional de futebol.

A jogadora jaraguaense conseguiu uma bolsa de estudos na Westcliff University, em Irvine, na Califórnia e, além de estudar Business com foco em esporte, irá jogar profissionalmente na Liga universitária.

“As rotinas de treino são bem cansativas, é treino todo dia. Meu coração está emocionado, é realmente algo que toma conta de mim, dos meus desejos. É um sonho mesmo. Eu quero poder falar, em três meses, que consegui chegar e que estou fazendo acontecer. É o meu sonho de vida”, fala.

Se a viagem está batendo na porta, os custos também estão e, para arcar com a vida nos Estados Unidos enquanto não pode trabalhar, Joane organizou uma vaquinha. As doações têm acontecido, mas a meta ainda está longe de ser batida. O objetivo: R$ 60 mil. O valor arrecadado: R$ 18.462.

A atleta explica que o dinheiro será destinado para o pagamento de moradia e despesas com a casa. Depois de um ano de faculdade, ela poderá trabalhar. “Meu plano depois é conseguir trabalhar e me sustentar”, diz. Joane irá morar com outras quatro meninas do time e fala que relutou em fazer a vaquinhaa virtual.

“Minha mãe sempre me apoiou, ela me criou para o mundo e disse que iria pegar um empréstimo, mas ainda não conseguiu. Foi aí que meus amigos insistiram para fazer a vaquinha. Fiquei com medo de me expor, mas acabei cedendo e está dando certo”, diz. As doações podem ser feitas pela plataforma Abacashi e os valores são abertos.

“A passos lentos, a mudança está acontecendo”

Jovem e talentosa, Joane já carrega uma bagagem pesada quando o assunto é futebol feminino no Brasil e o peso não é somente pelos anos de dedicação ao esporte, mas pelas experiências vividas em Joinville, Blumenau e Belo Horizonte.

Ela conta que a “rodagem” para jogar nas cidades mostrou o descaso com o qual o futebol feminino é tratado no país, mas também admite que “a passos lentos a mudança está acontecendo”, mas ressalta que a mudança só está ‘engatinhando’ graças às jogadoras, não aos que comandam o esporte.

A primeira parada da atleta jaraguaense foi em Belo Horizonte, onde começaram os preconceitos devido à sexualidade e o choque de realidade com a falta de estrutura.

Depois de começar nas escolinhas em Jaraguá do Sul e, aos 12 anos já disputar campeonatos sub-15 e sub-17, a família mudou para Minas Gerais e a adolescência a fez descobrir, além da paixão pelo futebol, quem ela realmente era. A homofobia que sofreu em uma escola que, inclusive, tirou sua bolsa de estudos, não a fez desistir, mas deixou e ainda deixa marcas. “Eu já sofria bullying na infância por ser diferente, por andar com meninos, por jogar com eles, por não performar feminilidade, não ter cabelo liso. Eu sofri e sofro até hoje, isso não mudou. Hoje em dia as pessoas falam sobre o assunto, não é algo velado, mas sofri muito”, fala.

Foi em Minas Gerais que a possibilidade de jogar nos Estados Unidos foi apresentada à Joane, mas sem condições financeiras, ela precisou guardar o sonho para depois.

Joane embarca para os Estados Unidos em outubro e vaquinha on-line foi aberta para auxiliá-la no primeiro ano de bolsa – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Enquanto isso, Joinville foi o destino da atleta que chegou à cidade do Norte de Santa Catarina e deu de cara com a falta de estrutura das equipes femininas de futebol. “Eu tinha 15 anos e tive a verdadeira experiência do que era o futebol feminino no Brasil, tive a verdadeira visão”. A experiência não durou muito: um ano. Ela conta que morava em uma casa com outras 10 meninas e apenas um banheiro para todas. Além disso, o apoio era limitado, conta. “O técnico fazia compras uma vez por mês, deixava na casa e nós tínhamos que dar um jeito. Foi bem difícil”, lembra.

A segunda experiência durou seis meses, em Blumenau. “Praticamente a mesma situação, três meninas em cada quarto, um banheiro para todas”, fala.

O choque de realidade e a falta de perspectiva a fizeram abandonar o futebol, mas a paixão falou mais alto e ela voltou aos treinos em Florianópolis, onde mora atualmente e se dedicou a procurar uma agência que pudesse viabilizar o sonho de jogar nos Estados Unidos. Depois do contato com diversas universidade e mais de 300 vídeos e cartas de apresentação enviadas, Joane recebeu uma boa proposta da Flórida, mas a bolsa foi cortada devido à pandemia. “Foi muito frustrante porque já estava no processo de enviar a documentação”, diz. Sem desistir, a jogadora continuou e recebeu, finalmente, a proposta que está prestes a se tornar realidade.

Para Joane, o cenário do futebol no Brasil está mudando porque as jogadoras estão mais conscientes e ativas. “Eu acho que hoje em dia o futebol feminino está passando por uma revolução, desde a Copa do ano passado, quando ele teve uma visibilidade maior, quando as atletas começaram a se posicionar, a pedir visibilidade, a falar sobre as questões que não eram faladas. O medo era sempre falar e ter menos ainda. A revolução começou e eu acredito que vai ser cada vez maior, as mulheres estão buscando mais igualdade e saindo um pouco daquela bolha”, avalia.

E apesar de ter tido a frustração de lidar com o futebol feminino sem respaldo no Brasil, ela ressalta que a experiência foi importante para o próprio amadurecimento e formação. “Foi muito importante passar por isso, entender a invisibilidade do futebol feminino. Foi importante parar de jogar, tomar consciência política, conhecer outras pessoas, outras culturas e aprender o quanto é importante lutar por igualdade. Me trouxe uma perspectiva e um amadurecimento muito grande”, finaliza.

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