Goleira de SC fala sobre dificuldades e superação para jogar futebol em Portugal

Luiza Jesus, de 26 anos, natural de São José, assinou recentemente com o Atlético Clube de Portugal, da primeira divisão, mas passou por situações difíceis no país

A goleira Luiza Jesus, de 26 anos, natural de São José, na Grande Florianópolis, estreou pelo Atlético Clube de Portugal, que disputa a BPI, a primeira divisão do futebol feminino do país, no mês de dezembro.

Luiza durante apresentação no Atlético Clube de Portugal – Foto: Atlético Clube de Portugal/DivulgaçãoLuiza durante apresentação no Atlético Clube de Portugal – Foto: Atlético Clube de Portugal/Divulgação

A atleta, que deu os primeiros passos no futebol em Florianópolis, conversou com a reportagem do ND+ e falou sobre a carreira, vida em Portugal, dificuldades que enfrentou na adaptação e a ligação com Santa Catarina.

Luiza ganhou destaque nacional ainda no futebol 7. Com a camisa do Figueirense/Paula Ramos ela conquistou três Mundiais Interclubes, além de títulos nacionais e continentais.

Em 2018 vestiu a camisa da seleção brasileira da modalidade e foi eleita pela Confederação Mundial de Fut7 a melhor goleira do mundo.

No ano seguinte, no entanto, optou por recomeçar a carreira no futebol de campo e foi convidada a atuar pelo Avaí/Kindermann. Ela foi reserva da goleira Bárbara, da seleção brasileira, e acabou tendo poucas oportunidades.

Luiza recebeu surpresa da família durante partida – Foto: Arquivo PessoalLuiza recebeu surpresa da família durante partida – Foto: Arquivo Pessoal

Depois disso, seguiu para o Real Ariquemes, no interior de Rondônia, até se transferir para o A-dos-Francos, situado em uma pequena cidade no interior de Portugal.

O maior desafio, além da mudança para outro país, foi deixar os pais, Hercílio e Rose, os três irmãos, Mateus, Gabriel e Leonardo, além do sobrinho, Bernardo.

Luiza ainda teve uma passagem pelo Atlético Ouriense, onde não atuou e enfrentou problemas de relacionamento com o clube, até se transferir ao Atlético Clube de Portugal.

Confira a entrevista ao ND+ na íntegra:

Chegada ao novo clube:

Luiza: É um excelente clube [Atlético Clube de Portugal], estávamos em negociação ainda quando estava no Brasil, mas por alguns trâmites burocráticos conseguimos fechar contrato somente agora na segunda fase do campeonato. Me senti muito bem recepcionada por parte das atletas, também por toda equipe técnica e direção. Fazia tempo que não me sentia feliz e valorizada como profissional e como pessoa.

Estreia e ansiedade:

Luiza: Tive a oportunidade de fazer a minha estreia no dia 12 de dezembro, o que para mim foi uma alegria enorme pois estava a pouco tempo treinando com o plantel e por chegar recentemente fiquei muito feliz com a oportunidade que o mister Hugo [treinador] me deu. O frio na barriga é comum, eu costumo brincar que eu posso jogar até os 100 anos que vou sentir frio na barriga. É aquela ansiedade pré-jogo, que é normal.

Luiza estreou pelo Atlético Clube de Portugal em dezembro – Foto: Atlético Clube de Portugal/DivulgaçãoLuiza estreou pelo Atlético Clube de Portugal em dezembro – Foto: Atlético Clube de Portugal/Divulgação

Vida em Portugal:

Luiza: Treinamos quatro vezes na semana no campo do clube e normalmente, quando não estamos com atletas positivadas para a Covid-19, disputamos aos finais de semana a primeira divisão da Liga BPI, principal campeonato na categoria senior feminino aqui em Portugal. Atualmente moro com uma atleta do clube, Mas tive a felicidade de receber meu irmão, Mateus, durante um mês aqui no país, onde ele pôde me acompanhar nos treinos, nos jogos e viver de perto a minha rotina como atleta profissional. Viver longe da família é difícil, então esse um mês serviu para matar a saudade e recarregar as energias para o restante da temporada.

Ligação com Santa Catarina:

Luiza: Devo muito a Santa Catarina, região onde nasci, cresci e me descobri como atleta. Lá tive a felicidade de conquistar muitos títulos em equipe, mas principalmente individuais, cada um com um gosto diferente e uma sensação única. Mas além de Santa Catarina, o clube que me descobriu, Figueirense, foi primordial para o meu crescimento.

Futebol 7:

Luiza: Agora em 2022 eu completo cinco anos atuando como goleira. Eu era atleta de linha e foi no Figueirense que comecei a me familiarizar embaixo das traves. Em 2016 que eu realmente decidi que queria seguir carreira nesta posição. Em 2017 foi um ano diferente, de mudanças físicas, psicológicas e até mesmo sociais. Foi através destas mudanças que consegui alcançar logo no primeiro ano atuando como goleira o título de melhor goleira do mundo no futebol 7. Em 2018 tive a felicidade de novamente ser eleita por duas vezes consecutivas a melhor goleira do mundo no futebol 7.

Transição para o futebol de campo:

Luiza: No final de 2018 recebi uma proposta do Avaí/Kindermann. Como o futebol 7 não conseguia me proporcionar a vida que eu queria, de treinamentos todos os dias, morar em alojamento, fazer academia, ter um acompanhamento com profissionais formados na área, eu resolvi realmente mudar e aceitar a oportunidade, e foi no Kindermann que comecei de verdade a ter uma vida de atleta profissional, que por acaso me apaixonei, sigo por aqui até hoje e irei me aposentar jogando campo.

Dificuldades e preconceito:

Luiza: A maior dificuldade que já tive na vida foi no Atlético Ouriense, foi ainda esse ano [2021]. Precisei trabalhar fora, no pesado, além de treinar no clube, uma vez que o salário não conseguia me dar condições de me manter. Lá [clube] me prometeram muitas coisas e não tive nada, então tive que inclusive largar o futebol por um tempo e fique só trabalhando em uma fábrica. Cheguei aqui [Portugal] e nada era cumprido, ainda sofri discriminação por parte do treinador. Foi quando meu psicológico não aguentava mais e pedi para sair.

Trabalho na fábrica e retomada na carreira:

Trabalhava no turno da madrugada, acordava todos os dias às 4h15, Saia de casa 5h, Chegava às 5h20 no trabalho, me arrumava e batia o ponto às 5h50h. Eu era manipuladora de bacalhau, trabalhava com máquinas, com embalagens, com cortes, fazia de tudo um pouco. Minha mãe chorava, não aceitava eu estar passando por aquilo. Até que o técnico Hugo Duarte, do Atlético de Portugal, me procurou. Ele me dizia que eu era atleta de ponta, que eu tinha muita qualidade e merecia estar jogando. O clube me ofereceu um salário baixo, falei que não tinha como ir por esse valor, mas o Hugo confiava tanto no meu trabalho que ele conseguiu dobrar o valor que eu recebia no Ouriense, aí sim tive condições de vir.

Reação da família quando saiu do Brasil:

Luiza: Minha família sempre soube do meu instinto aventureiro, eles e meus amigos brincam que eu sou do mundo. Eu gosto do novo, gosto de viver, gosto de agarrar as oportunidades. No Brasil tive a oportunidade de jogar em muitos lugares, então estava sempre viajando, mas quando a notícia em definitivo veio, ficamos todos em choque. Digo ‘ficamos’ porque até eu fiquei, mas na minha cabeça seria somente mais uma viagem, mas na deles seria a viagem da minha vida. Todos me apoiaram, ficaram surpresos, mas falaram ‘vai’. Então, apesar do susto, tive apoio do começo ao fim.

Pandemia da Covid-19:

Luiza: Fui embora do Brasil exatamente no meio da pandemia. A preocupação era imensa, tanto deles [família] comigo, quanto de mim para eles. A situação que estamos vivendo é delicada, inclusive perdi meu tio para a Covid-19, ainda quando estava no A-dos-Francos. Sigo daqui monitorando eles como eu posso, ligando, fazendo chamada de vídeo e também sempre em contato pelo WhatsApp, não é a mesma coisa, mas pelo menos a preocupação ameniza quando estamos sempre em conexão.

Expectativa para 2022:

As expectativas são sempre as melhores, continuar me dedicando, focada e sempre fazendo o que eu posso, nas condições que eu tenho. A seleção brasileira é sim um objetivo, e, enquanto eu tiver chances, continuarei batalhando para alcançar todos os sonhos que almejo.

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