Cacau Menezes

Apaixonado pela sua cidade, por Santa Catarina, pelo seu país e pela sua profissão. São 45 anos, sete dias por semana, 24 horas por dia dedicados ao jornalismo


A noite que Maradona me acolheu na Alemanha

Sozinho, apareceu um deus e me chamou

Sim, é verdade, morreu Diego Armando Maradona, hoje,   25 de novembro de 2020, Dia da Padroeira de Santa Catarina. Notícia explodindo no mundo todo. Porque ele foi depois do rei Pelé o melhor e mais polêmico jogador do mundo.  Muitos, inclusive brasileiros, até achavam que era melhor do que Pelé, comparando a vida fora dos gramados para ai sim dizer que Pelé foi o melhor.

Maradona jogou até onde quis, carreira que assim como a de Ronaldinho Gaúcho, foi além da conta. Fizeram fama e fortuna com os pés, e depois foram curtir a vida. Maradona mais incontrolável do que o craque brasileiro.  Ele mesmo reconheceu num dos muitos documentários sobre sua vida que  só não foi mais longe por causa da cocaína, que já em Nápoles, no auge, o fazia trocar o dia pela noite. E como muitos vencedores, também perdeu para as drogas.

Sendo o que foi, na mesma época que surgiu para encantar o mundo, logo se tornou ídolo não só no seu País, como  no mundo. A geração sexo, drogas e rock and roll o abraçou, a mídia não o largava, os gols e jogadas pareciam editadas. Aparecia, finalmente, um maluco beleza fazendo chover no futebol. Desse eu vi tudo. Ora rezando por sua recuperação, ora reclamando por não ter 0,1% da sua habilidade para representá-lo no meu time de futebol, o Beijo. O vi jogar contra nós nas Copas da Espanha e  Itália, e estava na Copa em que foi pego com dopping, nos EUA.  De lá para cá, Maradona se divertiu com festas, posições políticas fortes, internações, prisões, escândalos. Sempre notícia de primeira página.

Sua despedida do futebol, levei o Beijo todo para Buenos Aires. Foi  emocionante ver  La Bombonera lotado de argentinos gritando seu nome e cantando suas músicas. Naquele dia também éramos argentinos. E Pelé estava lá, ovacionado na cidade toda.

Depois o encontrei pessoalmente em Munique, na Copa da Alemanha em 2006, no restaurante do hotel onde estávamos hospedados, nós da RBS, e a equipe da Rede Globo. Toda noite era uma festa no restaurante. Numa dessas noites fiquei  sozinho, quando Maradona e mais dois amigos chegaram para jantar. Ainda parecia o Deus que os argentinos achavam que ele era. Isolaram uma área para eles. De longe fiz sinal pedindo  uma foto. Imagina se eu ia perder essa oportunidade.  Tanto tempo esperando por isso. Com a mão mandou-me esperar. 10 minutos depois levantou e foi ao meu encontro.  Não só fez essa foto ao meu lado, como mandou eu  sentar com eles. Foram 45  minutos bem contados, um tempo de um jogo de futebol, de conversa sobre geral  e um vinho branco alemão no balde de gelo. Era  Verão em Munique. Eu com Diego. Que alegria! Naquela noite em Munique, os colegas da RBS foram a um jantar em Stuttgart, de trem, mais ou menos perto,  na casa de um gerente do Banco do Brasil que era gaúcho. Só que não me convidaram. E foi proposital. Naquela noite, meio que triste,  Maradona me acolheu.

No último dia 28 de outubro, quando ele  fez 60 anos, procurei entre centenas de fotos, essa  minha em Munique com ele. Publiquei no instagram e deixei o quadro no meu quarto, na minha mesa, onde escrevo agora vendo seu sorriso, uma raridade diante de desconhecidos.

E ontem, por coincidência, arrumando o quarto, Elvira pegou o quadro e disse que ia guardar. Ou seja, esconder. Não gosta de concorrência, logo imaginei. Nem deve saber quem foi Maradona. Falei que não, que queria ele mais uns dias perto de mim. Senti essa vontade de estar perto do Maradona e ontem  não deixei que o levassem e para outro lugar.

Hoje ele morreu. Posso a chorar?

Munique, 2006 – Foto: DivulgaçãoMunique, 2006 – Foto: Divulgação