Que Doha é essa? O que vi, presenciei e vivi na terra da próxima Copa do Mundo

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Enviado especial do ND+ ao Catar, Diogo Maçaneiro conta tudo sobre a terra do próximo Mundial: hábitos, regras, custo de vida e, claro, muito futebol

Para receber torcedores das 32 seleções classificadas para a Copa do Mundo, Doha entregará estádios modernos já concluídos, um sistema de transporte público eficiente e facilidade de deslocamento, uma vez que os oito estádios foram construídos em Doha ou arredores.

Estádio Lusail, com capacidade para 80 mil pessoas, é o palco da grande final da Copa – Foto: Diogo Maçaneiro / NDEstádio Lusail, com capacidade para 80 mil pessoas, é o palco da grande final da Copa – Foto: Diogo Maçaneiro / ND

A distância maior entre uma arena e outro será de 75 quilômetros, possíveis de serem percorridos de metrô, com muita rapidez. A ideia é que seja possível a cada torcedor assistir a mais de um jogo por dia.

Mais de 800 mil ingressos já foram vendidos e a partir desta terça-feira (5) uma nova carga será aberta para compra. Ou seja, é possível receber mais de um milhão de pessoas durante a Copa. E o que essa massa de turistas vai encontrar no Catar?

Vai encontrar um país muito rígido. A não ser que a Fifa intervenha no seu evento – como fez no Brasil, obrigando a criação da Lei Geral da Copa – o torcedor sofrerá com algumas restrições para celebrar a festa. Um dos exemplos é a proibição de venda e consumo de bebidas alcoólicas em locais públicos.

Até se consegue beber uma cerveja em Doha, mas apenas em poucos hotéis e por um preço altíssimo. Uma long neck chega a custar R$ 70. Supermercados não vendem.

Não se sabe se o consumo de cerveja será liberado excepcionalmente dentro das arenas da Copa ou nas Fãs zone, estruturas da própria Fifa onde torcedores do mundo todo se encontram para assistir aos jogos nos telões.  Vale ressaltar que uma das principais patrocinadoras da Copa é uma grande marca internacional de cerveja.

Doha, capital do Catar, sede da Copa do Mundo – Foto: Diogo Maçaneiro/NDDoha, capital do Catar, sede da Copa do Mundo – Foto: Diogo Maçaneiro/ND

Ainda no campo dos costumes, sair abraçado por aí cantando e gritando em dia de jogo pode não ser de bom tom. Nem tanto pelos pulmões a todo vapor, mas as demonstrações públicas de afeto não são permitidas em público. Tudo bem que sem cerveja o risco de se sair abraçando qualquer um por aí diminui, a gente sabe.

A cidade é toda monitorada por câmeras. Posso dar um relato pessoal. No meu penúltimo dia em Doha fui abordado por um homem não identificado enquanto gravava para a NDTV perguntando se eu tinha autorização para filmar naquele local.

A tal autorização é um documento emitido pelo Governo local permitindo a captação de vídeos e fotos em alguns poucos locais do país, como praças e pontos turísticos, sem incluir, sob hipótese alguma prédios governamentais. Com o documento em mãos, pude seguir meu trabalho.

Em outro momento, eu estava no “Fish Port”, um local de pesca onde foi instalado um relógio com uma contagem regressiva e um corredor de bandeiras com as seleções classificadas, e dois homens começaram a dançar em uma área “proibida”. Neste momento o até então simpático guarda se transformou em uma autoridade ríspida e mandou a dupla parar com a dancinha e apagar o vídeo gravado da brincadeira.

Ah, importante. Não será difícil encontrar brasileiros por Doha. Até porque  a maior parte dos cerca de 2,7 milhões de habitantes do Catar é de estrangeiros, especialmente indianos e paquistaneses em busca de melhores condições de trabalho e vida.

Segurança, modernidade e suntuosidade

Há outros detalhes que se precisa saber sobre o Catar. Sexta e sábado são considerados fins de semana. Domingo é dia útil. O nome da moeda local é bem parecido com a nossa: Rial e ela vale R$ 1,32 a unidade. O câmbio é fixo e praticamente não se paga impostos sobre serviços prestado. O idioma oficial é o árabe, mas quase todo mundo fala inglês.

A base da economia catari é a produção e exportação de gás natural. O país tem atualmente a terceira maior reserva do mundo, com 13,1% do total, atrás de Rússia e Irã. Seu sistema de governo é a monarquia, comandada pelo Emir Tamim bin Hamad Al Thani, no trono deixado por seu pai desde 2013.

Bandeiras de países participantes do Mundial – Foto: Diogo Maçaneiro/NDBandeiras de países participantes do Mundial – Foto: Diogo Maçaneiro/ND

Para entrar no país, hoje são exigidos dois documentos: comprovante de vacinação com duas doses (ou uma no caso da Janssen) e teste PCR-Covid com até 48 horas de antecedência ao embarque.

Dentro do país há o passaporte de vacina, o Etheraz, cobrado na entrada de todos os locais fechados com grande circulação de pessoas, como shoppings, supermercados e transporte público. Um cadastro deve ser feito antes de embarcar para ativá-lo no desembarque no aeroporto.

As máscaras não são obrigatórias em locais abertos e públicos, apesar de a maioria da população usá-las. Já em espaços fechados, sim.

O Catar é um país muito seguro. Os índices de criminalidade beiram ao zero e a maior parte dos policiais não anda armada. Caminha-se tranquilamente pelas ruas a qualquer hora do dia sem importunação. Para não ter problemas com as autoridades basta respeitar as leis e costumes locais, especialmente os que envolvem a religião.

Tanto para homens quanto para mulheres, deve-se evitar mostrar os joelhos e os ombros em locais públicos. Em alguns lugares o turista pode ser barrado, como em restaurantes e shoppings. Cobrir o rosto não é obrigatório para as mulheres turistas, porém é preciso muito cuidado no contato com as locais.

Não se recomenda a um homem abordá-las na rua para pedir informações. Se ela estiver acompanhada o melhor é se dirigir ao homem. Desrespeitar essa ordem pode virar caso de polícia.

Em meio a costumes tão tradicionais, Doha se abre para o mundo com uma arquitetura moderna e seus arranha-céus exuberantes, a chamada “Skyline”, localizada na West Bay, a região econômica pulsante da capital. De frente para ela está a Corniche, ou a orla urbanizada, com seu mar de azul turquesa típico das águas do golfo pérsico.

Cuidado com as câmeras

Filmar e fotografar em Doha também é um assunto delicado. Para jornalistas o buraco é mais embaixo. Uma autorização especial do governo precisa ser emitida antes mesmo da chegada ao Catar.

Com ela, pode-se ligar a câmera em alguns poucos pontos da cidade, como a Corniche, West Bay, Souq Waqif (mercado público mais tradicional da cidade) e Museu de Arte Islâmica.

Jornalista do Grupo ND durante entrada ao vivo no Balanço Geral da NDTV – Foto: Reprodução/NDTVJornalista do Grupo ND durante entrada ao vivo no Balanço Geral da NDTV – Foto: Reprodução/NDTV

Para turistas em geral, a dica é não desrespeitar os símbolos islâmicos nem captar imagem de ninguém sem autorização. Especialmente mulheres. Claro que com a Copa do Mundo as câmeras de celular serão apontadas aos milhares para todo lado, especialmente para visitantes de primeira viagem (o meu caso).

Tempo doido

Importante que se saiba: quase nunca, nunca mesmo, chove no Catar. Com o clima típico do deserto, as temperaturas no verão ultrapassam os 50 graus célsius durante o dia e despencam para menos de 20 à noite. O ar é seco e a umidade perto do 0%.

Mais uma das belas paisagens de Doha – Foto: Diogo Maçaneiro/NDMais uma das belas paisagens de Doha – Foto: Diogo Maçaneiro/ND

Durante a Copa, boas notícias. Por ser outono no hemisfério Norte, os termômetros não devem passar dos 30 graus célsius, com mínima de 6 a 10. Este foi o motivo de o Mundial ter sua data tradicional alterada de agosto para novembro. Quem aguenta jogar bola e tomar sol no “lombo” nessas circunstâncias?

Internet 5G “voando”

Uma coisa é preciso tirar o chapéu para o Catar. O sistema de telefonia funciona muito bem. A internet 5G é realidade no país e funciona muito bem. Quem assistiu nossa cobertura na NDTV viu que nossas entradas ao vivo foram quase sempre com bom sinal. Isso foi feito apenas com um celular comprado no Brasil com a tecnologia 5G disponível e um chip local. Duas operadoras atendem ao país e ambas apresentam qualidade e preços semelhantes.

Mas atenção! Aplicativos de conversa de vídeo, como Facetime e Whats App são bloqueados por aqui. É preciso apelar ao Zoom ou Google Duo para matar a saudade por vídeo. Chamadas de áudio  pelo WhatsApp também não são permitidas.

Tá, mas e os estádios?

São oito. Todos eles em Doha e arredores. O principal e maior deles, o Lusail tem capacidade para 80 mil pessoas e receberá a final. Na primeira fase o Brasil jogará duas vezes lá, contra Sérvia na estreia, e Camarões na terceira rodada.

Estádio 974 – Foto: Qatar’s Supreme Committee for Delivery & LegacyEstádio 974 – Foto: Qatar’s Supreme Committee for Delivery & Legacy

Outra arena interessante é o 974 Stadium. O nome é dado por dois motivos: ele foi erguido a partir deste número de contêineres e porque trata-se do código telefônico do Catar. Ele tem capacidade para 40 mil lugares e receberá o Brasil contra a Suíça, na segunda rodada da primeira fase.