Fábio Machado

Rotina, contratações e análise dos jogos dos clubes catarinenses. A história do futebol no Estado é resgatada com postagens que relembram os títulos e jogadores que marcaram Santa Catarina.


Histórias da bola: Paulo e a dividida de bola com o Moenda

Paulo era um jovem que jogava a sua bola quase que diariamente nos vários campinhos de futebol da nossa região. Assim como a maioria dos seus amiguinhos, tinha o sonho de ser jogador profissional. Como lateral esforçado, recebia elogios dos mais velhos e com esse incentivo resolveu fazer um teste no seu time do coração, o Avaí. Com muito custo e esforço conseguiu arrumar o dinheiro para o ônibus. Atravessou a ponte Hercílio Luz – então a única ligação entre a ilha e o continente – sonhando em ser um Djalma Santos, um Carlos Alberto Torres, ou mesmo o Binha que admirava e que durante anos tinha vestido a mesma camisa que o Paulo agora sonhava em vestir. Atravessou todo o centro de Florianópolis com orgulho e esperança rumo ao antigo estádio Adolfo Konder na Avenida Beira Mar, onde hoje funciona um grande Shopping Center. No trajeto, parava para ver os carros, os prédios que começavam a apontar para o céu da capital dos catarinenses. O futuro era promissor. Nada poderia interromper o seu sonho: estava bem mentalmente e fisicamente. Paulo entrou nas dependências do Adolfo Konder. Como todo jovem que sonha, ele não percebeu o limo das paredes, as telhas de “brasilit” quebradas nas sociais. Pela visão do Paulo, era como se ele estivesse adentrando no Maracanã, estádio que via em algumas imagens das poucas TVs que haviam na cidade e, assistia maravilhado nas telas dos cinemas pelo Canal 100 antes das matinês nos cinemas. Sentado nas arquibancadas com a sua bolsinha das chuteiras (que havia conseguido por empréstimo de um amigo “rico”), Paulo iniciou a conversa com um torcedor que estava por ali para acompanhar os treinamentos. Atento, ouviu a seguinte frase: – O líder aqui dos jogadores é o Moenda. (Ex-zagueiro falecido em 1979, aos 32 anos).  Ao ouvir isso, o candidato a craque pensou “se o Moenda é o cara, é com ele que tenho que ganhar o respeito”. Com esse plano na cabeça, Paulo foi para o seu teste no gramado careca do estádio. Bola rolando aqui, bola rolando ali e o nosso personagem jogando bem. Mas na cabeça do Paulo o importante era ganhar o respeito do líder Moenda. Até que surgiu a oportunidade. Numa dividida de bola no lado do campo, Paulo jogou o zagueiro dono da área para fora do alambrado. Achando que tinha tomado a atitude certa, Paulo só teve tempo de sair correndo como um desesperado, vendo com o canto os olhos todos os jogadores e comissão técnica disparados em grande velocidade atrás dele. Só parou de correr na sua casa. Muitos anos depois, quando o estádio Adolfo Konder foi demolido para o início das obras do Shopping, um operário encontrou no vestiário uma bolsa sem as chuteiras, com um passe de ônibus puído dentro dela e uma inscrição feita a caneta Bic no lado de fora: “vaza, boca mole”.

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