Conteúdo por Gazeta Esportiva

Você sabia? Paulista 1993 recolocou Palmeiras na rota dos títulos

Mazinho, Roberto Carlos, César Sampaio, Tonhão, Sérgio e Antônio Carlos; Edmundo, Daniel Frasson, Evair, Edílson e Zinho

É difícil imaginar uma maneira melhor de sair de uma longa fila do que contra o seu maior adversário, de goleada e depois de perder a primeira partida da decisão. O Palmeiras, liderado por Evair, encerrou um jejum de 16 anos em grande estilo ao vencer o Corinthians na final do Campeonato Paulista de 1993 e retomou a rotina de títulos.

“Quantas vezes você já viu seu time ser campeão?”, costumavam ouvir as crianças que escolheram torcer pelo Palmeiras a despeito do longo jejum vivido pelo clube, enquanto rivais como Corinthians e São Paulo comemoravam títulos expressivos. Em tempos de vacas magras, sem jeito, os jovens apelavam a conquistas do porte do Torneio Euro-América de 1991.

O título estadual de 1993 marcou o início do bem-sucedido sistema de cogestão do Palmeiras com a Parmalat. Proprietária de vacas gordas, a multinacional italiana investiu pesado no clube que tem o porco como mascote para montar um esquadrão com jogadores como Mazinho, Antônio Carlos, Zinho e Edmundo, entre outros.

A superioridade técnica do Palmeiras era incontestável diante do Corinthians, apesar da presença de atletas como Neto, Paulo Sérgio e Ronaldo no time alvinegro. A melhor campanha palestrina na fase classificatória, no entanto, não evitou que o time então comandado por Vanderlei Luxemburgo, que substituiu Otacílio Gonçalves semanas antes da final, entrasse nervoso para disputar o primeiro jogo da decisão.

“Viola entorna leite dos verdes”, estampou o jornal A Gazeta Esportiva em sua edição do dia 7 de junho de 1993. “Encarar o Corinthians numa decisão exige, mais do que talento, dedicação. O Palmeiras milionário de Edmundo e Edílson foi descobrir tal verdade quando Viola já havia entornado o leite, com um gol de percepção e oportunismo”, noticiou o jornal em alusão à multinacional italiana.

Diante de 93.736 mil pagantes no Morumbi, Viola aproveitou cruzamento vindo da direita e completou para o gol de Sérgio. Irreverente, o centroavante imitou um porco para comemorar. “Chora, porco imundo! Quem tem Viola não precisa de Edmundo!”, gritavam os corintianos nas arquibancadas. O centroavante, por sua vez, ofereceu o feito à mãe Joana, que comemorava 50 anos, e contou o cardápio da festa.

“O melhor é que ela está preparando uma feijoada. Feijoada de mãe não tem horário. Tem de comer e pronto”, disse Viola, sarcástico. “O Palmeiras é uma grande equipe, que tem uma torcida fantástica e merece todo o nosso respeito. O importante dessa vitória é que cada jogador do Corinthians jogou com o coração na ponta da chuteira para reverter a vantagem”, completou.

Em recuperação de lesão, Evair começou a primeira partida da final entre os reservas e entrou no lugar de Maurílio apenas na etapa complementar. Ainda em início de carreira, Luxemburgo já costumava levar seus times para treinar em Atibaia. No interior, o elenco recebeu ofertas de prêmios em dinheiro por parte de torcedores e se preparou psicologicamente para tentar a virada no segundo jogo.

“Se o propósito do Viola foi brincar com o torcedor, tudo bem. Mas se, no fundo, ele tentou ofender a torcida do Palmeiras, não se comportou como profissional. Se nós, jogadores, começarmos com essa história de porco, gambá e sei lá mais o que, vai virar uma bagunça. Aliás, como é mesmo que faz um gambá?”, disse Zinho, irônico, em declarações reproduzidas pela edição do dia 8 de junho do jornal A Gazeta Esportiva.

Ciente de que contaria com Evair como titular no segundo jogo da final, Luxemburgo procurou animar o elenco e usou a comemoração de Viola como combustível para inflamar os jogadores. No hotel, antes de partir para o Morumbi, o técnico exibiu um vídeo com os melhores momentos do Palmeiras no torneio. E mostrou imagens da imitação do centroavante adversário.

Com a vantagem de jogar pelo empate, o Corinthians se preparou para o jogo decisivo em Embu. Na véspera da decisão, o zagueiro Marcelo Djian recebeu a visita de companheiros e dirigentes no Cemitério da Quarta Parada durante o velório de seu pai. Com uma tarja preta no braço, ele entrou em campo para enfrentar o Palmeiras no dia 12 de junho de 1993.

Sedento pelo jejum de títulos, o Palmeiras foi impiedoso. Usando meias brancas por ordem do supersticioso Vanderlei Luxemburgo, o time alviverde venceu por 3 a 0 no tempo normal, mas o regulamento da época indicava a necessidade de disputar a prorrogação para ratificar o título. Com um gol de pênalti, fundamento que havia treinado em Atibaia, Evair garantiu a conquista. Os corintianos, revoltados, condenaram a arbitragem de José Aparecido.

“Fizemos o que precisava ser feito. Aquela derrota no primeiro jogo estava atravessada, a ponto de explodir. Ganhamos de quatro para não deixar dúvidas e calar a boca deles”, comemorou Evair. Atrapalhado por lesões, ele jogou apenas 25 das 38 partidas do campeonato, mas marcou 18 gols, dois a menos que Viola. “Boi, boi, boi! Boi do Maranhão! Viola é artilheiro, Evair é campeão!”, cantavam os ‘porcos’.

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