Cresce a produção de vinhos de garagem na Grande Florianópolis

São vinhos feitos em pequenas produções, com muito capricho, em residências e apartamentos.

Elisson selecionando uvas para produzir seus vinhos – Foto: Terraço Manfroi DivulgaÇão

De segunda a sexta-feira, o farmacêutico Elisson Ricardo Manfroi cumpre uma rotina de trabalho estritamente ligada à sua formação. Pela manhã, das 7 horas às 13 horas, ele trabalha para a prefeitura de São José, na grande Florianópolis. À tarde, das 13h15 às 19 horas, dá expediente numa farmácia comercial. Quando chega em casa, à noite, assume sua paixão. O farmacêutico se transforma num enólogo, mais especificamente, num vinicultor de garagem.

Natural de Caçador, no meio-oeste catarinense, Elisson Manfroi passou a alimentar um sonho, quando se mudou para Florianópolis, em 1998. “Vou fazer vinhos aqui”, disse a si próprio. Era seu desejo. O diploma de farmacêutico que conquistou em 2002 lhe permitiu assinar a responsabilidade técnica na produção dos vinhos. Faltava começar a produzir e a organizar um lugar para vinificar.

O trabalho

Em 2013, Manfroi começou a produzir hidromel, bebida muito antiga e originária da fermentação do mel, para entender um pouco sobre a fermentação. Foi o primeiro passo. Três anos mais tarde, elaborou algumas garrafas de vinhos de mesa, com uvas americanas Niágara e Isabel. Com isso, avançou. Mas o que ele queria, mesmo, era elaborar vinhos finos, com uvas viníferas europeias. E esse sonho veio a se tornar realidade em 2017, quando Manfroi produziu o seu primeiro vinho fino, 150 garrafas de um varietal de Cabernet Sauvignon. As uvas, adquiriu da vinícola Monte Agudo, de São Joaquim, nas altitudes catarinenses. O resultado o animou.

Em 2018, o farmacêutico/enólogo repetiu a dose e elaborou 160 garrafas de um corte de Cabernet Sauvignon e Merlot, novamente com uvas da Monte Agudo. Em 2019, foi além. Produziu 400 garrafas de Cabernet Sauvignon, 150 garrafas de um Cabernet/Malbec, 150 garrafas de um Cabernet Sauvignon feito pelo processo de maceração carbônica (cachos fermentado inteiros) e 200 garrafas de uma sidra (fermentado de maçãs) elaborada pelo método champenoise, de segunda fermentação na garrafa.

O terraço

Para fazer os vinhos, Manfroi montou uma pequena estrutura de vinificação no terraço de seu apartamento duplex, na cidade de São José, na grande Florianópolis. Para criar uma marca para os vinhos, contou com a ajuda do também vinicultor de garagem, Rogério Gomes, da Quinta da Figueira, de Florianópolis. “O Rogério desenhou um rótulo para mim, com uma escada em formato de caracol. É a escada que subo para chegar ao terraço de meu apartamento, onde faço os vinhos. O nome também foi sugestão de Rogério: Terraço Manfroi”, conta o garagista. Nascia aí mais uma vinícola de garagem na grande Florianópolis.

O termo “vinho de garagem” nasceu na década de 1990, na cidade francesa de Saint-Émilion, em Bordeaux, na França. O ex-DJ Jean-Luc Thunevin comprou uma pequena propriedade de 0,6 hectares na região. E fez seus primeiros vinhos em uma antiga garagem. Vinhos macios, diferentes dos tradicionais Bordeaux. O então poderoso crítico americano Robert Parker provou e aprovou os vinhos. Nasceu aí o termo “vinho de garagem”, para se referir a vinhos em pequenas produções, com estilos próprios.

Autodidata declarado, Elisson Manfroi reconhece que sua formação acadêmica foi essencial para elaborar vinhos. “O fato de ser farmacêutico me ajuda muito”, conta. “Estudo muito vinho e trabalho técnicas para não ter que fazer muitas correções”, complementa. Ele não abraça o rótulo de produtor de vinhos naturais. Faz o que é preciso, com o mínimo de intervenção.

Este ano Elisson produziu outras 700 garrafas de vinhos. Rótulos de Sauvignon Blanc (uvas da vinícola Suzin, de São Joaquim), Moscato Bianco, Moscato Ambar e Cabernet Sauvignon. Ele dividiu a elaboração entre o apartamento em São José e uma casa no município de Palhoça, também na grande Florianópolis. Toda a produção é feita por ele mesmo, com o auxílio da esposa. Ele tira férias no mês da colheita das uvas, geralmente março, para vinificar. Depois, trabalha às noites e nos finais de semana nas tarefas posteriores (descube, trasfega, engarrafamento, rotulagem etc).

Vinícola urbana

Elisson conseguiu realizar seu desejo. O sonho, no entanto, não acabou. Ele trabalha num projeto para criar uma vinícola urbana em Florianópolis. A ideia é produzir e servir vinhos no mesmo local, a exemplo do que ocorre nas microcervejarias urbanas. Para completar, as boas críticas que vem recebendo de seus vinhos aqueceram as vendas e o incentivaram a investir num crescimento considerável para o próximo ano. “Espero produzir 5 mil garrafas de vinhos em 2021”, estima.

Provei alguns vinhos da Terraço Manfroi.

Terraço Manfroi Sauvignon Blanc 2020 – São José – SC

100% Sauvignon Blanc. Cor amarelo palha. Aromas típicos, arruda, grama cortada, notas cítricas, abacaxi. Fresco em boca, acidez muito boa, untuoso e intenso.

Terraço Manfroi Rosé 2020 – São José – SC

60% Cabernet Sauvignon, 20% Sauvignon Blanc, 20% Moscato Bianco. Cor rosa cereja clara, luminosa. Nariz frutado, aromas de frutas vermelhas frescas, morango, framboesa, nota floral. Boca fresca, acidez firme. Rosé gastronômico, muito estruturado no paladar. Boa surpresa.

Terraço Manfroi Cabernet Sauvignon Maceração Carbônica 2019 – São José – SC

100% Cabernet Sauvignon. 80% dos cachos fermentados inteiros com 20% de mosto. Cor Vermelho rubi com reflexos violáceos. Aromas frutados e frescos, notas de amoras, cassis, ameixas. Paladar fresco, corpo médio, acidez boa, taninos redondos. Um Cabernet mais leve (contato – @elissonmanfroi)

Terraço Manfroi Cabernet Sauvignon 2019 – São José – SC

100% Cabernet Sauvignon. Cor rubi com reflexos violáceos. Nariz gostoso, notas de frutas vermelhas e negras, toques de especiarias doces e suavemente picantes, toque floral. Acidez agradável, médio corpo, taninos macios, equilibrado no paladar.

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