Marcos Cardoso

marcos.cardoso@ndmais.com.br A sociedade da Grande Florianópolis, os eventos culturais e as tradições da região analisadas pelo experiente jornalista Marcos Cardoso.


Entrevista: Rhae Ferreira

Expoente da cena underground de Florianópolis, ele foi sócio de bares, promotor de eventos e casas noturnas, estilista de moda e, agora, dedica-se a produzir doces e pães artesanais

Foto: Divulgação/NDFoto: Divulgação/ND

Gaúcho de Santo Antônio da Patrulha, Rhae Ferreira desembarcou em Florianópolis em 1991, atrás de novas oportunidades. Foi assistente de administração de condomínios e logo entrou para a cena underground da cidade, montando e trabalhando em bar, produzindo eventos, promovendo casas noturnas e criando grife de roupa. Com recém-completados 52 anos, há sete, ele se dedica a fabricar pães e doces na praia de Cacupé. Sua vitrine é nas redes sociais, nunca teve loja ou café, mas deve vir novidade em breve.

Tiveste bares com propostas inovadoras em Florianópolis.

Fui sócio e trabalhei no Collins, que ficava na rua Tenente Silveira esquina com a rua Pedro Ivo. O bar foi aberto em dezembro de 1992, destinado a funcionar naquele verão. Após o Carnaval, os turistas iam embora e não havia público suficiente para mantermos a estrutura. Fechamos o bar alguns meses depois.

Entre 1997 e 1998, fomos (ele e o DJ Beto Mafra) morar em Londres, e lá conhecemos o que havia de mais espetacular e inovador em termos de clubes, música e moda alternativa. Novas visões foram adquiridas através desta experiência.

Ao retornarmos a Florianópolis, em 1999, decidimos ter o próprio negócio. Daí, montamos o SoHo, na avenida Hercílio Luz, trazendo tudo de novo em termos de música e concepção de festas, mas sempre com foco no underground/alternativo. A inspiração veio dos clubes e atitudes de Londres, pois lá era a Meca das tendências.

Qual era o objetivo em abrir casas assim na cidade?

A internet ainda estava nascendo por estas bandas. Os meios de informação eram através de jornais e revistas, e experiências contadas e trazidas por viajantes. Nesse aspecto cultural, o Brasil estava sempre atrás. Algumas coisas, primeiro, chegavam a São Paulo. Depois, com muito atraso, chegavam a Florianópolis.

O que fizemos foi adiantar este processo – o que foi um choque para alguns. Nem todos entendiam o que estávamos fazendo, que música era aquela. A arte era marginalizada de certa forma. Soma-se a isto o fato de que os clubes eram GLS, com o S de “simpatizante” ganhando força, ainda eram uma novidade por aqui. Havia muita discriminação.

O SoHo nasceu GLS e com objetivo de quebrar esta barreira. Acredito que foi o primeiro clube nesse aspecto, com a mistura de público, sem preconceitos (ou com preconceitos sendo derrubados).

Levou um tempo até algum outro bar ocupar o espaço deixado pelo SoHo. Os bares antes ditos alternativos, hoje são tendências, tocam rock e pop, às vezes misturados a sons eletrônicos, e são vistos apenas como modernos, mas sem a “obrigação” de ser necessariamente uma novidade.

Essa talvez seja a chave: as fórmulas até se desgastam, mas para nós a “novidade” já nos soava reciclada e por isso seguimos novos rumos.

Como adquiriste know-how para produzir eventos?

Entre 1994 e 1995, com a experiência do Collins, continuamos realizando algumas festas. Foi nesse período que nasceu a (grife) Nossa Senhora do Avesso. Quase sempre as festas estavam relacionadas à moda, vista na época como segmento underground.

Nos anos seguintes, os temas foram variando e acontecendo em vários espaços da cidade: Túnel do Tempo, Café das Artes, Dizzy, Inocense, Fábrica de Arte, Octopus, Chandon e Órbita.

A residência em Londres foi a confirmação, a certeza daquilo que tínhamos como ideal para nossas noites de arte e cultura clubber. Mas a verdade é que desde sempre metíamos a cara e fazíamos acontecer.

Exemplo: em pelo menos dois desfiles da Nossa Senhora do Avesso levei meu aparelho de som de casa, pois não tinha verba para mais esta contratação. Muito trabalho e diversão, como se via na repercussão nos dias seguintes, inclusive com matérias em jornais. Com o tempo, fomos procurando um pouco mais de conforto e profissionalismo.

Em 2005, criamos a TROY, primeira festa eletrônica itinerante, com apresentações em Florianópolis, Porto Alegre e Balneário Camboriú. Neste mesmo período, fomos convidados para trabalhar no clube La Luna, do mesmo grupo do El Divino.

Atuaste também como promoter de casas noturnas. O que fazias para manter o público fiel e conquistar mais frequentadores?

Durante a existência do bar Órbita, em 1996 e 1997, ganhamos a residência, eu como promoter e o Beto Mafra como DJ, reforçando nossa atuação no segmento de baladas underground.

Em 2001, um clube foi inaugurado – na verdade, renomeado –, na avenida Rio Branco. A danceteria Concorde era de italianos que pretendiam trazer para cá as festas eletrônicas no estilo europeu. Eles inauguraram em maio, porém a casa não decolou.

Na sequência, recebemos o convite para promover a casa, e foi nos dada total liberdade, sobretudo porque o dono do local também queria festas com as novas tendências da música eletrônica. Começamos os trabalhos de divulgação. Havia resistências. Em outubro, realizamos um grande desfile da Nossa Senhora do Avesso. O público lotou e a imprensa estava presente. O avião decolou…

Manter o público fiel é mantê-lo feliz e curioso. Fazíamos isto, muitas vezes, conversando boca a boca. A cena clubber tinha originalidade. As pessoas queriam fazer parte daquilo e começaram a se interessar pelo assunto música, moda, atitude.

O que os teus eventos ofereciam ao público que não havia antes?

Os desfiles da Nossa Senhora do Avesso, que eram realizados em ambientes diversos, alguns inusitados, como um casarão na praça 15 de Novembro, o estacionamento do hotel Majestic, que ainda estava em construção, o CIC (Centro Integrado de Cultura). Levamos moda alternativa, o conceito de passarela, desfile-show com trilha sonora planejada. Quase sempre depois do desfile tinha a festa de comemoração.

Nos clubes, o universo era a música, com lançamentos diretos de Londres e Ibiza. Muito diferentes do que as outras casas noturnas apresentavam em Florianópolis. Fomos os primeiros, por exemplo, a criar o flyer de divulgação. No início, os mesmos eram feitos a partir de colagens e xerox. As pessoas se empolgavam somente por recebê-los. Alguns clientes guardam como recordação.

A partir da década de 1990, Florianópolis ficou superexposta na mídia nacional e estrangeira, o que atraiu muita gente para passear e morar. Por consequência, o volume de eventos também. O mercado de festas noturnas ficou saturado?

A fórmula para Florianópolis sempre foi complicada, justamente por falta de informação sobre novas tendências em termos de música eletrônica.

Teve o clube Ibiza, que realizava festas magníficas, em termos de ambientação. Curiosamente, a música destoava das festas que realmente aconteciam no balneário da Espanha. Ou seja, não havia a cultura pela House Music. E quem conhecia aquilo, sabia que alguma coisa estava fora da ordem.

Natural, então, o clube ter ido embora, dando lugar a outros empreendimentos, como o Pacha, por exemplo.

Com advento da TROY, acabamos abrindo espaço para festas concorrentes, que vieram já em meados dos anos 2000.

Acredito que o processo de abre-e-fecha de casas noturnas seguiu seu ritmo natural. A saturação percebida, com a consequente popularização das novas “baladas”, sobretudo as day parties, foi uma mudança de comportamento no mundo todo.

Por que a Nossa Senhora do Avesso não teve continuidade?

Aos poucos, vieram as fashion weeks pelo país e nós ainda mais envolvidos com os clubes. O projeto foi ficando adormecido. Ele já tinha feito sua função em despertar interesse pela moda em Florianópolis. Alguns dos meus clientes foram estudar moda na Udesc (Universidade do Estado de Santa Catarina), por exemplo.

Underground era divertido, despertava atenção, mas, definitivamente, não dava dinheiro. Para isso tínhamos que ter nos mudado para São Paulo e achar um investidor. As coisas não aconteceram assim. Então, ficaram na lembrança mesmo.

A grife era baseada no conceito do desconstrutivismo. O que isto significa e como ele aparecia nas peças?

No início dos anos de 1990, teve um evento de moda com participação de duas estilistas francesas sobre o moulage, que é a construção da peça sobre o corpo do manequim, sem recortes e com o mínimo de costura.

O Beto foi contratado e produziu uma de suas primeiras trilhas sonoras para este evento, e eu acabei auxiliando nos bastidores, logicamente, conversando muito com as costureiras estilistas. Elas acabaram falando da técnica do desconstrutivismo, que seria o desgaste do tecido, feito por corrosão, raspagens e outras formas.

Na mesma época, tivemos a inauguração da Escola de Divinos, em São Paulo, cujo estilista trabalhava com esta técnica. O início da Nossa Senhora do Avesso foi exatamente aí, com o fornecimento de acessórios para a Escola de Divinos.

Eram colares, correntes, braceletes feitos com matéria alternativa, tipo sucata, metais retorcidos, couro e até pedras obtidas de objetos decorativos antigos, encontrados em feiras e lojas bric. Um dos acessórios foi publicado na revista “Marie Claire”.

Dos acessórios passamos à desconstrução de camisetas e, depois, outras vestimentas. A Nossa Senhora do Avesso sempre se guiou com o desconstrutivismo, mesmo quando já não usávamos mais este termo.

Foto: Divulgação/NDFoto: Divulgação/ND

Por fim, entraste para o ramo da gastronomia. Por que o interesse pela cozinha?

Cozinho o trivial, mas adoro doces, e não estávamos contentes com a qualidade dos pães encontrados na cidade. Como tudo, sou obstinado e comecei a ler mais sobre o assunto. As primeiras experiências foram para a gente, aqui em casa. Depois, acabei fornecendo pães para um evento. Paralelamente, comecei a estudar técnicas francesas de confeitaria. Os bolos ficaram melhores e bem apresentados. Até que apareceu um grande casamento, onde fui testemunha e também confeiteiro do bolo dos noivos.

Onde estudaste gastronomia?

Sou autodidata. Tenho algumas publicações, e os vídeos na internet auxiliam também. Ainda assim, achei importante ter contato com chefs confeiteiros. Fiz alguns cursos da escola INPP e Le Cordon Bleu, ambas instituições francesas, agora no Brasil. Sou pretendente a chef patissier ou chef boulanger. Mas não posso ser chamado assim pelo regulamento francês, pois não concluí ou não obtive o diploma completo nessas áreas.

Até agora, não montaste loja. Há planos para abrir um café, por exemplo?

Não tenho esse plano, pois prefiro administrar dessa forma meu horário. Todavia, há um convite para um novo grande empreendimento em Florianópolis, já em fase de acabamento. Não posso adiantar mais nada.

Hoje, os aventais masculinos são os mais estrelados e badalados na mídia. Por que a mulher não tem o mesmo protagonismo?

Me parece um processo histórico. A França concebeu a arte da culinária e seus padrões de especificações. O machismo já estava ali presente. As cozinhas são como quartéis e, aparentemente, qualquer emoção deve ficar no lado de fora. Mas acredito que isso está mudando, e tem a ver com o significado de diversidade na sociedade. As mulheres têm plenas condições, e elas hão de conseguir seu espaço.

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