Pão e Vinho

Conheça os tipos de vinho, as características de cada um, as maneiras de harmonizar a bebida com as mais variadas refeições.


O vinho da minha infância

Nesta coluna faço uma crônica sobre o vinho que minha família fazia e bebia. Um relato sobre outros tempos, quando não havia tanta variedade e oferta de vinhos no mercado, principalmente finos.

Aroma inesquecível – Foto: Kasjan Farbisz por PixabayAroma inesquecível – Foto: Kasjan Farbisz por Pixabay

Meu pai fazia vinho na cozinha de casa. Todo ano ele comprava uvas e mergulhava na tarefa de preparar os caldos que seriam consumidos durante todo o ano como aperitivo, servido para as visitas, levado à mesa para acompanhar as refeições e para alegrar as festas familiares. As uvas eram de mesa, as acessíveis na época, basicamente Niágara branca e Bordô. Os vinhos, consequentemente, também eram de mesa. Eu ajudava meu pai na tarefa de fazer o vinho. Via alquimia em todo o processo, no esmagamento das uvas com as mãos, no borbulhar da fermentação nas pequenas tinas de madeira, no perfume vinoso na cozinha e na casa, até na filtragem, engarrafamento e arrolhamento. Para finalizar, o mergulho da boca da garrafa numa perfumada e quente camada de cera de abelha líquida, para a vedação. Pura magia.

Tudo era feito de maneira muito empírica. Não havia receita. Havia uma tradição no modo de fazer. Meu pai aprendeu a fazer vinho com meu avô. Meu avô aprendeu com meu bisavô. Meu bisavô aprendeu com meu trisavô. Uma história longa. As garrafas arrolhadas e vedadas com cera eram colocadas sobre o cimento frio, num pequeno quarto sem janelas, no fundo da casa. O quarto era escuro, fresco e bem arejado. O piso coberto de garrafas se transformava numa adega rústica, caseira, de família. Todo ano meu pai produzia vinho com as uvas da safra. O vinho era todo bebido no ano de produção.

Simplicidades

Não eram vinhos de aromas complexos e amplos no paladar, como aqueles que costumo descrever aqui na coluna. Eram vinhos da tradição, dos filhos e netos de imigrantes italianos, pessoas comuns que procuravam no copo um pouco de alívio e prazer. Vinhos possíveis, feitos por mãos simples, com as uvas disponíveis, de mesa, não viníferas. Vinhos com aroma básico de uva, envolventes e fantásticos no meu universo de criança.

Meu pai era um experimentalista. Fazia vinho de uva, espumante de abacaxi e fermentados de laranja e jabuticaba. Além de licores de frutas. Tudo na cozinha de casa, debaixo de um teto que mesclava telhas de barro e de vidro. O trabalho acontecia sobre uma velha mesa de tampo puído, madeira crua sobre a qual, quando meu pai não fazia vinho, minha mãe produzia massas frescas, espaguete, placas de lasanha, nhoque. Para que, à mesa, fosse celebrado o casamento perfeito da pasta com o vinho.

As uvas brancas – Foto: Couler por PixabayAs uvas brancas – Foto: Couler por Pixabay

Apesar de pequeno, podia provar a bebida. Aproximadamente vinte por cento de vinho, oitenta por cento de água e uma colher de açúcar, tudo mexido dentro de um copo americano. A sangria, como chamava meu pai, o vinho das crianças. Bebíamos aquilo de maneira gulosa e com muito prazer. Era a bebida dos homens e nos sentíamos homens ao bebê-la. Era bom. Mais tarde, já com idade para isso, pude beber, sem mistura, o vinho que ajudava meu pai a produzir.

Ao abrir a garrafa, o perfume da uva penetrava nos nossos olfatos e tomava conta do ambiente. Era uma alegria. Meu pai mostrava-se orgulhoso ao receber elogios pelo feito. Meus tios repetiam a dose, meu pai ia buscar mais garrafas na adega. Éramos felizes com aquela bebida simples.

A produção contemplava um tinto e um branco – Foto: Mix por PixabayA produção contemplava um tinto e um branco – Foto: Mix por Pixabay

Aprendi, por isso, a respeitar as pessoas que produzem vinhos de mesa. Hoje os tempos são outros, o acesso aos vinhos finos, nacionais e importados, é muito mais fácil. Eles estão disponíveis em lojas especializadas, supermercados, restaurantes, bares e nas vinícolas que hoje abrem suas portas para receber visitantes. Diferentemente de 40, 50 anos atrás, quando o vinho no Brasil era quase que exclusivamente o de mesa. Pouca gente tinha acesso aos importados, difíceis de se encontrar e mais caros. E as vinícolas brasileiras começaram a investir em vinhos finos apenas a partir das décadas de 1970 e 1980. Os primeiros vinhos finos de grande parte das vinícolas nacionais só chegaram ao mercado a partir da década de 1990. Até então, ou era vinho de mesa, ou importado.

É bom lembrar, historicamente, até hoje, apenas cerca de 10% da comercialização dos vinhos tranquilos (não espumantes) procedentes do Rio Grande do Sul, principal estado produtor, correspondem a vinhos finos, feitos com uvas viníferas. Os dados são da Embrapa de Bento Gonçalves, até 2019. Cerca de 90% da comercialização ainda é diz respeito a vinhos de mesa, elaborados com uvas americanas e híbridas. São produtos ligados à história e à cultura das antigas colônias de imigrantes. Vinhos também mais baratos, pelos quais a grande maioria das pessoas pode pagar.

Confesso: não rejeito um copo de vinho branco de Niágara do ano, bem feito, geladinho, como aperitivo. Sei que muita gente torce o nariz. Mas nessa hora me lembro de meu pai. Sinto o perfume da minha infância, materializado no aroma puro da uva usada para fazermos o vinho. Lembro-me da luz que atravessava as telhas de vidro do teto da cozinha, iluminava a mesa, as tinas, e refletia na cor rubra do vinho tinto. Se o vinho de mesa não tem aromas de frutas diversas, flores e especiarias, para mim ele tem um perfume diferente: o de nostalgia. Ele me lembra da família reunida em torno da mesa farta e simples, de risadas e de tantas histórias e encontros inesquecíveis. Coisa que nenhum outro vinho pode me dar.

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