Restaurante ícone de Florianópolis atravessa a ponte

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Depois de 58 anos e preparando a quarta geração, o Lindacap serviu no domingo passado o último almoço no endereço tradicional no alto da rua Felipe Schmidt, no Centro de Florianópolis

Um restaurante cujo proprietário oferecia refeições gratuitas para formar freguesia, no início da década de 1960, está prestes a dar mais um salto para se adequar às demandas de uma cidade que tem na culinária um ativo turístico incontestável.

Após 58 anos funcionando nos altos da rua Felipe Schmidt, em frente ao atual Parque da Luz, o Lindacap deve se mudar em maio para anova sede, na rua Desembargador Pedro Silva, em Coqueiros– a rota gastronômica mais badalada de Florianópolis, lá no lado continental.

Faixa na entrada informa aos clientes desavisados a mudança que se concretizará em breve – Foto: Leo Munhoz/NDFaixa na entrada informa aos clientes desavisados a mudança que se concretizará em breve – Foto: Leo Munhoz/ND

Ali, a intenção da família que administra a casa é manter a excelência que conquistou diferentes gerações e continuar sendo um grande ponto de encontro de famílias, personalidades, empresários e políticos catarinenses.

No último almoço, no dia 3, a cena rotineira e tradicional aos domingos: famílias reunidas – Foto: Divulgação/NDNo último almoço, no dia 3, a cena rotineira e tradicional aos domingos: famílias reunidas – Foto: Divulgação/ND
O cobiçado bufê – Foto: Divulgação/NDO cobiçado bufê – Foto: Divulgação/ND

No domingo passado, o Lindacap serviu o último almoço no prédio onde operou durante quase seis décadas, reunindo clientes tradicionais, assíduos, que se dizem dispostos a atravessar as pontes para não abrir mão de uma antiga fidelidade– e da feijoada dos sábados, do marreco recheado com repolho roxo, dos pratos à base de camarão e de outros que fizeram a fama do estabelecimento.

Atualmente, o restaurante está sob a administração de Caroline Bortolotti De Pellegrini, neta do fundador Alindo Bortolotti. Ela se criou brincando e correndo entre as mesas do restaurante e depois, já adolescente, ajudou em diferentes tarefas para ter dinheiro e sair com as amigas de sua idade.

Hoje, toca o local com o marido. “Nós nos reinventamos”, afirma Caroline, ciente deque era preciso se adequar às transformações da cidade.

“A essência do Lindacap permanecerá, assim como os pratos mais tradicionais, porém tanto o cardápio quanto os drinks serão incrementados. A nova sede comportará também um amplo salão reservado para eventos corporativos e sociais de frente para o mar” diz.

“Nossa intenção é atender a todos os tipos de público, porque com os mais antigos já temos história, alguns são frequentadores desde a fundação. Nossa ideia é alcançar os netos dos nossos primeiros clientes e perpetuar os vínculos e a nossa história com eles também” finaliza.

Pelé esteve lá

O craque Pelé, o ex-presidente Michel Temer e a apresentadora Xuxa Meneghel estão entre as personalidades que almoçaram no Lindacap. Eventos empresariais, entrevistas coletivas e reuniões políticas, feitas longe das instâncias de poder como a sede do governo estadual ou a Assembleia Legislativa, tiveram o restaurante como palco.

Equipe do Lindacap eternizou a passagem do rei do futebol, Edson Arantes do Nascimento, pelo restaurante – Foto: Arquivo Pessoal/NDEquipe do Lindacap eternizou a passagem do rei do futebol, Edson Arantes do Nascimento, pelo restaurante – Foto: Arquivo Pessoal/ND

“É um desafio diário manter a tradição e a qualidade geradas pelo meu avô, que sem muita instrução construiu um referencial em gastronomia, seguido pela atuação de meu pai, Silvio, que conseguiu manter as portas abertas sempre no mesmo endereço”, diz Caroline.

De esforços, sustos e reconquistas

A história do Lindacap não seria a mesma se o garçom Alindo Bortolotti tivesse recusado o convite para administrar o restaurante, que pertencia ao dono do Gruta Azul, até alguns anos uma referência gastronômica em Blumenau.

Nascido como um braço do Gruta Azul, de Blumenau, é natural que durante muitas décadas o carro chefe do Lindacap fosse o marreco recheado com repolho roxo. Atualmente, esse prato ainda é o forte da casa, mas concorre com o peixe e os frutos do mar, muito procurados especialmente por quem vem de fora da cidade e do Estado – Foto: Arquivo Pessoal/NDNascido como um braço do Gruta Azul, de Blumenau, é natural que durante muitas décadas o carro chefe do Lindacap fosse o marreco recheado com repolho roxo. Atualmente, esse prato ainda é o forte da casa, mas concorre com o peixe e os frutos do mar, muito procurados especialmente por quem vem de fora da cidade e do Estado – Foto: Arquivo Pessoal/ND

O ano era 1964, o funcionário virou sócio e depois, na década de 1970, dono do estabelecimento. Foi uma aposta de risco, porque a região, mesmo sendo rota de passagem para a ponte Hercílio Luz, era um caminho de chão batido onde os veículos atolavam em dias de chuva.

Alindo chegou a morar coma mulher e os cinco filhos no depósito do restaurante para viabilizar o negócio.

Ainda não existia, pelo menos em Florianópolis, o hábito de fazer refeições fora de casa, e o dono do Lindacap ia até o centro da cidade, que compreendia a praça 15 de Novembro e as ruas do entorno, para convidar as pessoas a comerem de graça e conhecerem os pratos da casa.

“Clientes que tinham dificuldade para chegar por causa do acesso precário eram buscados na ponte elevados de guarda-chuva até o restaurante”, conta Silvio Roberto Bortolotti, filho do pioneiro, que morreu em 2014.

“E mais, se alguém quisesse um charuto diferente dos oferecidos pelo restaurante, meu pai dava um jeito: enquanto o cliente almoçava, ele ia atrás do item solicitado”.

Empreendimento passou por provações para chegar onde está atualmente – Foto: Arquivo Pessoal/NDEmpreendimento passou por provações para chegar onde está atualmente – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Administrador do Lindacap desde 1990, Silvio Bortolotti lembra dos desafios que a família enfrentou ao longo dessas seis décadas. O maior deles foi um grande incêndio em janeiro em 2000, causado por curto-circuito, que destruiu completamente o restaurante.

Era o fim de um sonho e um prejuízo incalculável, que levou Silvio à depressão. Com a ajuda da mulher e da filha, ele adotou o sistema de tele-entrega e retomou os bons dias da casa. Antes disso, de maneira provisória, chegou a atender na avenida Mauro Ramos, até que fosse reconstruída a sede da Felipe Schmidt.

O senador e as cumbucas de dobradinha

O senador Esperidião Amin (PP), nascido na Ilha de Santa Catarina, conheceu o pioneiro Alindo Bortolotti e sua família e acompanhou os principais passos do Lindacap. “O restaurante faz parte da história e da cultura de Florianópolis”, afirma, ressaltando que “toda a nossa vida social passou e passa por ali”.

Sem querer especificar as reuniões e encontros políticos que manteve na casa, porque foram muitos e diversificados, o senador catarinense destaca a qualidade dos serviços e da comida e faz questão de citar o garçom Moacir Costa, cuja família conhece e com quem encontrou há cerca de dois anos, na igreja de São José e Santa Rita, no Jardim Atlântico.

De jeans, Silvio e a filha Caroline, com a equipe que prepara os pratos típicos – Foto: Divulgação/NDDe jeans, Silvio e a filha Caroline, com a equipe que prepara os pratos típicos – Foto: Divulgação/ND

“Ele era um garçom no sentido mais legítimo da palavra”, diz Amin. O senador recorda que na década de 1970, ainda como empregado da Codesc (Companhia de Desenvolvimento do Estado de Santa Catarina), almoçava todas as quartas-feiras com os colegas no Lindacap e era adepto da dobradinha servida pela casa.

“Comia duas cumbucas e ia trabalhar como se nada tivesse acontecido”, brinca. A mudança para Coqueiros é bem recebida por Amin, que mora no Bom Abrigo. “A casa vai para uma via gastronômica gabaritada e que é referência em Florianópolis e na região”, complementa.

Uma vida de fidelidade à casa

O urologista Ivam Moritz, 58 anos, era menino quando a família, moradora da rua Duarte Schutel, acessava o Lindacap por um beco que dava para os fundos do restaurante, em sua versão mais antiga, de madeira, nas décadas de 60/70.

Com o pai, a mãe e os quatro irmãos, ia ali todos os fins de semana e ainda recorda da estrutura e das quatro subdivisões da casa. “Havia uma sala de espera com sofás de couro marrom e, na parte de trás, uma área com árvores que a nós parecia uma floresta”, conta.

Um exemplo de fidelidade é dado pelo casal Bernadete e Cezario Titericz. Foi no restaurante que eles se casaram e cinco décadas depois voltaram para celebrar a união – Foto: Divulgação/NDUm exemplo de fidelidade é dado pelo casal Bernadete e Cezario Titericz. Foi no restaurante que eles se casaram e cinco décadas depois voltaram para celebrar a união – Foto: Divulgação/ND

Sua relação com o estabelecimento foi além: como médico, ele atendeu o garçom Moacir Costa, um dos mais antigos do Lindacap, e até o dono Alindo Bortolotti.

Cliente tradicional, Moritz fala do posto de gasolina que havia ao lado, da rua Felipe Schmidt sem calçamento e, principalmente, da “comida maravilhosa” do Lindacap, sob a responsabilidade do cozinheiro Ivo Schreiber.

Hoje, quem brinca entre as mesas são os filhos de Caroline, bisnetos do pioneiro Alindo Bortolotti. Eles dão à mãe a esperança de que o Lindacap vai ter vida muito longa – Foto: Divulgação/NDHoje, quem brinca entre as mesas são os filhos de Caroline, bisnetos do pioneiro Alindo Bortolotti. Eles dão à mãe a esperança de que o Lindacap vai ter vida muito longa – Foto: Divulgação/ND

“Com ele na cozinha, o padrão manteve sempre o mesmo gabarito e paladar”, diz. Sua mãe é fã do marreco recheado e esteve entre os clientes que participaram do último almoço no endereço insular, no domingo, ocupando a mesa que sempre coube à família.

“Ela mora no Continente e vai continuar frequentando a casa”, afirma.

“Há muitos restaurantes com feijoada na cidade, mas a do Lindacap é imbatível”, destaca Ivam Moritz.

“Apreciamos também o camarão à la grega e posso garantir que a maionese de camarão é a melhor que já comi. Na minha lembrança ainda estão a primeira sede, muito aconchegante, as casinhas antigas da rua e os fuscas, DKVs eAero Willys que traziam os clientes até ali”.