Sangiovese, a dama dos vinhos Italianos, brilha em São Joaquim

A uva emblemática da Itália central mostra excelente adaptação às regiões de altitude de Santa Catarina.

O belo edifício se destaca entre os vinhedos – Foto: Divulgação Leone di Venezia vinícola nova

Há cerca de 10 anos, conversando com um amigo sobre o crescimento da vitivinicultura das altitudes de Santa Catarina, ouvi dele uma preocupação com outro amigo que estava formando um vinhedo na região: “eu acho bastante ousado plantar apenas uvas italianas. A cultura vitivinícola do brasileiro está muito ligada às castas francesas”, disse. O amigo não deixava de ter uma certa razão, principalmente naquele momento. Nos últimos dez anos, no entanto, o universo do vinho vem mudando no Brasil. O consumidor está mais aberto a novidades, cresceram as vendas dos vinhos elaborados com uvas de outras nacionalidades. Nesse período, o amigo objeto da conversa concluiu o plantio de 5 hectares de uvas italianas. Em 2015, ele inaugurou uma bela cantina na cidade de São Joaquim, com arquitetura inspirada no palácio italiano Villa di Maser, de Treviso, na Itália, obra prima do arquiteto Andrea Paladio. Os vinhos de uvas italianas chegaram ao mercado e surpreenderam. E, diferentemente do temor expresso pelo amigo comum, vêm conquistando a cada dia mais o consumidor. Estamos falando da vinícola Leone di Venezia. E do produtor ousado, Saul Bianco.

Com apenas cinco anos de mercado, a Leone di Venezia ganhou destaque nacional. Com uma produção pequena e caprichosa, ela foi eleita, há poucas semanas, a “vinícola do ano 2020” pela Wines of Brazil Awards, um importante festival de vinhos brasileiros realizado no Rio de Janeiro. Seus vinhos arremataram oito medalhas (cinco gold, 2 gran gold e uma platinum, esta última, a premiação máxima). E já haviam conquistado medalhas em outros concursos, inclusive em 2019 no guia chileno Descorchados, a mais importante referência para os vinhos sul americanos. Ali, o Oro Vechio 2017, um vinho laranja, ganhou ouro com 92 pontos.

Saul Bianco cultiva uvas brancas como a Garganega, Vermentino, Grechetto e Gewürztraminer; e as tintas Sangiovese, Refosco, Montepulciano, Primitivo e Corvina, entre outras. Ele elabora treze rótulos de vinhos e dois espumantes. Ao visitar São Joaquim, em 2016, e degustar vinhos da região, o renomado vitivinicultor piemontês Angelo Gaja gostou Sangiovese da Leone di Venezia. O produtor elogiou a tipicidade do vinho, mas sugeriu a Bianco que reduzisse o estágio em madeira, para que a bela fruta da variedade falasse alto no vinho.

A Sangiovese

A Sangiovese é a uva tinta mais cultivada na Itália. Ela é originária da região central e já era cultivada na antiguidade pelos etruscos, povos que habitaram essa região a partir do século IX a.C. Elas a chamavam de Sanguis Joves, o sangue de Júpiter. Hoje a Sangiovese está presente em alguns dos principais vinhos italianos, entre eles o Chianti e o Brunello di Montalcino. Esses vinhos apresentam um frescor e uma fruta exuberantes, coisa que os italianos valorizam muito.

Uma degustação vertical

Provei quatro safras do Sangiovese Leone di Venezia, para avaliar a evolução do vinho no tempo. Todos mostraram uma ótima evolução. E continuam evoluindo. Há uma linha fina que os une, a junção das características da variedade e do terroir. Paralelo a isso, cada vinho apresentou particularidades relativas à safra e à evolução de cada garrafa. A fruta brilha nas safras mais recentes. Bianco seguiu a sugestão de Gaja. Publico aqui as notas de prova dos vinhos, todos 100% Sangiovese.

Frescor e fruta dentro da garrafa – Foto: João Lombardo

Leone di Venezia Sangiovese 2018

Vermelho rubi com reflexos violáceos. Gostosos aromas de frutas vermelhas, cerejas maduras, nota floral, violeta, toques sutis de especiarias doces, balsâmico, caixa de charuto. Boca fresca e frutada, taninos finos, médio corpo. Ainda jovem, promete uma boa evolução em garrafa. Oito meses em barricas de carvalho. Gran Gold no Wines of Brazil Awards.

Aromas de evolução já aparecem no vinho – Foto: João Lombardo

Leone di Venezia Sangiovese 2017

Vermelho rubi. Aromas de frutas vermelhas, cerejas, nota floral, toque de especiarias doces, húmus, balsâmico. Já apresenta algumas notas de evolução. Acidez agradável, taninos finos, médio corpo, equilibrado no paladar. Oito meses em barricas de carvalho.

Pronto para beber, mas com promessa de mais evolução – Foto: João Lombardo

Leone di Venezia Sangiovese 2015

Vermelho rubi. Aromas de frutas vermelhas maduras, cereja, ameixa fresca, especiarias doces, alcaçuz, balsâmico, chocolate. Acidez gostosa, equilibrado no paladar, taninos ainda presentes e finos, longo final de boca. Delicioso, bem evoluído, pronto para beber. Mas pode ser guardado um pouco mais. Dez meses em barricas de carvalho.

Essa foi a garrafa elogiada por Gaja – Foto: João Lombardo

Leone di Venezia Sangiovese 2013

Cor rubi com reflexos ainda violáceos. Notas de frutas vermelhas maduras, cereja, ameixa fresca, especiarias doces marcantes, baunilha, chocolate, húmus, nota balsâmica. Acidez viva, bem preservada, taninos muito finos, especiado em boca, médio corpo. Boas notas de evolução. Onze meses em barricas de carvalho. Esse foi o vinho provado por Gaja.

 

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