‘Cidade das bicicletas’, Joinville ainda deixa a desejar na estrutura cicloviária

Maior cidade de SC ficou famosa pelo uso das magrelas, mas a infraestrutura para o uso das bicicletas ainda é insuficiente

Há cerca de quatro anos, o joinvilense Miguel dos Passos de Lima, 24 anos, tomou uma decisão radical: decidiu fazer os deslocamentos de casa para o trabalho de bicicleta.

Antes, ele pegava um ônibus coletivo no bairro Jardim Paraíso, na Zona Norte de Joinville, para chegar em Pirabeiraba. Quando percebeu que gastava menos tempo andando de bicicleta, não pensou duas vezes: mudou de hábito e hoje tem a certeza de que fez a melhor escolha.

“Era muito ruim pegar ônibus por causa dos horários. Aí, um certo dia, decidi testar minha resistência indo de bicicleta para o trabalho e percebi a diferença. Andava 17 quilômetros, entre a ida e a volta, e nem ficava cansado. Foi uma mudança de vida”, diz.

Miguel trocou o ônibus pela bicicleta e não se arrepende, apesar das más condições de infraestrutura – Foto: Jean Balbinotti/ND DigitalMiguel trocou o ônibus pela bicicleta e não se arrepende, apesar das más condições de infraestrutura – Foto: Jean Balbinotti/ND Digital

Com o tempo, Miguel passou a pedalar distâncias mais longas pelas ruas de Joinville e começou a sentir outro problema: a falta de infraestrutura para os ciclistas. Hoje, para ir de casa até o trabalho, no bairro Anita Garibaldi, ele pedala 32 quilômetros – 16 na ida e 16 na volta – e, nesses deslocamentos pelos bairros das zonas Norte, Leste e Centro, percebe problemas na infraestrutura das vias públicas para os ciclistas.

“Infelizmente, Joinville não faz jus ao título de Cidade das Bicicletas. Muitas ruas não têm ciclovias, nem ciclofaixas e, as que têm, são estreitas ou mal conservadas. Algumas oferecem espaço reduzido, com apenas um sentido do trajeto; em outras, temos de brigar pelo espaço com os carros”, afirma.

Segundo Miguel, a administração municipal poderia dar mais atenção aos ciclistas. Nos trajetos de bike que faz pelas ruas de Joinville diariamente, ele grava vídeos com o celular e depois os compartilha no status do WhatsApp para seus contatos. Nas publicações, Miguel mostra trechos de ruas sem ciclovias ou ciclofaixas, espaços esburacados e sem sinalização, além dos perigos do trânsito nessas vias e cruzamentos.

“Eu já percorri mais de 10 mil quilômetros de bicicleta nas minhas idas e vindas do trabalho e já vi acidentes, carros trafegando por áreas exclusivas dos ciclistas e cenas de desrespeito. Isso é o que mais me preocupa. As pessoas precisam entender que o ciclista também faz parte do trânsito. Tenho medo de ser atropelado todos os dias e, para que isso não ocorra, procuro andar sempre ligado, com uma visão de 360 graus. É bem complicado”, admite.

Rua Fátima é exemplo de via sem espaço próprio para o ciclista – Foto: Dani LandoRua Fátima é exemplo de via sem espaço próprio para o ciclista – Foto: Dani Lando

Apesar de todas as dificuldades, Miguel segue firme na sua escolha. Ele não pretende parar tão cedo de pedalar e sonha ver melhorias nas vias públicas de Joinville para que mais pessoas façam essa opção. “Sou muito grato a Deus por me dar saúde e fôlego para eu pedalar todos os dias e me guardar dos perigos das ruas. Minha história com a bicicleta vem desde a época de criança e vai continuar assim por muito tempo. Quero dar esse exemplo para os meus filhos, para meus amigos e familiares e espero que um dia eles façam a mesma escolha que eu fiz pela bicicleta”, conclui.

Trechos inacabados e em obras oferecem perigo ao ciclista

A reportagem do ND percorreu algumas das principais vias de Joinville e constatou coisas boas e ruins no que se refere, especificamente, às ciclovias e ciclofaixas. A jornalista Dani Lando, 35 anos, que passou a andar de bicicleta durante a pandemia, costuma pedalar com frequência pelas ruas das zonas Sul e Leste da cidade.

Dani Lando passou a pedalar com a pandemia e percebe diferenças na infraestrutura em vários pontos da cidade – Foto: Arquivo pessoal/Dani LandoDani Lando passou a pedalar com a pandemia e percebe diferenças na infraestrutura em vários pontos da cidade – Foto: Arquivo pessoal/Dani Lando

Segundo ela, na zona Sul, a falta de ciclovias é mais evidente. Na rua Teresópolis, por exemplo, nas imediações do bairro Guanabara, um trecho de ciclofaixa foi danificado por causa de obras de saneamento há cerca de três semanas e, até agora, não foi recuperado.

“Nesse trecho, muitas vezes o ciclista precisa sair da ciclofaixa para passar pelo obstáculo e acaba invadindo a pista dos veículos, o que deixa uma sensação de bastante insegurança”, destaca.

Dani conta também que há um outro ponto na rua Teresópolis, bem próximo a uma curva, onde falta iluminação pública à noite e sinalização adequada. Além disso, a calçada tem um grande buraco que pode virar uma armadilha para o ciclista no período da noite. “Isso aumenta a sensação de insegurança”, reforça Dani.

Também na zona Sul, no bairro Itaum, as ruas Florianópolis e Fátima contam com estruturas distintas, afirma Dani. Enquanto na rua Florianópolis não há qualquer obra ou sinalização para o tráfego de bicicletas, na rua Fátima existem trechos bem estruturados e sinalizados para a passagem das bicicletas. O problema ocorre justamente no cruzamento das duas ruas, onde não existe faixa exclusiva para os ciclistas.

“Quando eu pedalo no bairro Boa Vista, em direção à Porta do Mar, na zona Leste, eu encontro uma estrutura melhor, com mais ciclofaixas e um espaço com mais segurança. A rua Albano Schmidt também é um bom exemplo. Apesar de ainda estar em obras, ela oferece um espaço exclusivo para o ciclista”, conclui Dani. A jornalista fez um vídeo mostrando os problemas em alguns pontos da cidade. Veja:

Prefeitura diz que há planos para expansão e melhorias

Reconhecida por moradores e visitantes de várias partes do Brasil como a Cidade das Bicicletas, Joinville tem deixado a desejar em um quesito muito importante para quem faz do ato de pedalar um meio para se divertir ou ir trabalhar: a falta de infraestrutura das ciclovias e ciclofaixas.

Extensão cicloviária em Joinville – Joinville em Dados 2020 – Foto: Arte/NDExtensão cicloviária em Joinville – Joinville em Dados 2020 – Foto: Arte/ND

Embora o município possua cerca de 186 quilômetros de ciclofaixas, ciclovias, ciclorrotas e calçadas compartilhadas estruturadas – segundo a publicação Joinville Cidade em Dados 2020, da prefeitura -, muitas delas estão sem manutenção ou mal sinalizadas, o que gera insegurança para os usuários.

A atual administração reconhece a necessidade de investir na construção de novas ciclovias e ciclofaixas, especialmente nas vias principais e coletoras dos bairros joinvilenses. De acordo com o secretário de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável, Marcel Virmond Vieira, o município planeja expandir a malha cicloviária para 350 quilômetros e, atualmente, direciona entre 10% e 15% dos recursos da pavimentação para as faixas de bicicletas.

“Isso inclui a preparação do solo, a colocação do asfalto, a pintura das faixas, a sinalização e representa algo em torno de R$ 10 milhões somente das obras que estão em andamento”, informa Vieira.

Segundo ele, há outros projetos em análise para a construção de ciclovias e ciclofaixas, inclusive com faixas mais amplas para a circulação das bicicletas. Também está em estudo a disponibilização de bicicletários nos terminais urbanos como forma de estimular o uso da bicicleta por parte do cidadão.

“A gente reconhece que precisa melhorar e vamos fazer isso, mas o maior problema é cultural mesmo. A população, em geral, não vê a bicicleta como um meio de locomoção”, enfatiza o secretário.

Registro de acidentes com bicicleta – Foto: Arte/ND DigitalRegistro de acidentes com bicicleta – Foto: Arte/ND Digital

Vieira ressalta que os deslocamentos mais curtos, de até dois quilômetros de extensão, poderiam ser feitos de bicicleta, o que ajudaria a eliminar eventuais congestionamentos no trânsito. Só que para isso acontecer, de fato, as ruas dos bairros precisam estar melhor estruturadas, algo que não se vê atualmente.

Conforme levantamento do Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville, entre 1o de janeiro e 31 de março deste ano, foram registrados 67 acidentes envolvendo carros e bicicletas nas ruas de Joinville, 10 a mais na comparação com igual período do ano passado, o que significa um aumento de 17,5%.

Já o número de quedas de bicicletas registradas pelo Corpo de Bombeiros no período teve um salto ainda maior. Foram 50 quedas informadas no primeiro trimestre do ano passado e 64 no primeiro trimestre deste ano, o que representa um acréscimo de 28%.

Rotina de dividir espaços nas calçadas e nas ruas

O cinegrafista Adriano Mendes, 42 anos, pedala há mais de 20 anos e, nos últimos tempos, resolveu usar a bicicleta para ir ao trabalho e conhecer outros pontos da cidade nos finais de semana. Adriano mora no bairro Floresta, na zona Sul, e trafega pelos bairros Anita Garibaldi e Atiradores diariamente.

Adriano usa a bicicleta para trabalhar e passear nos fins de semana – Foto: Arquivo pessoal/Adriano MendesAdriano usa a bicicleta para trabalhar e passear nos fins de semana – Foto: Arquivo pessoal/Adriano Mendes

Segundo ele, as ciclofaixas de algumas ruas desses bairros estão bem sinalizadas, mas, muitas vezes, elas ficam estranguladas e não dão opção para o ciclista passar. Nesses casos, o jeito é subir na calçada ou invadir a pista dos veículos.

“Precisamos dividir espaços com as pessoas em cima da calçada, com os ônibus que tocam em cima da gente e não são capazes de avisar com a buzina que estão chegando, além dos automóveis. Fico preocupado com essa situação, pois não temos vias preparadas e adequadas para a circulação das bicicletas”, ressalta Adriano.

O jornalista Jeferson Corrêa, 41, tem uma visão um pouco diferente. Para ele, houve muita evolução nos espaços para ciclistas nas áreas urbanas de Joinville nos últimos anos. Ele entende que ainda há muito a melhorar, como, por exemplo, a sinalização e manutenção das ciclofaixas nas ruas da zona Sul.

Já na zona Norte, Jeferson destaca que há boas opções para pedalar com segurança. Nas áreas mais afastadas, como a Estrada da Ilha, que é muito frequentada pelos ciclistas, ele percebe falta de manutenção. “Um ponto que eu considero importante é o comportamento do ciclista. Precisa pedalar com prudência, respeitar a sinalização e usar os equipamentos como luzes e capacete. Percebo que sou mais respeitado pelo motorista quando estou equipado”, salienta.

Para o jornalista, mesmo que não haja ciclovias adequadas, é importante estimular o uso da bicicleta.

Uma relação antiga da cidade com as bikes

A história de Joinville com as bicicletas é antiga. Registros históricos mostram que a “magrela” era o principal meio de transporte no início do século 20, quando havia pelo menos uma bicicleta para cada dois habitantes.

O livro Álbum Histórico do Centenário de Joinville, datado de 1951, revela outro dado curioso. À época, a cidade contava com cerca de 47 mil moradores, 15 ônibus, 382 automóveis e 8.145 bicicletas. Era, evidentemente, o principal meio de transporte da cidade.

Há quem diga que, por muito tempo, as bicicletas eram emplacadas como veículos, o que permitia ter um controle exato da frota. Hoje, esse levantamento não existe mais.

Saída dos trabalhadores das fábricas usando as bicicletas eram cena comum em Joinville – Foto: DivulgaçãoSaída dos trabalhadores das fábricas usando as bicicletas eram cena comum em Joinville – Foto: Divulgação

O que se sabe, efetivamente, é que o ápice do uso das bicicletas em Joinville se deu nos anos 1970, quando grandes fábricas se instalaram na cidade e os trabalhadores, em sua maioria, se deslocavam de bicicletas. Em razão disso, as empresas precisaram criar estacionamentos de bicicletas, mais tarde denominados bicicletários.

Em horários de saída das fábricas e do comércio, era possível presenciar congestionamentos de bicicletas. Por essa razão, algumas placas de trânsito eram destinadas apenas aos ciclistas.

“Na Fundição Tupy, houve um tempo que havia mais de 1,2 mil vagas para bicicletas e elas sempre ficavam ocupadas. Vivemos uma outra época, a cidade cresceu e muita gente deixou de pedalar para andar de carro. Precisamos resgatar o uso da bicicleta e acreditamos que isso seja possível”, destaca o secretário de Planejamento Urbano e Desenvolvimento Sustentável, Marcel Virmond Vieira.

*Jean Balbinotti é repórter do jornal ND Digital.

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