Contorno Viário: o contraste entre a imponência da obra e o atraso de uma década

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Obra prevê um corredor expresso com 50 quilômetros e quatro túneis duplos chama a atenção pelo tamanho, mas demora na entrega causa transtornos e prejuízos aos usuários

Agora vai? Com quase uma década de atraso, o novo cronograma do Contorno Viário da Grande Florianópolis aponta para dezembro de 2023 a liberação total da aguardada alternativa para o trânsito na região. Paralelo a essa interminável espera os usuários são submetidos a incontáveis filas e transtornos. E mais: atualmente arcam com um reajuste diluído nas cinco praças de pedágio na BR-101.

A “trajetória” do corredor expresso de 50 quilômetros começou ainda nos anos 2000, com objetivo de oferecer uma alternativa de fuga ao conturbado tráfego da BR-101 – segregando os fluxos urbano e de carga.

Lá em 2008, quando teve início a concessão do trecho entre Florianópolis e Curitiba, atualmente administrado pela Arteris Litoral Sul, a estimativa era de que a entrega ocorresse em 2012.

Ponto onde o terreno está sendo preparado para as perfurações do túnel 1, em <a href="https://ndmais.com.br/?s=S%C3%A3o+Jos%C3%A9" target="_blank" rel="noopener noreferrer">São José</a>. &#8211; Foto: Leo Munhoz/NDPonto onde o terreno está sendo preparado para as perfurações do túnel 1, em São José. – Foto: Leo Munhoz/ND

A reportagem do Grupo ND esteve em um ponto da obra para tentar esmiuçar detalhes e buscar mais respostas para um projeto fundamental para a mobilidade de Santa Catarina, que enfrenta dificuldade para ser concluído.

Momento mais delicado

Um mapa com mais de três metros de comprimento, por quase dois de altura, expõe todo o traçado percorrido pelo Contorno Viário. Imagens reais foram anexadas, a partir de pequenas tarraxas, ao longo da ilustração para dar ideia do que está sendo feito: onde, como e em que condição.

“Os trabalhos estão ocorrendo, nesse momento, de maneira simultânea em todas as etapas. Nosso objetivo é cumprir com o prazo e entregar a obra em 36 meses, no final de 2023”, assegura Marcelo Módolo, superintendente de investimentos do Contorno Viário.

Trecho intermediário que, junto com o trecho Norte, está mais adiantado que o recém iniciado trecho Sul. Na imagem o km 205, trecho intermediário, Biguaçu &#8211; Foto: Arteris Litoral Sul/Divulgação/NDTrecho intermediário que, junto com o trecho Norte, está mais adiantado que o recém iniciado trecho Sul. Na imagem o km 205, trecho intermediário, Biguaçu – Foto: Arteris Litoral Sul/Divulgação/ND

Na etapa atual, a construção envolve 2 mil trabalhadores, divididos na operação de quase 400 maquinários de grande porte. Conforme Marcelo, este é o momento mais “delicado” da obra, já que quatro túneis duplos estão sendo construídos.

Para compreender melhor essa operação, os engenheiros dividiram a obra em três pedaços: trechos Norte, Intermediário e Sul.

Os dois primeiros estão em avançado estágio em relação ao terceiro. O trecho Sul foi oficialmente aberto após a assinatura da ordem de serviço em dezembro de 2020.

“Temos hoje 34 km de obra em execução entre os trechos Norte e Intermediário, onde conseguimos iniciar essas obras anteriormente, por isso estão em fase mais adiantada. Alguns trechos estão em fase de pavimentação”, ponderou.

Sobre os detalhes da obra, a reportagem do ND+ teve acesso a alguns números desenvolvidos nos trabalhos. Serão 50 quilômetros de pista dupla, quatro túneis duplos, sete pontes duplas, 20 passagens em desnível, seis trevos de intersecção, 1.150 áreas desapropriadas e R$ 1,65 bilhão investidos.

Mapa da obra e alguns detalhes importantes sobre o seu andamento; investimento já supera R$ 1,65 bilhão; previsão é que a obra ultrapasse a casa do R$ 3 bi &#8211; Foto: Arteris Litoral Sul/Contorno Viário/DivulgaçãoMapa da obra e alguns detalhes importantes sobre o seu andamento; investimento já supera R$ 1,65 bilhão; previsão é que a obra ultrapasse a casa do R$ 3 bi – Foto: Arteris Litoral Sul/Contorno Viário/Divulgação

Para o pico das obras, previsto para o segundo semestre deste ano, o cronograma prevê 3 mil trabalhadores simultâneos até a tão esperada entrega.

Pivô da demora

O contrato de concessão firmado pela ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) junto à Arteris Litoral Sul é de 25 anos. Se cumprido o prazo atual de entrega (em 2023), será quase 50% do período vigente.

Enumerar os motivos que refletiram em tamanho atraso é, inclusive, um desafio. A começar pela concessionária vencedora do trecho que liga Florianópolis e Curitiba, ao longo de 356,6 quilômetros, que restou comprada pela atual empresa sete anos depois de ter assinado o contrato.

O elevado número de desapropriações corrobora com o período de atraso, embora por si só não justifique uma década de espera. Segundo repassado pela empresa, já foram 1.150 áreas desapropriadas.

Atualmente, ainda restam 15 áreas a serem desocupadas. Para Marcelo Módolo, nada que possa “atrapalhar” o atual andamento das obras.

Redefinição no traçado foi o grande pivô de todo o atraso, embora uma série de adversidades tenham sido constatadas ao longo da década de espera &#8211; Foto: Leo Munhoz/NDRedefinição no traçado foi o grande pivô de todo o atraso, embora uma série de adversidades tenham sido constatadas ao longo da década de espera – Foto: Leo Munhoz/ND

A Covid-19, ao eclodir em território brasileiro em março de 2020, também trouxe reflexos com as paralisações previstas em decreto. Além disso, os trabalhos de terraplanagem foram influenciados pelos volumes de chuva nos meses de dezembro, janeiro e parte de fevereiro.

Mudança de traçado e reajuste da tarifa

O ponto crucial para a demora, no entendimento do superintendente Marcelo, foi a alteração do traçado original para o atual.

“O traçado foi alterado, quando houve a necessidade da construção de três túneis, saímos da área urbana e foi para o maciço da Pedra Branca. Por conta disso, houve a necessidade de novos projetos, novos licenciamentos e novas desapropriações com essa alteração, que fizeram com que a obra começasse só agora em 2021”, descreve.

Foi essa realocação do traçado que acarretou no último reajuste da tarifa nas cinco praças de pedágio exploradas pela concessionária. Segundo o superintendente, a adequação nos valores cobrados – que gerou revolta da comunidade – “contempla o reequilíbrio econômico-financeiro” referente ao realinhamento do trecho.

Entrega unificada

A entrega da obra, apesar da discrepância entre os andamentos, não deve acontecer por “partes”. Pensado justamente para desafogar o trajeto que liga Palhoça e Biguaçu, a tendência é que a inauguração do Contorno Viário se dará por completa.

O prazo de entrega foi indagado reiteradamente pela reportagem do Grupo ND que esteve no local. A empresa que distribuiu os serviços a partir de duas construtoras assegura que a obra está em “pleno andamento”.

“É uma prioridade do Grupo Arteris e nós estamos colocando todos os recursos necessários para terminar essas obras em 2023. Estamos bastante otimistas e motivados para entregar essa importante obra para a sociedade”, finalizou o superintendente.

Equipamento responsável por fazer o emboque e dar início a abertura do buraco para o túnel. &#8211; Foto: Leo Munhoz/NDEquipamento responsável por fazer o emboque e dar início a abertura do buraco para o túnel. – Foto: Leo Munhoz/ND

Fiesc fala em alento sobre o andamento das obras

Para a Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), trata-se de um “alento” a constatação de que as obras finalmente estão em processo consolidado e avançado.

“A obra está sendo executada em ritmo acelerado e temos a informação que mais de 3,2 mil homens estarão atuando para entregar essa importante obra da região”, pondera o presidente da entidade, Mário Cezar de Aguiar.

Presidente da Fiesc, Mario Cezar de Aguiar, avalia positivamente o andamento das obras. &#8211; Foto: Divulgação/FiescPresidente da Fiesc, Mario Cezar de Aguiar, avalia positivamente o andamento das obras. – Foto: Divulgação/Fiesc

O representante das indústrias do Estado ainda lembra as obras que estão acontecendo, neste momento, que envolvem a expansão da terceira faixa da BR-101 na região da Grande Florianópolis, sentido Norte.

A combinação destas obras, embora com portes bastante diferentes, deverão ser cruciais para o andamento e a fluidez de toda a região.

Estudo aponta prejuízos milionários no transporte

Os números, talvez, falem por si só: o tempo médio estimado para percorrer o corredor entre Palhoça e Biguaçu é, atualmente, de 1h22. A expectativa, tão logo a liberação do Contorno Viário, é que o tempo diminua para 38 minutos.

A própria engenharia empregada nas obras inclui as chamadas “passagens em desníveis”, que são estruturas implantadas para amenizar a sensação de sobe e desce do trecho.

Movimento na BR-101, na Grande Florianópolis; cena comum que mostra o grande fluxo de veículos que passa pelo trecho &#8211; Foto: Leo Munhoz/NDMovimento na BR-101, na Grande Florianópolis; cena comum que mostra o grande fluxo de veículos que passa pelo trecho – Foto: Leo Munhoz/ND

A velocidade estimada para o Contorno Viário é a mesma adotada na BR-101 no trecho da Grande Florianópolis: máximo de 100 km/h para veículos leves e 80 km/h para pesados.

Para a Fetrancesc (Federação das Empresas de Transporte de Carga e Logística no Estado de Santa Catarina), é imensurável o prejuízo oriundo do atraso, que reflete diretamente no fluxo dos veículos.

Um estudo encomendado pela federação junto à Faepesul (Fundação de Apoio à Educação, Pesquisa e Extensão), da Unisul (Universidade do Sul de Santa Catarina), expõe números impressionantes.

A começar pela velocidade média empregada no trecho: segundo o levantamento feito entre outubro de 2019 e abril de 2020, é de 39,79 km/h.

O estudo vai fundo ao interpretar essa velocidade e o quanto ela reflete no deslocamento dos veículos. De maneira escalonada, contabiliza prejuízos em diversos segmentos, que vão do combustível usado até o peso, multiplicados pelo tempo.

Para o presidente da Fetrancesc, Ari Rabaiolli, trata-se de uma situação de lamento. A conclusão da obra, no entanto, vai ser refletida “diretamente na atividade do transporte, porque será possível reduzir o tempo de tráfego”.

“Um caminhão que sairia de Criciúma para o Porto de Navegantes, com a necessidade de retorno para o Sul do Estado, conseguiria chegar no mesmo dia, sem interferir na jornada do motorista. Já que, conforme estudo realizado, grande parte deste percurso é realizado pelos nossos caminhões a 39 km/hora”, assinala.

Confira, em vídeo, o depoimento completo do presidente da federação:

Obras imprescindíveis

Para a Polícia Rodoviária Federal, por meio da chefia de comunicação, trata-se de uma obra imprescindível para a vida útil da mobilidade.

Além de também enumerar o atual serviço de expansão da terceira faixa da BR-101, o inspetor Adriano Fiamoncini, que responde pelo departamento, lembra dos quesitos de tempo e segurança que deverão ser reflexo da entrega.

“O Contorno Viário, que já era para ter sido concluído há quase 10 anos, vai separar o fluxo dos moradores da região do fluxo de passagem, principalmente, de carga”, destaca.