Do governador arrojado às transformações em Florianópolis: Ponte Hercílio Luz faz 95 anos

Obra que começou em 1922 foi impulsionada pelo risco de mudança da capital catarinense para Lages

O governo do Estado precisou superar imensas barreiras políticas e limitações orçamentárias para concretizar o sonho – e atender a necessidade – de construir uma ponte ligando a Ilha de Santa Catarina ao Continente.

Construção Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/NDConstrução Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/ND

A obra custaria o dobro do que representava a receita estadual de um ano inteiro, mas era preciso afastar o risco de mudança da capital para Lages, uma ameaça que crescia na medida em que o secular isolamento de Florianópolis não mudava e dava até sinais de se acentuar. Até então, a baldeação de produtos e a travessia de pessoas era feita em prosaicas lanchas, balsas e botes de pouca capacidade e segurança.

O primeiro passo do governador Hercílio Luz foi levantar dois empréstimos de 5 milhões de dólares junto a banqueiros americanos. Um deles, pedido à Imbrie & Co. de Nova York, foi aprovado em agosto de 1919 e incluía também a construção de uma rede de trens elétricos, estradas, sistemas de saneamento e outras obras de infraestrutura no Estado.

O governador queria deixar a marca de homem de visão, desbravador e responsável pela integração de Santa Catarina, algo nunca tentado por seus antecessores.

Construção Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/NDConstrução Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/ND

Pouco após a autorização do empréstimo, os banqueiros acabaram solicitando moratória para atender à cobertura cambial, porém o prazo se esgotou e foi requerida pelo Estado a falência dos mesmos. Por decisão dos tribunais americanos, Santa Catarina foi autorizada, em setembro de 1921, a contrair um segundo empréstimo.

A proposta aprovada foi a de Robinson & Steimann, que previa a construção de uma ponte de 818 metros de comprimento, 10,5 metros de largura, 340 metros de vão central, 3,8 metros de altura das pilastras e 69,76 metros de altura das torres sobre o nível médio da água. O dinheiro total tomado junto aos americanos foi de 5,52 milhões de dólares.

Projetada para suportar o tráfego de trens elétricos, veículos, pedestres e uma futura canalização de água, a ponte Hercílio Luz é um exemplo de obra que se tornou um modelo bem-sucedido para engenheiros do mundo inteiro. Ela abrigou “recursos técnicos nunca antes utilizados no cálculo de uma obra dessa natureza”, nas palavras do engenheiro e historiador de Marcus Tadeu Daniel Ribeiro, autor de um parecer sobre o tombamento da ponte, em 1991.

Com “elementos estruturais inovadores para a época”, a travessia tinha o maior vão da América do Sul e o maior vão suspenso em sistema de barra de olhal do mundo, à época.

Uma das inovações eram as barras de olhal, que diminuíam a deflexão do vão central, aumentando a rigidez nas pontes suspensas. O perfil de treliças utilizado também era novidade e, junto com outras soluções nunca antes testadas, ajudou a transformar a obra em referência mundial.

Um governador arrojado

O governador Hercílio Luz foi traído pelo destino e não viu seu grande projeto ser concretizado. Político tarimbado, que respondera pela chefia do governo na ebulição do movimento federalista, em 1894, ele era engenheiro e tinha uma visão desenvolvimentista que não era menor que suas ambições políticas.

Construção Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/NDConstrução Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/ND

Com as obras em andamento, ele foi para a Europa se tratar de um câncer no estômago. Sem melhorar, retornou à Ilha e participou da inauguração simbólica da ponte: atravessou uma réplica feita em madeira, em pequeno porte, em 8 de outubro de 1924, menos de duas semanas antes de sua morte, em 20 de outubro.

A entrega da ponte de verdade foi no dia 13 de maio de 1926, às 13h, debaixo de uma chuva torrencial. O governador em exercício era Antônio Vicente Bulcão Viana, porque o vice Antônio Pereira Oliveira se afastara para concorrer ao cargo de senador da República.

As Forças Armadas e as escolas não desfilaram, por causa da chuva, mas a população lotou a ponte e seu entorno. A bênção foi dada pelo reverendo Jayme de Barros Câmara, então com 32 anos e que viria a ser nomeado cardeal em 1946.

Hercílio Luz entrou para a história catarinense: além de erguer a ponte que é um símbolo de Santa Catarina, recuperou as finanças do Estado, reformou a constituição e o sistema administrativo, construiu estradas, criou serviços públicos de água, saúde e saneamento.

“Hercílio era um homem arrojado, com visão de estadista, e teve a coragem de investir em infraestrutura numa economia de pequeno porte”, disse o historiador Jali Meirinho em entrevista ao ND, no final de 2019.

O impacto da ponte na vida de Florianópolis

A construção da ponte Hercílio Luz interferiu no desenvolvimento urbano de Florianópolis e municípios vizinhos e ajudou a promover a integração do Estado tão desejada pelo governador Hercílio Luz.

Na Capital, novas ruas foram abertas, o comércio se fortaleceu e uma classe empresarial até então presa às limitações naturais da cidade pode expandir seus negócios. A rua Felipe Schmidt, até então de prestígio secundário, foi alargada porque se ligava diretamente ao acesso principal da ponte, passando a abrigar importantes estabelecimentos do varejo local.

Construção Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/NDConstrução Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/ND

O mesmo aconteceu com a avenida Rio Branco, aberta em 1900 sem planejamento e preocupações urbanísticas. Depois de 1926, a via precisou ser adaptada porque começou a desempenhar papel ativo no escoamento de veículos entre as partes insular e continental da cidade.

No lado continental, novas vias passaram a servir as comunidades do Estreito, Barreiros, São José, Palhoça e Biguaçu. Ônibus ligaram a Capital com as cidades próximas, e as carroças, charretes e bondinhos foram sendo gradativamente abandonados.

De forma indireta, a ponte também reduziu as atividades do porto da Capital. Os navios Carl Hoepcke, Ana e Max, pertencentes à Cia. Hoepcke, transportavam produtos da terra (como café e farinha de mandioca) para outros centros consumidores, e também faziam o translado de passageiros de Florianópolis para as cidades de Itajaí, Paranaguá, Santos e Rio de Janeiro.

A madeira, muito farta à época, era embarcada no Estreito, onde funcionava outro terminal. Com a expansão do sistema rodoviário, a indústria de caminhões (e também de automóveis) desalojou os transportes marítimo e ferroviário de sua posição destacada em todo o país.

O historiador Jali Meirinho citou um fato emblemático, a viagem do governador Adolfo Konder ao Oeste do Estado, em 1929, numa época sem estradas, como o passo que iniciou de fato a integração que era o sonho de Hercílio Luz. “Era do espírito do hercilismo”, afirmou ele ao falar da aventura de Konder e comitiva pelos sertões catarinenses.

Construção Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/NDConstrução Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/ND

LINHA DO TEMPO

  • 1922 – Construção começa em 14 de novembro.
  • 1924 – Morre o governador Hercílio Pedro da Luz em 20 de outubro, 12 dias depois de inaugurar simbolicamente uma réplica de madeira da ponte na praça 15 de Novembro.
  • 1926 – A ponte é inaugurada no dia 13 de maio.
  • 1967 – Desaba a ponte Silver Bridge de Point Pleasent, nos EUA, semelhante à Hercílio Luz; fato traz alerta aos catarinenses.
  • 1982 – É descoberta uma trinca com cinco centímetros de abertura em um dos olhais das barras; travessia é interditada no dia 22 de janeiro.
  • 1988 – Em 15 de março, a ponte é reaberta somente ao tráfego de pedestres, bicicletas, motos e veículos de tração animal.
  • 1991 – No dia 4 de julho, a ponte é fechada por completo e o piso asfáltico do vão central é retirado para aliviar o peso de 400 toneladas.
  • 1995 – Uma vistoria do DER-SC (Departamento de Estradas de Rodagem) conclui que as barras de olhais “apresentam grau de instabilidade e possibilidade de causar queda abrupta da ponte”.
  • 1997– Em 13 de maio, o governador Paulo Afonso Vieira homologa o tombamento da ponte como patrimônio histórico estadual.
  • 1998 – A ponte é tombada como patrimônio histórico nacional.
  • 2004 – O governador Luiz Henrique da Silveira contrata engenheiros para desenvolver o projeto de recuperação.
  • 2005 – No dia 15 de dezembro, Deinfra abre edital de concorrência internacional, no qual o consórcio formado pelas empresas Roca e TEC foi vencedor.
  • 2006 – Em 17 de fevereiro começa a execução do contrato com o consórcio, no valor de R$ 20,9 milhões. O prazo para entrega das obras é definido para 2010.
  • 2008 – Construtora Espaço Aberto assume as obras.
  • 2009 – É pedida extensão de dois anos do prazo para a entrega da ponte.
  • 2011 – Estaqueamento é paralisado pela morte de um mergulhador.
  • 2012 – Previsão de conclusão da restauração em maio é frustrada e a entrega da obra é adiada por mais dois anos.
  • 2013 – Início da fase mais crítica da restauração. Uma treliça de 22 toneladas, que suspenderia o vão central, começa a ser montada. Previsão da conclusão da obra é para dezembro de 2014.
  • 2014 – Em junho, muda o prazo de entrega da ponte. No dia 19 de agosto, o contrato entre governo e a construtora é rescindido.
  • Fevereiro/2015 – A Empa Serviços de Engenharia, controlada pela portuguesa Teixeira Duarte, é contratada com dispensa de licitação para a reforma emergencial das estruturas de sustentação, orçada em R$ 10,2 milhões. Governador Raimundo Colombo viaja aos Estados Unidos para convidar a American Bridge para restaurar a ponte.
  • Abril/2015 – Técnicos da American Bridge vistoriam a ponte e pedem 60 dias para entregar o projeto. No dia 19, é assinada a ordem de serviço da Empa para o reinício das obras emergenciais. Prazo de entrega é de 180 dias.
  • Maio e junho/2015 – Técnicos da American Bridge fazem mais duas vistorias. Resposta final deveria sair em agosto.
  • Outubro/2015 – American Bridge desiste oficialmente de assumir a restauração.
  • Dezembro/2015 – As obras da chamada Ponte Segura, estrutura que garantirá a sustentação da ponte durante o trabalho de restauração, avançam mais uma fase. A Empa dá início à colocação das treliças da estrutura inferior que faria a ligação entre os quatro apoios e as torres principais da ponte.
  • Março/2016 – A Teixeira Duarte Engenharia e Construções é contratada para concluir a restauração. O contrato atual prevê a conclusão em 20 de março de 2020, com investimentos de R$ 351 milhões.
  • Fevereiro/2017 – Primeira operação de transferência de 20% da carga da ponte Hercílio Luz. A operação levou cerca de cinco horas.
  • Julho/2017 – Peças que permitiriam a ligação das barras de olhal com os blocos de ancoragem na ponte chegam ao canteiro de obras. São quatro peças de 13,3 toneladas cada, que foram transportadas de carretas de Ipatinga (MG) para Florianópolis.
  • Outubro/2017 – A segunda etapa da transferência de carga foi finalizada com sucesso. Foram elevados 8,7 centímetros, que representam acréscimo de 640 toneladas na estrutura provisória da ponte.
  • Fevereiro/2018 – A Teixeira Duarte faz a troca das celas, importadas da Espanha, na parte superior da torre continental.
  • Maio/2018 – Ponte completa 92 anos, ainda sem previsão de entrega da restauração. A Teixeira Duarte já recolocara 60 barras de olhal, de um total de 360.
  • Abril/2019 – Definida para 30 de dezembro a reabertura da ponte.
  • Junho/2019 – Mais uma etapa decisiva para o projeto de restauração da ponte Hercílio Luz é concluída. Uma nova transferência de carga fez com que 80% do peso da ponte voltassem a ser sustentados pela própria estrutura.
  • Setembro/2019 – Começam as obras do sistema viário do entorno da ponte.
  • Dezembro/2019 – Prefeitura da Capital inaugura o sistema viário para os acessos às cabeceiras insular e continental.
  • 30 de dezembro – A ponte restaurada é entregue à cidade, com eventos e grande participação popular.

O fechamento, a restauração e a entrega em 2019

Nas décadas que se seguiram à inauguração da ponte Hercílio Luz a cidade de Florianópolis cresceu em ritmo lento, até explodir, em termos demográficos e econômicos, a partir da década de 60. Foi em 1960, aliás, que a manutenção da estrutura passou a ser feita pela empresa paranaense Machado da Costa, que chegou a ter 104 funcionários fazendo a remoção da corrosão, o jateamento e a pintura da travessia.

Nos anos 70 começaram a aparecer os primeiros sinais de desgaste na ponte, e a queda de uma estrutura similar em 1967 nos Estados Unidos (a Silver Bridge, sobre o rio Ohio) aumentou as suspeitas de que era preciso ficar atento e, se possível, oferecer outra opção de travessia para os usuários, cada vez mais numerosos.

Construção Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/NDConstrução Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/ND

O problema estava numa barra de olhal que se rompera, comprometendo a estrutura. Em 1975, na gestão de Colombo Machado Salles, foi inaugurada a ponte que levou o nome do governador e que dividia com a Hercílio Luz o tráfego – já muito intenso – entre Ilha e continente.

A ponte Hercílio Luz foi fechada na noite do dia 22 de janeiro de 1982, durante a gestão de Jorge Konder Bornhausen, depois de uma reunião do então secretário de Estado dos Transportes e Obras, Esperidião Amin, com cerca de 30 engenheiros e técnicos da pasta, na qual foi analisado um laudo do IPT (Instituto de Pesquisas Tecnológicas de São Paulo) sobre o estado da estrutura.

O documento recomendava a interdição da ponte em vista da corrosão de componentes importantes, o que poderia provocar a queda, com consequências desastrosas para usuários e moradores próximos. Naquele momento, a ponte absorvia 43,8% do tráfego, ou seja, 27.345 carros por dia, em média, e nas horas de pico a marca era de 2.250 veículos por hora.

Construção Ponte Hercílio Luz – Foto: FP09Construção Ponte Hercílio Luz – Foto: FP09

Reaberta em 15 de março de 1988 ao tráfego de pedestres, bicicletas, motos e veículos de tração animal, a ponte foi fechada definitivamente em 4 de julho de 1991. Em seguida, o piso asfáltico do vão central foi retirado para aliviar 400 toneladas do peso da estrutura.

A partir daí, o governo estadual contratou várias empresas para a realização de trabalhos de conservação e manutenção da ponte. No entanto, a recuperação da estrutura por inteiro se tornou objeto de preocupação somente em 1992, mas tudo correu muito lentamente e só cinco anos depois é que o Estado recorreu ao governo federal para buscar recursos para a obra.

Tombada como patrimônio histórico municipal, estadual e nacional, a Hercílio Luz passou quase três décadas em obras, com rompimento de contratos, avanços e recuos, até ser entregue ao público em 30 de dezembro de 2019.

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