Floripa: nem Xhanghai, nem Nova York

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Crônica de Sérgio da Costa Ramos atenta para a necessidade do crescimento inevitável de Floripa, para que atenda humanos, não robôs

Preso num desses engarrafamentos patrocinados pelo licenciamento de dois mil novos veículos por mês, imagino a Florianópolis que resultará desse crescimento “chinês”- quase 8% ao ano nos últimos dez anos.

Movimento na BR-101 na região da Grande Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/NDMovimento na BR-101 na região da Grande Florianópolis – Foto: Leo Munhoz/ND

Penso também na ilha sossegada dos anos 1960, quando o mar ainda lambia o cais do Mercado Público e as casas entregavam os seus quintais às árvores frutíferas e à maresia. Hoje, o mar foi expulso do Centro Histórico da cidade – e a urbe cresce horizontal e verticalmente, como um caótico “criadouro” de ônibus e automóveis.

O labirinto do trânsito, “quebra-cabeças” algemado entre o mar e as montanhas, é um ingrediente dramático no crescente mau humor da Floripa do Século 21, cujos engarrafamentos vieram para ficar.

Prédio da Alfândega situado ao lado do Mercado Público, antes do aterro da Baía Sul – Foto: Edifícios cor 4103Prédio da Alfândega situado ao lado do Mercado Público, antes do aterro da Baía Sul – Foto: Edifícios cor 4103

Na Shanghai de 1982, que conheci no limiar da era Deng Xiaoping, o formigueiro humano não se movia em quatro rodas, mas em duas. Podia-se respirar, ao selim de milhões de bicicletas. Hoje, a grande cidade chinesa às margens do rio Guam-Pu, um tributário do Yang-Tsé, transformou-se numa sub-Nova York, conflagrada pelo delírio dos “arranha-céus” e ocupada pela maior frota de automóveis circulantes numa só cidade.

Todos os arquitetos do mundo se mudaram para a China. Neste momento e, apesar do Coronavírus, estão em construção no país oriental nada menos que 500 Brasílias, cidades totalmente novas, movidas pela competição do mercado nas quais a ocupação do solo, em sua lógica mercantilista, ignora a variável humana e sustentável.

Não existe ecologia na China, onde a natureza é 100% escrava do homem predador.

Mercado Público de Florianópolis – Foto: RICARDO WOLFFENBUTTEL/NDMercado Público de Florianópolis – Foto: RICARDO WOLFFENBUTTEL/ND

Tudo na China é numerado. O “bando” da Revolução Cultural era identificado como a “Gangue dos Quatro”, número das grandes modernizações. Os fracos de verão sua identificados de 1 a 5. O projeto chinês de desenvolvimento é quinquenal. As “cartilhas” que doutrinaram o povo para ser bom anfitrião nas já longínquas Olimpíadas de 2008 que elegeram “As Quatro Grandes Belezas”: do espírito, da linguagem asseada, do bom comportamento e do respeito ao meio ambiente.

Quatro belezas cosméticas, especialmente a última. Não há ambiente mais degradado do que o da atmosfera das cidades chinesas: ares infectados pelas chuvas ácidas, o dióxido de carbono, os rios de mercúrio, as inversões térmicas. Somadas, operam no centro de Pequim e de Shanghai nada menos que 15 indústrias siderúrgicas. A produção é de chumbo atmosférico.

Olho para Floripa com um aperto no coração. Queremos repetir a experiência de Shanghai, de desvairada ocupação do solo?

Conheço, talvez, a mesma sensação do escritor anglo-americano Henry James (“The Bostonians”, “The Americans” e “Portrait of a Lady”), que, em 1900, aos 57 anos, retornou da Inglaterra para a sua cidade natal, NY, depois de um “séjour”de 20 anos em Londres. Nessa volta, o nativo de Manhattan quase sofreu uma síncope com o que viu:

“É uma almofada de alfinetes, na qual os edifícios, como pregos, vão espetando os seres humanos…”

Projeto prevê um parque urbano de 123 mil metros quadrados e marina privada para 624 embarcações – Foto: Divulgação/NDProjeto prevê um parque urbano de 123 mil metros quadrados e marina privada para 624 embarcações – Foto: Divulgação/ND

A verdade, como sempre, estado meio. Floripa não precisa ser nem Shanghai nem Nova York, mas deve encontrar equilíbrio num plano e metas que não exclua o desenvolvimento urbano planejado. Com pontes, túneis submarino e terrestres, teleféricos, e, sim, transporte marítimo, combinando os modais – o sobre rodas e o sobre ondas.

Para isso, Floripa precisa equipar e modernizar o Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis (IPUF), revolucionar o seu orçamento, dinamizando as parcerias público-privadas e, de sorte, que haja recursos para o investimento infraestrutural, e não apenas o suficiente para pagar pessoal e recolher o lixo.

Florianópolis e o belo pôr do sol no mirante do morro da cruz – Foto: Flavio Tin/NDFlorianópolis e o belo pôr do sol no mirante do morro da cruz – Foto: Flavio Tin/ND

O crescimento é inevitável: os projetos de boa e humana arquitetura serão bem-vindos, sejam eles pontes, hotéis, trapiches ou marinas a serviço do homem. Desde qu o habitat humano seja pensado para seres bípedes, e não apenas para robôs rodantes sobre quatro rodas.