Internacionalização do aeroporto de Florianópolis uniu catarinenses

Janeiro de 2021 marca os 30 anos do marco de internacionalização do aeroporto de Florianópolis

Quem chega ao aeroporto de Florianópolis e se depara com uma estrutura de primeiro mundo não tem ideia dos problemas que enfrentavam os usuários quando o terminal era um rosário de precariedades e ainda não estava aberto a voos de vizinhos como a Argentina e o Uruguai.

Frente do Aeroporto Internacional de Florianópolis Hercílio LuzInternacionalização do aeroporto uniu catarinenses – Foto: marcos jordão/ND

Este mês de janeiro marca os 30 anos da internacionalização do Hercílio Luz, conquista obtida após uma verdadeira maratona de negociações, pressões políticas e viagens a Brasília para tentar convencer as autoridades federais de que a capital catarinense tinha, sim, demandas e potenciais para receber aeronaves de outros países, sobretudo pelo crescimento do setor turístico no Estado.

O atual Floripa Airport é a etapa final e bem-sucedida de um processo que começou lá atrás, em 1927, com um campo gramado onde pousavam monomotores a hélice orientados por uma torre de controle feita de madeira.

Antes disso, ainda na década de 1920, pousos eram realizados na pista do Campeche, utilizada para escalas regulares dos aviões da Aéropostale que transportavam correspondências do Atlântico Sul para a Europa – e que, reza a lenda, incluíam entre seus pilotos o escritor Antoine de Saint-Exupéry. No bairro Carianos, a pista pioneira de 1,5 quilômetro era de concreto e as aeronaves estacionavam num pátio de grama.

Dali até os dias atuais, marcados por jatos operando com toda desenvoltura, foram décadas de ampliações, reformas arrastadas e uma internacionalização que saiu pela união de esforços de entidades do comércio, do trade turístico e de autoridades que tinham trânsito junto ao governo federal.

A Acif (Associação Comercial e Industrial de Florianópolis) foi desde o início a catalizadora desse processo penoso, que encontrou muitas resistências porque em Brasília se dizia que a cidade não precisava de um terminal melhor, porque não tinha peso econômico e passageiros suficientes para isso.

Luta documentada

A Acif tem em seus arquivos papéis que documentam esse passo a passo. Em abril de 1984, uma portaria do Ministério da Aeronáutica, à época comandado pelo brigadeiro Délio Jardim de Mattos, conferiu ao Hercílio Luz a condição de “aeroporto internacional de alternativa”.

Ainda não havia o aval para linhas regulares, mas os voos charter já eram permitidos, em horários restritos. Começava ali uma via sacra que chegaria ao fim sete anos depois, em 6 de janeiro de 1991. Um voo da Varig saído de Buenos Aires, com direito a recepção oficial, coquetel e apresentações musicais, inaugurou a nova fase do terminal.

“Se hoje existe um aeroporto novo, é por causa da luta naquela época”, diz Alaor Tissot, que fazia parte da diretoria da Acif, então dirigida por Ody Varella.

Escala gerava atraso e perda de receita

O empresário Alaor Tissot era vice-presidente da Acif em 1985, quando a campanha pela internacionalização estava na fase mais aguda.

“O presidente Ody Varella não gostava de viajar de avião, e então eu, representando a Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina, fiz parte do grupo que foi a Brasília, onde o senador Jorge Konder Bornhausen, então ministro da Educação, intermediou uma audiência com o Ministério da Aeronáutica”, conta Tissot. Naquele ano, a pasta já era comandada por Otávio Moreira Lima, também responsável pelo DAC (Departamento de Aviação Civil).

A campanha teve o apoio dos empresários Estanislau Bresolin, Armando Gonzaga, Hamilton Peluso, Kid Stadler, Tarcísio Schmidt, Fernando Marcondes de Mattos, entre outros, representando agências de viagem, entidades que defendiam os interesses de hotéis, restaurantes e bares da Capital e o poder público local.

A queixa era de que os argentinos que vinham a Florianópolis por via aérea tinham que descer em Porto Alegre para fazer os procedimentos alfandegários e depois tomar outro voo para chegar ao destino. Em algumas situações, eles tinham que pernoitar na capital gaúcha. O mesmo acontecia com os catarinenses que viajavam para Buenos Aires.

Por exigência da Infraero (Empresa Brasileira de Infraestrutura Aeroportuária), como já haviam sido feitas melhorias, bastava que o Hercílio Luz fizesse algumas adaptações para ser contemplado com a internacionalização. No entanto, após a reunião em Brasília, foram anos de espera até o trade turístico ver concretizado o seu objetivo.

“Por um tempo os passageiros ainda precisaram descarregar as malas em Porto Alegre, passar pela Polícia Federal e perder horas que poderiam ser aproveitadas por aqui”, diz Manoel Timóteo de Oliveira, ainda hoje assessor de Acif. “Alguns acabavam fazendo compras lá e até visitando a Serra Gaúcha, vindo depois de ônibus para Santa Catarina”.

Campanha reuniu 400 convidados

Os agentes envolvidos na campanha pela internacionalização do aeroporto Hercílio Luz recordam de um grande evento realizado em setembro de 1986 no LIC (Lagoa Iate Clube) com a presença do então ministro da Aeronáutica, Octávio Moreira de Lima.

Com 400 convidados, a maioria autoridades e representantes de entidades associativas, a estratégia consistia em convencer o governo central de que a internacionalização era vital para o turismo de Santa Catarina.

Ody Varella, então presidente da Acif, dizia que os argentinos já operavam seis hotéis na Ilha e que Canasvieiras, em especial, recebia muitos visitantes do país vizinho, o que justificava a campanha da entidade.

Paralelamente, o Estado começava a planejar a construção de centros de convenções, investia na ampliação da malha rodoviária e cogitava melhorar a infraestrutura sanitária dos principais balneários. A expectativa da Acif era que no final de 1987, às vésperas de uma nova temporada de verão, o aeroporto estivesse pronto para receber voos regulares.

Na visita do ministro, além da certeza da internacionalização, foi prometida a duplicação do terminal de passageiros, com uma ala internacional. Também seriam resolvidas pendências em relação aos futuros procedimentos alfandegários e aduaneiros e à vigilância sanitária, que envolviam medidas dos ministérios da Justiça, Fazenda e Saúde.

Estado tinha pouca representatividade política

O atraso nos cronogramas é atribuído à baixa representatividade política de Santa Catarina à época. “SC era o zero da BR-101, e motivo de gozações e afrontas”, lembra Hamilton Peluso, então superintendente da Protur (Fundação Pró-Turismo).

Ele cita a free-way gaúcha e depois a questão do petróleo com o Paraná para justificar sua crença. Com o aeroporto, também foi assim. Peluso está convencido de que a privatização foi a melhor solução e que a empresa suíça que venceu a concorrência investirá permanentemente para atrair novos voos e expandir as operações do aeroporto.

Na época, a comissão de turismo da Acif, presidida por Armando Gonzaga, e representantes do trade turístico faziam visitas mensais ao aeroporto para acompanhar as obras.

Bastidores da reunião do trade turísticoReunião do trade turístico – Foto: Divulgação/ND

O fluxo máximo havia sido em janeiro de 1987, quando 44 mil passageiros passaram pelo Hercílio Luz. Sob licença especial, 80 voos internacionais passaram pelo terminal naquele ano, a maioria operados pela Austral e Aerolíneas Argentinas.

Recepção com pompa no aeroporto

Imagem do primeiro voo do aeroporto de FlorianópolisAvião que fez o primeiro voo – Foto: Divulgação/ND

A internacionalização demorou quase uma década para sair, gerando protestos e críticas na imprensa, mas o que se viu depois foi um crescimento brutal do fluxo, especialmente de argentinos, com média de dois a três voos semanais vindos de Buenos Aires.

Depois foi a vez dos chilenos e paraguaios também abrirem rotas para Santa Catarina. O voo inaugural foi feito pela Varig (num Boeing 737-300), que era previsto para as 14h45 do dia 6 de janeiro.

pessoas observam desembarque de voo em FlorianópolisDesembarque no primeiro voo – Foto: Divulgação/ND

A aeronave chegou adiantada, provocando um corre-corre no cerimonial. Mulheres de ex-governadores foram convidadas a fazerem esse voo de Buenos Aires para a Ilha, junto com outras pessoas da cidade, e foram recebidas com pompa e circunstância. 70 dos 131 passageiros desembarcaram em Florianópolis.

“Ainda hoje se colhem os resultados daquela luta, mas há outras obras de infraestrutura turística pedindo passagem”, ressalta o empresário Kid Stadler, então diretor da Abav-SC (Associação Brasileira de Agentes de Viagem, seção Santa Catarina) e hoje presidente do Sindetur (Sindicato das Empresas de Turismo).

Autoridades aguardam desembaqueAutoridades aguardam desembarque – Foto: Divulgação/ND

Para o atual presidente da Acif, Rodrigo Rossoni, já se sabia, 30 anos atrás, que o turismo representaria um papel cada vez maior para a economia da cidade.

Hoje, a entidade aposta nas parcerias público-privadas e defende investimentos estatais em melhores acessos e equipamentos como a marina da Beira-mar Norte.

“Com novos regramentos, será possível melhorar a mobilidade urbana e viabilizar o antigo sonho das multicentralidades na Ilha”, afirma Rossoni. “Isso criaria mais segurança jurídica, incentivando os investimentos, e viabilizaria um turismo mais sustentável na cidade”.

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