Ponte Hercílio Luz: um organismo da cidade mais vivo do que nunca

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O balançar faz os visitantes adaptarem seu caminhar, procurarem apoio para manter o equilíbrio e, certamente, saírem fascinados com sua engenharia

Quem visitou a Ponte Hercílio Luz desde sua reinauguração, no dia 30 de dezembro de 2019, sentiu as mais diversas reações: a emoção de finalmente conhecê-la, o fascínio com sua imponência, o alívio de quem vivenciou um longo processo de restauração que chegou ao fim e vários outros sentimentos que envolvem o principal cartão-postal de Florianópolis. Porém, a reação quase unânime é de surpresa pelo vai e vem lateral da Velha Senhora.

Catarinenses visitam Ponte Hercílio Luz após inauguração – Foto: Flávio Tin/Arquivo/NDCatarinenses visitam Ponte Hercílio Luz após inauguração – Foto: Flávio Tin/Arquivo/ND

O balançar fez os visitantes adaptarem seu caminhar, procurarem apoio para manter o equilíbrio e, certamente, saírem fascinados com sua engenharia. O movimento é natural de um aponte pênsil que foi projetada e testada para isso, variando de acordo com a intensidade dos ventos e do tráfego sobre ela e, dessa forma, mantendo sua estrutura segura.

Logo na primeira semana após sua reinauguração, mais de um milhão de pessoas puderam sentir a sensação na Ponte Hercílio Luz. De lá para cá foram realizados diversos shows, apresentações culturais, festivais, bloco de pré-carnaval e outras atividades que inseriram a ponte e seu entorno no cotidiano da cidade.

Quem vive esse vai e vem de pessoas de perto é Rodrigo Stüp, mais conhecido como o Guia Manezinho, que já conduziu centenas de turistas e nativos pelo local, testemunhou suas reações, mas também lidou com as próprias.

Já atravessei de todos os jeitos que consegui: em grupo, sozinho, de dia, de noite, de bicicleta, de ônibus, fiz até rapel. E ela é tão presente que não é apenas um ícone, é parte das nossas vidas e agora isso ainda é mais evidente (Rodrigo Stüpp)

Ponte Hercílio Luz – Foto: Anderson Coelho/Arquivo NDPonte Hercílio Luz – Foto: Anderson Coelho/Arquivo ND

Vai e vem da história

Milhares de florianopolitanos só tiveram o prazer de passar pela Ponte Hercílio Luz agora, pois, para que este momento chegasse, foi necessário uma espera de 28 anos desde a interdição total, no dia 4 de julho de 1991.

Porém, o início de sua história começa mesmo em 1922, quando Hercílio Luz, então governador de Santa Catarina, inaugurou as obras no dia 14 e novembro daquele ano. Ele faleceu em 1924 e, por isso, foi quem eu o nome à ponte inaugurada no dia 13 de maio de 1926, sendo a primeira ligação direta entre a ilha e o continente em um caminho que antes era feito de barco. Uma obra de dimensões inimagináveis para a época com cinco mil toneladas de aço – em grande parte importado -, um mil trabalhadores envolvidos, 14 mil metros cúbicos de concreto em sua base e um valor de 14,5 milhões de contos de réis (R$ 1,7 trilhão em valores corrigidos).

“Em 1926 tinha muita gente vindo do interior da ilha para poder ver com seus próprios olhos, pois na época a cidade tinha cerca de 40 mil habitantes e havia quem achasse que uma construção daquele tamanho era coisa de bruxa”, conta Stüpp.

Construção Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/NDConstrução Ponte Hercílio Luz – Foto: Reprodução/ND

A partir daí, tudo correu bem até 1967, quando a Silver Bridge, no município americano de Point Pleasent, desabou. Embora fosse menor, a engenharia dessa ponte era a mesma da Hercílio Luz, o que acendeu o sinal de alerta nas autoridades catarinenses e motivou a construção da Ponte Colombo Salles, inaugurada em 1975.

Estudos na Ponte Hercílio Luz foram realizados e o assunto foi amplamente debatido até que, em 1982, houve a primeira interdição por conta da descoberta de uma trinca em uma das barras de olhal. Em 1988, foi liberada para pedestres, ciclistas e veículos mais leves, mas voltou a ser interditada totalmente em 1991, mesmo ano de inauguração da Ponte Pedro Ivo Campos.

A Ponte Hercílio Luz é um dos principais atrativos de Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/NDA Ponte Hercílio Luz é um dos principais atrativos de Florianópolis – Foto: Anderson Coelho/Arquivo/ND

Desde a primeira interdição, foram 20 contratos de elaboração de projetos, manutenção, assessoramento e serviço de obras para a reforma da Ponte Hercílio Luz com um custo de R$ 685 milhões (valores corrigidos) aos cofres públicos. Um vai e vem burocrático e turbulento de quase três décadas que desperta emoções conflitantes.

“O nosso roteiro se chama ‘Ponte Hercílio Luz, entre a vergonha e o orgulho’ e por aí você tira que as reações são adversas e nós vamos oscilando entre esses sentimentos durante o roteiro, refletindo sobre isso”, conta Stüpp, que conclui com uma reflexão: “Quase valorize o patrimônio que é nosso, que tenhamos uma relação de admiração com a ponte, mas que não deixemos de ser cidadãos e cobrar os responsáveis pela demora e pelo custo que nós pagamos.”

Vai e vem dos transportes

Além de buscar reparar os erros do passado, o desafio também se mostra à frente. Aos poucos, a Velha Senhora também se integra ao vai e vem do trânsito e surge como uma solução ao recorrente problema de mobilidade urbana no município.

A policial Flávia Souza mora no Continente e sempre passeia com a bike elétrica na Ponte Hercílio Luz – Foto: Leo Munhoz/NDA policial Flávia Souza mora no Continente e sempre passeia com a bike elétrica na Ponte Hercílio Luz – Foto: Leo Munhoz/ND

O aumento do tráfego de veículos sobre seu caminho é gradual. O primeiro passo foi a travessia de pedestres, ciclistas e do transporte coletivo com média de 32 mil passageiros por dia em linhas municipais e intermunicipais até o fim de fevereiro. A inclusão de novas linhas e de outras opções como transporte escolar, táxis e turismo são os próximos passos até chegar aos 60 mil passageiros por dia. Após essa etapa, a Secretaria Municipal de Mobilidade e Planejamento propôs novas possibilidades.

“Superada a primeira fase com o transporte coletivo, pretendemos expandir, alcançando pelo menos 100 mil usuários por dia. Depois, avaliar a utilização para veículos individuais, mas com o desejo de um modelo que favoreça o compartilhamento, ou seja, mais de três pessoas por veículo, por exemplo. Com relação aos padestres e ciclistas, as intervenções urbanas consolidaram a visão e um espaço urbano amigável, que tem atraído tanto aquele que utiliza para a travessia como para visitação turística”, disse o secretário da pasta, Michel Mittmann.

Assim, a Ponte Hercílio Luz está cada vez mais inseria na rotina florianopolitano, contribuindo para a qualidade de vida, estimulando o turismo e trazendo história em cada centímetro de sua estrutura.

A administradora Mariana Cansian corre nos dias de semana na Ponte Hercílio Luz e passeia com os filhos Davi e Sarah nos finais de semana – Foto: Leo Munhoz/NDA administradora Mariana Cansian corre nos dias de semana na Ponte Hercílio Luz e passeia com os filhos Davi e Sarah nos finais de semana – Foto: Leo Munhoz/ND

Particularmente, gosto de falar que a ponte é mesmo uma Velha Senhora de quase 94 anos que em alguns momentos foi carregada; em alguns carregou e que, de algum jeito, era uma senhora com sérios problemas de articulação e que teve que enfrentá-los; mas hoje se reergueu”, brincou Rodrigo Stüpp, o Guia Manezinho

Nesse vai e vem de pedestres e turistas, de tráfego de ciclistas e de transporte coletivo, que se mescla com o vai e vem de histórias e sentimentos que a ponte desperta e até o vai e vem de seu balanço natural, mostra que a Ponte Hercílio Luz é, sim, um organismo da cidade. Agora mais viva do que nunca, pulsando junto com esse vai e vem da capital dos catarinenses.