Primeiro consertar e planejar para depois destravar a logística

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Egídio Martorano, gerente para de Transporte, Logística, Meio Ambiente e Sustentabilidade da Fiesc, fala sobre o futuro da malha rodoviária de Santa Catarina

O desenvolvimento pleno da indústria catarinense no futuro passa pelo enfrentamento imediato da “situação caótica” da malha rodoviária estadual.

A palavra “caótica” foi repetida várias vezes pelo gerente para Assuntos de Transporte, Logística, Meio Ambiente e Sustentabilidade da Fiesc (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), Egídio Antônio Martorano.

Egídio Martorano, gerente para de Transporte, Logística, Meio Ambiente e Sustentabilidade da Fiesc – Foto: Filipe Scotti/NDEgídio Martorano, gerente para de Transporte, Logística, Meio Ambiente e Sustentabilidade da Fiesc – Foto: Filipe Scotti/ND

As soluções passam por atitudes urgentes das autoridades, com investimentos em manutenção e implantação de tecnologias, fatores que serão fundamentais para facilitar a vida de pessoas e empresas de Santa Catarina.

Além disso, planejar um modelo logístico mais diversificado e colocar em uso as ferramentas tecnológicas já existentes, como o pedágio por quilômetro rodado, são mais que tendências, são deveres que já precisam ser cumpridos.

Quais tecnologias podem nos ajudar nesse processo nos próximos anos?

Temos que considerar o seguinte, nós temos mecanismos como ITS (Inteligência de Tráfego), que é a Rodovia Inteligente, ele consegue fazer a gestão dos fluxos dentro de uma rodovia, trazendo alternativas, antecipando problemas, isso nós estamos propondo para a BR-101, combinado com o Free Flow, que é um pedágio mais justo e cobra proporcionalmente ao uso, e isso permite com que haja maior receita. Então, implantar o ITS, que é como é chamada a Inteligência de Tráfego, junto com o Free Flow, é fundamental para o futuro das rodovias. Em termos de planejamento, nós temos ferramentas de última geração no sentido de definir as matrizes, as movimentações, e talvez seja uma ferramenta importantíssima para a instalação do plano estadual de logística, considerando uma característica do Estado, que são as cargas de valor agregado, temos um arranjo industrial diferenciado, pulverizado, diferente do Brasil, e a logística tem que ser planejada de acordo. Para isso podemos ter uma parceria com o governo federal, para disponibilizar essas ferramentas de última geração. A tecnologia é fundamental.

Estamos atrasados quando o assunto é inovação tecnológica?

O Brasil tem muito a fazer. O Free Flow, que é o pedágio por quilômetro rodado, foi aprovado um projeto de lei, tem a regulamentação, que é complexa, porque exige a mudança de determinados parâmetros, tem que haver uma adequação para a realidade brasileira. O Free Flow é utilizado no Chile e em outros locais do mundo. Ele é importantíssimo. Sobre o planejamento em si, é só ter vontade de fazer da melhor forma. O ITS tem uma combinação com o Free Flow, tem tecnologia para isso, tem empresas para prestar esse serviço. Portanto, precisamos de uma gestão centralizada, que tenha essa visão e consiga dar celeridade em todos esses processos. E a tecnologia é importante em todos os setores: empresarial, na logística interna, de produção, no planejamento, na definição do monitoramento, da segurança, no portuário, nos fluxos, para tudo isso existem várias tecnologias.

Além da tecnologia, no que mais devemos investir?

É a questão da educação. Não podemos só culpar a questão da infraestrutura para esses terríveis índices de acidentes, que causam prejuízos enormes para Santa Catarina, a educação no trânsito também é fundamental. É uma linha que estamos trabalhando, temos um projeto na Fiesc que é a humanização das rodovias catarinenses, porque temos essa mácula, Santa Catarina é destaque nos acidentes rodoviários, então precisamos trabalhar muito com a educação. Isso deve ser feito desde a adolescência, com os jovens. Dizem que é difícil mudar a mentalidade das pessoas mais velhas, então estamos fazendo essa campanha. A proposta é discutirmos esses assuntos, a Polícia Rodoviária Federal conhece muito bem a realidade, sempre foi parceira nesses aspectos, de identificar os pontos críticos.

Quais são os maiores problemas e desafios hoje?

Estamos em uma situação caótica na questão da logística. Primeiro, temos uma grande concentração no terminal rodoviário, mais de 64% da nossa matriz é rodoviária, e esse patrimônio todo se encontra ameaçado. Não só pela falta de conservação e manutenção, como também pelo comprometimento dos níveis de serviço, pela movimentação que tem, gerando atrasos e prejuízos imensos, inclusive com implicações socioeconômicas terríveis na questão dos acidentes, por exemplo. O que nós identificamos, a BR-101: caótica, não precisa nem ser engenheiro para ver, nós mostramos isso com os números, que está comprometida. A BR-470: caótica. A BR-282, no Oeste, que é um trecho importantíssimo, porque combinado com a BR-470 é o maior eixo de escoamento da produção agroindustrial do Estado: caótica. A BR-163, que é um dos maiores parques industriais do mundo, berço de várias cooperativas, está comprometida porque tem dificuldades nos custos do suprimento para o milho e inclusive de garantir esse suprimento de forma eficiente. Esse é o cenário.

Como podemos resolver?

A curto prazo, nós precisamos de uma solução para isso, e ela não pode ser paliativa. Vamos sugerir que se pegue a BR-470 no trecho de Indaial até Campos Novos e faça uma boa manutenção. O pavimento, com o tempo, sofre comprometimento, então é preciso ter não só os investimentos na melhoria, como tem que ser contínuo. Temos que ter um plano, viável, de manutenção preventiva e rotineira desses nossos corredores. Agora, não podemos nos abster de pensar no médio a longo prazo. Temos que pensar primeiro na diversificação da matriz de transporte. A diversificação da matriz pode se dar de duas formas. Primeiro, a cabotagem pode ter um papel importantíssimo, portanto, necessitamos aprovar o projeto BR do Mar, que é a regulamentação, possibilitando concorrência e desburocratizando o processo. Em segundo lugar, a ferrovia. Precisamos pensar na diversificação da ferrovia. Entretanto, entendemos que não deve ser uma coisa impulsiva e nem sem fundamentação técnica. O que Santa Catarina precisa para definir seus eixos ferroviários é ter um plano. Um plano estadual de logística, considerando a infraestrutura atual e toda a projetada. Incorporar a ferrovia, que é muito difícil de obter viabilidade, dentro deste contexto, ela toda conectada com a nossa malha atual. Não há dúvidas de que primeiro precisamos atacar nossas rodovias, a BR-101 precisa daquele investimento de R$ 2,6 bilhões, a BR-470 necessita do término da duplicação, e se pensar no mínimo na capacitação no trecho Norte, precisamos terminar a BR-285, fazer um projeto de ampliação na BR-282, que é importantíssimo, e terminar o projeto da BR-163. Isso tudo é o curtíssimo prazo, emergencial. E ainda tem o programa do governo federal de manutenção de rodovias, para ele, nós precisamos garantir, no mínimo, R$ 400 milhões por ano, para a manutenção. E isso é essencial, se tivesse que priorizar, em um curto prazo, eu priorizaria a manutenção, porque uma rodovia sem acostamento, sem sinalização, com buracos, isso é que gera os acidentes, os atrasos, os prejuízos do frete, custos do seguro. Se nós conseguirmos ter uma malha bem preservada, isso dá uma grande garantia de competitividade e de segurança.

As políticas em andamento estão funcionando?

O que nós percebemos é uma grande dificuldade do governo federal em realizar os investimentos. Quando se fala de BR-101, por exemplo, se trata de investimento privado, é diferente. Então, desde que se faça o reequilíbrio financeiro, nós conseguimos os recursos para fazer aqueles R$ 2,6 bilhões. O que está emperrando é a burocracia. Temos as simulações das melhorias em Itajaí, Joinville, Itapema e Florianópolis. A BR-101 é uma questão basicamente resolvida, talvez estender a concessão para que isso não onere muito no pedágio. Agora, o problema das rodovias federais é que dependemos dos recursos financeiros do governo. E nós sabemos que o governo federal tem, para toda a infraestrutura de transporte do Brasil, R$ 6 bilhões. Tem uma restrição fiscal imensa, e não vai conseguir fazer. Temos que pensar em soluções. O que já definimos é identificar pontos prioritários ou buscar um mecanismo, que é a única saída que eu vejo no mundo inteiro, isso não é só no Brasil, que é a participação privada. Nós devemos verificar as oportunidades no sentido de definir um plano de logística estadual, com a participação da iniciativa privada nestes investimentos. Para isso, precisa de um ambiente jurídico e institucional seguro, de planejamento. E quando nós falamos em rodovia, não necessariamente é naquele modelo de duplicação, podemos muito bem ter uma concessão, que faça as roçadas, a manutenção do pavimento, a sinalização, sem onerar no pedágio. Isso dá gatilhos de demanda, que é o que é previsto nas concessões contemporâneas. E quando há demanda justificada e movimentação, se faz um equilíbrio, se faz um projeto, e se amplia para a duplicação.

Por que a manutenção é o ponto mais importante?

Nós temos um caso bem emblemático, que é a ponte Hercílio Luz, em Florianópolis. Por que ela chegou ao ponto que chegou? Pela falta de manutenção preventiva e rotineira. E gastaram-se milhões para recuperá-la. Cada US$ 1 não investido na manutenção são necessários US$ 4 para restaurar. E grande parte da nossa malha rodoviária federal e estadual já exige. Não é solução paliativa, tapa-buraco, é recuperação de pavimento. Para se ter uma base, a gente estima que nossa demanda mínima anual para rodovia, somando municipal, estadual e federal, é de R$ 1 bilhão por ano. Nenhuma esfera do governo tem capacidade para manter isso. Santa Catarina está há anos com essa questão, e a história deve se repetir. As rodovias estão com problema porque não tem a manutenção preventiva e rotineira que é fundamental.

Em quanto tempo podemos ver melhores resultados nas rodovias?

Isso depende muito, mas precisa tomar uma atitude já! Por isso que nós fizemos esse movimento todo, temos que mobilizar Executivo, Legislativo, para que dê celeridade a essas questões. Temos que cobrar do governo estadual, por exemplo, que faça um plano estadual de logística e também um plano de exploração. Essa é a motivação, cobrar para que se tomem medidas. A questão da BR-101 hoje é burocrática apenas, é a ANTT avaliar e autorizar os investimentos para incorporar o pedágio e, talvez, se pensar em uma extensão do prazo de concessão, que vence em 2032. A questão é urgente.

Quando se fala em pedágio, se encontram resistências.

Um grande desafio é a questão cultural. Geralmente, há uma grande resistência ao pedágio e muitos políticos têm dificuldades em defender, na verdade costumam criticar muito os projetos de concessão. Temos que mostrar que, da forma que está, as implicações socioeconômicas são terríveis. Em 2020, as rodovias de Santa Catarina representaram R$ 1 bilhão para a economia, de prejuízos de acidentes, segundo um estudo da CNT. Os custos sociais e de acidentes somam R$ 18,7 bilhões de 2011 até 2020. Portanto, temos que procurar a solução, e certamente, qualquer economista pode perceber isso, que não vamos ter recursos para fazer a manutenção. Devemos ter sim a participação privada, como parceira, sempre monitorando e cobrando o que está previsto no contrato. E, para isso, precisamos de um plano holístico, um plano integrado e sistêmico da infraestrutura definindo as prioridades e as principais conexões, talvez modelos híbridos considerando as rodovias estaduais e federais, para dar maior movimentação e viabilidade na concessão.