Guilherme Fiuza

Jornalista e escritor que iniciou a carreira em 1987, no "Jornal do Brasil". Entre outras redações, trabalhou em "O Globo" e revista "Época". Escreve também sobre política para a "Gazeta do Povo".


Caiu o monopólio da verdade

O que se viu não teve nada a ver com isso. As tais agências checadoras saíram basicamente enquadrando tudo numa cartilha pronta e pobre

A ideia da criação de agências de “checagem de fatos” surgiu com a premissa de que a internet propiciou a irradiação desenfreada de notícias falsas. Essas instituições atuariam então como crivo para determinados conteúdos considerados duvidosos, determinando o que é verdade e o que é mentira.

<span dir="ltr">Uma proposta no mínimo ousada – mesmo na hipótese </span><span dir="ltr">de uma atuação essencialmente objetiva</span> &#8211; Foto: Pixabay/DivulgaçãoUma proposta no mínimo ousada – mesmo na hipótese de uma atuação essencialmente objetiva – Foto: Pixabay/Divulgação

Uma proposta no mínimo ousada – mesmo na hipótese de uma atuação essencialmente objetiva. Na prática, não foi o que aconteceu. Os “checadores” se permitiram juízos conclusivos sobre matérias de alta subjetividade e a Justiça acaba de proferir a primeira decisão contra esses abusos – que na verdade viraram uma forma de censura.

O conceito de checagem já traz algo de pretensioso – para dizer o mínimo, considerando apenas o território da boa fé. A avalanche de informações decorrente da popularização das redes sociais de fato tornaria bem-vinda a ajuda para melhor compreensão de determinados temas ou supostas notícias.

Um trabalho de contextualização de fatos controversos seria muito útil para o consumidor de informação formar o seu juízo com mais conhecimento. Em vez de juízes do falso ou verdadeiro, carimbando sites, perfis e jornalistas, seria de grande serventia para o público uma instituição provedora de pesquisa histórica cotejando múltiplas visões sobre assuntos polêmicos.

O que se viu não teve nada a ver com isso. As tais agências checadoras saíram basicamente enquadrando tudo numa cartilha pronta e pobre. Os “julgamentos” mais escandalosos estão relacionados com o chamado tratamento precoce contra a Covid – experiência clínica com diversos estudos respeitáveis indicando provável eficácia.

Quem tratou do assunto como ele é – ou seja, um processo de pesquisa sem evidência científica conclusiva, mas com significativos sinais de efetividade – foi tratado pelos “checadores” como mentiroso. Essa conduta prepotente e lesiva foi finalmente punida pela Justiça.

Em decisão lavrada na 41ª Vara Cível de São Paulo, o juiz Marcelo Augusto Oliveira determinou que a agência de checagem “Aos Fatos” exclua os textos em que classifica como fake news duas reportagens da revista “Oeste”. “O tom adotado é mesmo agressivo”, escreveu o juiz, “e toma para si o monopólio da verdade do conteúdo tratado”.

Dispondo sobre a questão do abuso do direito ao contraditório, a decisão assinala que a referida agência “não apenas discordou da informação contida nas publicações da autora (revista “Oeste”), como também já lhe atribuiu caráter de falsidade logo no título da reportagem, com o nítido propósito de retirar-lhe a credibilidade perante os leitores, sem a mínima cautela.” Se o poder judiciário continuar atento, perceberá que em diversas ocasiões os tais “checadores” abusaram e continuam abusando de uma suposta autoridade que a sociedade não lhes conferiu.

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