Júri da Boate Kiss: sobrevivente faz relato emocionante e mostra marcas

Depoimentos marcados para este domingo são de vítima e testemunhas

O julgamento de quatro réus pelo crime de homicídio no incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria (RS), em janeiro de 2013, entrou no quinto dia neste domingo (5) no Foro Central, em Porto Alegre.

Familiares se emocionam no depoimento do sobrevivente Delvani Rosso — Foto: Ricardo Giusti/Correio do Povo/NDFamiliares se emocionam no depoimento do sobrevivente Delvani Rosso — Foto: Ricardo Giusti/Correio do Povo/ND

São três depoimentos agendados para hoje: o engenheiro civil Tiago Mutti, testemunha de defesa de um dos réus,  Delvani Brondani Rosso, uma das vítimas e Doralina Peres, ex-segurança da Kiss.

A fala de Tiago Mutti, incluído pela defesa de Mauro Hoffmann, iniciou em torno das 10h12. O profissional ajudou nas obras da reforma da casa noturna em 2009, quatro anos antes do incêndio. O engenheiro respondeu questões de cunho técnico sobre o trabalho realizado no local.

Em determinado momento, o juiz Orlando Faccini interrompeu a fala de Tiago Mutti e o alertou: “o senhor pareceu dar duas ou três frases prontas sobre a superlotação da boate”. O magistrado exigiu que fosse falado a verdade. A defesa, no entanto, contestou a afirmação.

Tiago Mutti foi questionado também sobre as barras de ferro existentes no interior da Boate Kiss em 2009. “Talvez era para organizar a entrada e saída de pessoas, não sei”, respondeu.

Mutti era sócio da Santo Entretenimento, sociedade limitada de danceteria, bar e similares, que originou a boate Kiss. Ele transferiu as cotas que possuía para Elissandro Spohr em 2010, no ano seguinte à criação da empresa. Mauro se tornou co-proprietário em dezembro de 2011.

Sobrevivente

O sobrevivente Delvani Rosso começou a ser ouvido às 16h20. Foi quase uma hora de forte emoção. Entre pausas e choro, afirmou: “Quando comecei a cair, comecei a me despedir da minha família pelo que eu pude ter feito. Pensei que ia morrer.” Familiares na plateia começam a chorar com forte depoimento.

Delvani Rosso, sobrevivente – Foto: TJRS/Divulgação/NDDelvani Rosso, sobrevivente – Foto: TJRS/Divulgação/ND

Delvani respondeu perguntas sobre o que presenciou naquele dia trágico e mostrou as queimaduras para os jurados, o que voltou a emocionar a plateia. “Tento ver o lado positivo, lapidar alguns sentimentos. É isso”, disse o sobrevivente ao juiz. “Perdi três amigos que estavam comigo”, diz sobrevivente.

Questionado pelo promotor David Medina do Ministério Público, se pode pegar sol, o sobrevivente respondeu que não tem limitação. O depoimento encerrou por volta das 17h e os familiares deixaram o plenário chorando com o relato sobre o incêndio.

Até agora, já foram ouvidos nove sobreviventes, de um total de 12, quatro testemunhas e uma quinta, que respondeu aos questionamentos como um informante, já que o juiz Orlando Faccini Neto o desclassificou após uma postagem da filha nas redes sociais. Ao todo, 16 pessoas serão ouvidas na condição de testemunhas, além dos quatro réus.

A próxima a ser ouvida ainda neste domingo é Doralina Peres, ex-segurança da Kiss.

Quem são os réus?

  • Elissandro Callegaro Spohr, conhecido como Kiko, 38 anos, era um dos sócios da boate;
  • Mauro Lodeiro Hoffmann, 56 anos, era outro sócio da Boate Kiss;
  • Marcelo de Jesus dos Santos, 41 anos, músico da banda Gurizada Fandangueira;
  • Luciano Augusto Bonilha Leão, 44 anos, era produtor musical e auxiliar de palco da banda.

Entenda

A tragédia, que matou 242 pessoas e deixou 636 feridas, começou no palco, onde se apresentava a Banda Gurizada Fandangueira, e logo se alastrou, provocando muita fumaça tóxica. Um dos integrantes disparou um artefato pirotécnico, atingindo parte do teto do prédio, que pegou fogo.

Boate Kiss, em Santa Maria (RS) — Foto: Reprodução/YoutubeBoate Kiss, em Santa Maria (RS) — Foto: Reprodução/Youtube

A tragédia, que matou principalmente jovens, marcou a cidade de Santa Maria e abalou todo o país, pelo grande número de mortos e pelas imagens fortes. A boate tinha apenas uma porta de saída desobstruída. Bombeiros e populares tentavam, de todo jeito, abrir passagens quebrando os muros da casa, mas a demora no socorro acabou sendo trágica para os frequentadores. Após a tragédia, normas para prevenção de incêndio em estabelecimentos similares foram alteradas para garantir maior segurança em todo o Brasil.

A maior parte acabou morrendo pela inalação de fumaça tóxica, do isolamento acústico do teto, formado por uma espuma inflamável, incompatível com as normas de segurança modernas.

Desde o incêndio, as famílias dos jovens mortos formaram uma associação e, todos os anos, no dia 27 de janeiro, relembram a tragédia, a maior do estado do Rio Grande do  Sul e uma das maiores do Brasil.

As informações são do Correio do Povo. 

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