Sócio da boate Kiss estaria morando em SC; veja a vida dos réus da tragédia após quase 9 anos

Julgamento acontecerá no dia 1º de dezembro, em Porto Alegre (RS), onde quatro pessoas estarão no banco dos réus

O julgamento do caso da boate Kiss está marcado para 1º de dezembro, em Porto Alegre (RS), e deve ser um dos maiores do Brasil. Entre os quatro réus, está um dos sócios do estabelecimento e que estaria morando em Santa Catarina.

Incêndio na boate Kiss aconteceu em janeiro de 2013 – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/NDIncêndio na boate Kiss aconteceu em janeiro de 2013 – Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil/ND

De acordo com a reportagem do R7, existe a suspeita que Mauro Hoffmann estaria em uma cidade catarinense junto da família, mas os advogados não confirmaram a informação durante a entrevista.

Na tarde da última segunda-feira (22), o advogado Bruno Seligman de Menezes, um dos responsáveis pelo processo de defesa do empresário, afirma que não está autorizado a comentar conteúdos relatados nos autos.

“Por acordo com o cliente, também não podemos revelar dados sobre sua vida particular e pessoal. Mas estamos à disposição para falar sobre o processo”, esclarece Seligman de Menezes.

Ainda conforme o advogado, Hoffmann se apresentou à Justiça sempre que foi chamado eu que conversa com a defesa sobre o processo e os caminhos a serem tomados.

“Estará presente na abertura da sessão plenária do julgamento, dando esclarecimentos ao júri e aos presentes. Vai exibir seus argumentos, detalhar aos brasileiros e a todo o mundo tudo o que acredita ser importante”, relata o advogado aos jornalistas do R7.

Para o defensor, Hoffmann tem responsabilidade limitada à de um sócio investidor.

“Essa condição foi confirmada por várias testemunhas e, inclusive, pelo próprio sócio Kiko. Ele era empresário da noite muito tempo antes de se tornar sócio da Kiss. Tinha a casa mais sofisticada da cidade, a Absinto. Em meados de 2011, comprou de Kiko 50% da Kiss. Para fazer o negócio, Kiko impôs a condição de continuar a administrar totalmente a casa, e assim foi feito”, diz. “Ele não tinha nenhuma ação direta na casa. Apenas se informava e recebia sua parte nos lucros”.

O advogado afirma ainda que todas as reformas exigidas pelo Ministério Público foram realizadas após vizinhos relatarem problemas com barulho e recorrer ao órgão público.

Elissandro Callegato Spohr, o Kiko, o azulejista e vocalista da banda Gurizada Fandangueira Marcelo Jesus dos Santos, que iniciou o incêndio ao passar, sem querer, o fogo de um sinalizador para a espuma do teto da Kiss, e o auxiliar da banda Luciano Augusto Bonilha Leão, hoje DJ, que comprou o sinalizador em uma loja da cidade, também serão julgados.

Todos responderão por homicídio simples com dolo eventual multiplicado por 242, o número de mortos, e tentativa de homicídio vezes 680, a quantidade de feridos.

Dolo eventual ocorre quando a pessoa sabe do risco de cometer o crime e, mesmo assim, o assume, como assumir o volante de um carro após se alcoolizar e matar alguém por atropelamento. Dolo direto é o integral, ou seja, quando há a vontade assumida, consciente, de realizar o ato criminoso. Pegar um revólver e atirar em alguém, por exemplo.

O DJ Luciano é o único que conversou com a reportagem do R7 e os outros apenas se pronunciaram por meio dos advogados.

Vocalista que segurou o sinalizador

Marcelo Jesus dos Santos destaca que seu pensamento ainda não saiu da Kiss e que pensa todos os dias sobre o ocorrido, relata a advogada Tatiana Borsa. Aos 43 anos, o vocalista vive na mesma casa ocupada por sua família, em Santa Maria.

A advogada relata que o homem vive “assustado e acuado”. Além disso, não sai de casa para missões particulares. Nas obrigações, como audiência com a Justiça, deixa a casa apenas acompanhado de familiares ou advogado.

“É uma pessoa humilde. Trabalhava como azulejista antes [de se tornar vocalista] da banda. Instalava azulejos. Retomou a profissão após o caso, mas não conseguiu trabalhar regularmente por muito tempo por causa da saúde debilitada”, conta ela.

A advogada esclarece que o vocalista teve o pulmão afetado no incêndio e ficou internado por 30 dias após testar positivo para a Covid-19 em 2020. Por conta dos dois fatores, Marcelo tem 70% da capacidade pulmonar.

Auxiliar da banda que comprou o sinalizador

Luciano Augusto Bonilha Leão, 43 anos, vive como DJ e foi o único a marcar uma entrevista pessoal com a reportagem do R7. Atualmente, vive sozinho em um apartamento em Santa Maria.

Da tragédia até hoje, ficou 120 dias preso, separou-se da mulher, a professora Fátima Varas (“ela não aguentou a pressão”), ganhou peso, mudou de casa, fez tratamento de recuperação pulmonar e passou a tomar, com receita, remédios controlados para ansiedade, depressão e hipertensão.

Interior da boate Kiss após o incêndio – Foto: Wilson Dias/Agência Brasil/NDInterior da boate Kiss após o incêndio – Foto: Wilson Dias/Agência Brasil/ND

Além disso, diz ter sido resgatado da Kiss quase desacordado, em meio aos jovens que se aglomeravam na porta de saída. Afirma não saber até hoje quem foi o “enviado de Deus” seu salvador no incêndio. “Gostaria de localizar essa pessoa para agradecer a ela profundamente e mostrar minha gratidão.”

Luciano rebate a acusação de ter escolhido o sinalizador externo, mais barato (R$ 7 a unidade, na loja em que o artefato foi adquirido; o interno, apropriado à ocasião, custava R$ 70 ), para ficar com um troco maior.

Além disso, alega ter feito a compra uma semana antes sem ter sido informado sobre os planos de utilização do produto, e também não ter manipulado o fogo de artifício na noite fatídica.

Afirma ter colocado nas mãos do vendedor um bilhete do gaiteiro (sanfoneiro) da banda, Danilo Jaques, para quem prestava serviços gerais e era roadie da banda (auxílio em shows) como freelancer, com a descrição do item desejado pelo músico, sem opinar sobre o tipo.

Ele diz ter recebido R$ 50 pelo frila daquela noite. O vendedor da loja afirma ter cumprido um pedido feito por Luciano. O gaiteiro Danilo, que teria condição plena de confirmar uma das versões, a do bilhete ou a do funcionário da loja, e desmentir a outra, morreu no incêndio.

Kiko, sócio administrativo da boate Kiss

Elissandro Spohr era o responsável por cuidar da rotina da boate e não consulta as redes sociais desde a tragédia, 23 de janeiro de 2013.

Atualmente, atua na compra e venda de pneus e não costuma sair de casa.

Por que antes do incêndio ninguém disse que a Kiss era perigosa? Por que os agentes públicos que entraram lá não avisaram? Por que recebi todos os alvarás? Por que o Ministério Público (MP), a maior autoridade de controle, mandou fazer uma reforma que terminou numa tragédia? Quem deixou a Kiss funcionar tem culpa e deveria estar comigo lá no julgamento”, disse Kiko numa entrevista de duas perguntas, respondidas por e-mail ao repórter Leonardo Catto.

A reportagem do R7 esclarece que tentou contato com Jades Marques, advogado de Kiko, com o objetivo de marcar uma entrevista, mas as ligações não foram atendidas e as mensagens não foram respondidas até a publicação.

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