“Última vez que corri foi para fugir da morte”, diz vítima que perdeu o pé no incêndio na Kiss

Júri avalia a culpa ou não de quatro réus pelas 242 mortes ocorridas no incêndio da boate Kiss; duas testemunhas foram ouvidas

Kátia Siqueira trabalhava na boate Kiss no dia do incêndio e foi a primeira testemunha interrogada no julgamento, que começou nesta quarta-feira (1°). Sobre os quatro réus julgados no processo ela afirmou: “Com tudo isso que eles fizeram, tentaram matar a gente”.

Kátia Siqueira é ex-funcionária da boate Kiss e estava no local na data do incêndio – Foto: Reprodução/ InternetKátia Siqueira é ex-funcionária da boate Kiss e estava no local na data do incêndio – Foto: Reprodução/ Internet

A testemunha depôs das 14h45 até próximo às 20h. Kátia trabalhava na cozinha e no bar da boate. Ela informou não ter recebido treinamento de incêndio para atuar como funcionária da casa noturna.

“Trabalhei lá por seis meses de duas a três vezes por semana, às quintas, sextas e sábados”, disse ela. “Algumas vezes não tinha muito movimento, eram cerca de 300 pessoas, outras vezes não dava nem para circular lá dentro”.

A ex-funcionária informou que o local trabalhava com comandas na época. A partir delas, eles comentavam quantas pessoas tinham entrado no estabelecimento.

“Tinha só uma saída. Tinham as barras em toda a boate para fazer a divisão dos setores. A barra de contenção era para manter a ordem na saída para fazer o pagamento. Na hora do desespero as pessoas acabaram sendo esmagadas”, informou a testemunha.

“Queimei 18% do corpo e perdi o meu pé”

Após o depoimento de Kátia, foi a vez de mais uma testemunha depor. Kelen Giovana Leite Ferreira tem 28 anos e as marcas do incêndio ficaram em seus braços. “Queimei 18% do corpo e perdi o meu pé. Uso uma prótese, em decorrência do que aconteceu”, conta.

Além das marcas no próprio corpo, Kelen Giovana Leite Ferreira perdeu três amigos no incêndio – Foto: Reprodução/ InternetAlém das marcas no próprio corpo, Kelen Giovana Leite Ferreira perdeu três amigos no incêndio – Foto: Reprodução/ Internet

A jovem conta que frequentava a boate por ser um local universitário, enquanto estava na faculdade. Com ela, estavam mais duas amigas e cinco amigos. Dos sete, três faleceram no incêndio.

“Eu não vi a confusão, ninguém avisou nada. Eu não ouvi a música parar. Só uma multidão na minha frente que veio da pista de baixo e me atirei em correr porque achei que fosse briga”.

Kelen tentou voltar para buscar as amigas que tinham ido ao banheiro mas não pôde: “Um homem todo de branco, acho que foi Deus na hora ou meu anjo da guarda, parou do meu lado direito e disse: ‘Tu não vai’. E me puxou em direção a porta”.

A jovem  conta ter mantido contato com outras vítimas após o acidente e algumas delas afirmaram que “não deixaram sair sem pagar a comanda”.

Sobre a amputação do pé ela disse: “a gente vive numa sociedade que exige o corpo perfeito. Eu comecei o processo de aceitação do ano passado para cá”.

Para esconder as marcas, ela usava somente calça jeans até 2020. “Correr eu não consigo mais, a última vez que corri foi para fugir da morte”.

Os réus

O julgamento avaliará o caso de quatro réus e ex-sócios da boate: Elissandro Spohr e Mauro Londero Hoffmann, além dos músicos Luciano Bonilha e Marcelo de Jesus dos Santos. Eles respondem pela morte de 242 pessoas no incêndio ocorrido em 2013.

O julgamento começou na manhã desta quarta-feira, quando o incêndio ocorrido em Santa Maria (RS) completa quase nove anos. O Júri acontece no Foro Central I de Porto Alegre.

Durante o julgamento, as testemunhas são levadas por uma reprodução 3D que mostra os detalhes estruturais da boate Kiss.

*Com informações do Portal R7

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