Advogado acusado de humilhar Mariana Ferrer fala pela primeira vez sobre a polêmica

Gastão da Rosa Filho ficou conhecido no Brasil em meio à polêmica envolvendo a audiência com a promoter, cujo vídeo correu todo o país

Com quase 30 anos de atuação marcada pelo sucesso profissional, o advogado criminalista Cláudio Gastão da Rosa Filho, que nasceu e atua e Florianópolis, ficou conhecido nacionalmente não pelas centenas de casos solucionados ao longo da carreira, mas por um pequeno vídeo editado da audiência da influencer Mariana Ferrer, que teria sido estuprada num beach clube da Capital.

Audiência de instrução e julgamento do caso Mariana Ferrer Vídeo editado da audiência de instrução e julgamento do caso Mariana Ferrer veio à tona e caso ganhou ainda mais polêmica no Brasil todo – Foto: Reprodução/ND

No vídeo, divulgado pelo site The Intercept Brasil e por outros veículos da mídia, a vítima chora por supostamente estar sendo pressionada por Gastão, que é contundente na defesa do seu cliente, André Aranha, acusado pelo estupro.

Nesta entrevista, a primeira que concedeu após a repercussão do caso, Gastão Filho fala do impacto deste episódio na sua vida pessoal e profissional e atribui a grande repercussão a uma fake news, por conta da divulgação do vídeo editado, fora do contexto da audiência.

Gastão da Rosa Filho atuou no caso da influencer Mariana FerrerAdvogado Cláudio Gastão da Rosa Filho falou com exclusividade ao ND+ sobre o caso Mariana Ferrer – Foto: Divulgação/ND

Como o senhor avalia denúncias de que teria extrapolado sua atuação como advogado na audiência de Mariana Ferrer, cujo vídeo virou assunto na mídia nacional?

Gastão Filho: Naquela audiência a única vítima era André Aranha, meu cliente, este sim foi vítima de interesses escusos. A conclusão de que Mariana foi atacada deriva de uma gravação cortada e montada de forma criminosa para induzir e sensibilizar as pessoas a apoiarem uma pseudo vítima que chorava após deixar de responder várias perguntas. O choro que aparece na montagem criminosa do The Intercpt não teve nada a ver com minha inquirição.

O senhor está dizendo que o vídeo da audiência, que ganhou repercussão, não é verdadeiro?

Gastão Filho – Foi feita uma manipulação e edição em que pegaram dois trechos de menos de um minuto de uma audiência tumultuada que durou mais de cinco horas, e omitiram a parte na qual a Mariana, ao invés de responder, me atacava com veemência, questionava de forma ofensiva, e tomava atitudes incompatíveis com uma verdadeira vítima de estupro. Seu choro não foi, sob nenhum ponto de vista, consequência da minha conduta como defensor.

Qual foi então o motivo do choro de Mariana Ferrer? Não foi pela pressão exercida pelo senhor naquele momento?

Gastão Filho – Mariana não foi humilhada por mim- nem pelo juiz e tampouco pelo promotor – em momento algum durante as mais de cinco horas de audiência. A história que ela criou foi desmascarada. Das perguntas que fiz a ela, mais de um terço não foram respondidas. Mais de 56 perguntas articuladas com o intuito de trazer a verdade à tona ficaram sem resposta. Quem assiste à integra da audiência verifica também que Mariana chora em dois momentos: quando o juiz não permite que um advogado particular fique do seu lado durante o depoimento, já que a sua defesa era feita pela Defensoria Pública, e quando eu pergunto onde está o vestido e outras provas que ela diz ter, que são peças importantes até para ela demonstrar a veracidade do que alega. A prova de que não houve nenhum excesso e falha de minha parte é que a defesa de Mariana não interviu ou protestou em nenhum momento da minha argumentação e quando apresentou as alegações finais nada disse sobre minha conduta.

Na audiência o senhor tenta desqualificar a vítima em razão de fotos sensuais que ela tinha publicado. Não foi um pouco apelativo?

Gastão Filho: Basta assistir a audiência na íntegra para ver que não foi isso que aconteceu. Mostro as fotos sensuais extraídas do Instagram dela, e questiono porque ela as apagou.  Mariana acusou de forma leviana a defesa de ter manipulado as fotos apresentadas. Mas todas as fotos apresentadas foram extraídas das redes sociais dela. Obviamente, jamais tive intenção de fazer apologia à “cultura do estupro”. Toda mulher merece ser respeitada, independentemente de suas escolhas e roupas. Repito, as perguntas tinham um foco: saber o porquê ela teria apagado as fotos assim que iniciou o processo e os fatos vieram à tona. Digo com todas as letras que as fotos não têm nada demais. Ela claramente tenta criar uma personagem recatada após o início do processo. É isso que eu busco desconstruir perante o juízo.

Por que o senhor aceitou defender André Aranha, um homem acusado do estupro?

Gastão Filho: Se após analisar o processo eu chegar à conclusão de que houve o crime, em nenhuma hipótese defenderei esse acusado, pois no passado, tive uma experiência muito ruim e jurei a mim mesmo após o nascimento das minhas filhas, que nunca mais defenderia pessoas que praticam esse crime, salvo quando estivesse convencido da total inocência. Aceitei o caso do André porque após análise dos autos, me convenci de que ele é vítima de uma farsa. Basta uma análise superficial dos fatos carreados ao processo para ver que a história da Mariana, lamentavelmente não tem pé nem cabeça. A verdade é que ela achou desde o início que tinha se relacionado com outra pessoa, conhecido herdeiro de um poderoso conglomerado de comunicação da América Latina e do mundo, que infelizmente seria a verdadeira vítima de seu golpe.

Casos de estupros estão mais frequentes ou as mulheres estão denunciando mais? Como o senhor vê esta questão?

Gastão Filho: O que vem chamando a atenção são denúncias pontuais contra homens ricos e famosos, divulgadas num volume midiático inédito graças às redes sociais. Quem milita no fórum, no dia a dia de uma delegacia, sabe que 90% dos casos de violência sexual lamentavelmente atingem mulheres pobres, humildes, e não têm a merecida repercussão. O que vemos nas manchetes são situações envolvendo jogadores de futebol, empresários milionários e políticos de destaque acusados por moças que apresentam versões em que claramente se busca tudo, menos justiça. Mariana, por exemplo, processa o Café de La Musique pedindo R$ 1 milhão, pois, segundo ela, ‘quer seus direitos`. Acredito, porém, que nunca dá para generalizar. Cada caso é um caso. É para isso que a Justiça existe: para avaliar as provas e dar o seu veredicto.

O caso Mariana Ferrer é o mais difícil de sua carreira?

Gastão Filho: Do ponto de vista jurídico não é um caso difícil, porém complexo. Todas as provas apontam para a inocência do André e para a falsa acusação de estupro da Mariana. Quando for levantado o segredo de justiça do processo, todos poderão comprovar facilmente o que estou dizendo. Por outro lado, é um caso que teve uma repercussão enorme por ter todos esses componentes político-ideológicos, de ataque às instituições de Justiça e das próprias fake news. Eu particularmente fiquei surpreso em ver como uma farsa tão primária conseguiu tomar a proporção que tomou, logrando êxito em inicialmente, manipular parte da opinião pública. Bastou inventar uma história torpe e dizer que todos estão conspirando contra ela: as amigas, o delegado, o perito, o promotor, o juiz. Não tem cabimento. São pessoas importantes num processo democrático onde todos têm direito à acusação e à defesa, e que não tinham motivos para mentir. Mas é como diz aquela célebre frase de Abraham Lincoln: “Você pode enganar alguns por algum tempo. Mas jamais vai enganar a todos o tempo todo. ”

O senhor entrou com um pedindo para que o sigilo do processo fosse levantado? Por quê?

Gastão Filho: Sim, a partir do momento que as pessoas tenham acesso a todos os depoimentos, duvido que em sã consciência alguém acredite na historinha mequetrefe da Mariana. Prova disso é que após o Estadão divulgar na íntegra o depoimento de Mariana, dos mais de 50 mil comentários, mais de 95% foram no sentido de que a Mariana e o The Intercept mentiram. Mariana sempre bradava nas redes sociais para que o sigilo do processo fosse levantado. Agora, o novo advogado dela faz petição impugnando meu pedido. Eles têm medo da verdade, querem continuar iludindo algumas pessoas e tentando com isso emparedar o Judiciário. A defesa quer transparência absoluta.

O senhor costuma dizer que pelos meus clientes vai até a porta do inferno, mas não entra. Neste caso, entrou no inferno?

Gastão Filho: Em hipótese alguma. Não entrei porque quem lá adentra não sai mais. Sou um homem de fé, rezo diariamente e digo que vivi um verdadeiro inferno por conta de uma fake news do The Intercept. Eu, minha família e as advogadas que trabalham comigo, fomos todos ameaçados de morte. O The Intercept nem pode ser chamado de imprensa. Eles não fazem jornalismo, fazem militância política da pior espécie. Já há decisão liminar da Justiça obrigando o site a retificar a matéria e o vídeo criminoso que publicaram. Na matéria dizia que o promotor havia colocado em suas alegações o termo “estupro culposo” para absolver o réu. Esse termo nunca foi usado por ninguém: nem defesa, nem promotor, nem juiz. Foi a maior fake news dos últimos anos no Brasil.

Na sua opinião, por que André Aranha, não foi condenado?

Gastão Filho: André Aranha foi absolvido porque as provas indicam que a Mariana mentiu, sendo sua versão desmentida pelas filmagens, por testemunhas, pelos médicos peritos. Nada do que ela dizia lamentavelmente tinha um mínimo de credibilidade. Minha família foi exposta, minhas filhas foram ameaçadas, fotos de minhas filhas foram colocadas em perfis falsos com a legenda de que elas deveriam ser estupradas, entraram no Instagram delas, meninas de 10 e 12 anos, e as ofenderam, que deviam se matar por ter um pai que defende estupradores. O dano psicológico às minhas filhas é inominável. Nunca tive dúvidas de que tudo passaria e a verdade viria à tona. Tenho uma máxima que aplico em momentos difíceis: reza, espera e confia.

A OAB abriu um processo disciplinar contra o senhor por sua atuação nesta audiência. Qual a sua expectativa?

Gastão Filho: Quando vejo que alguns dos processos foram abertos por pessoas que sequer têm legitimidade para tanto, como por exemplo Gleisi Hoffmann e Maria do Rosário, encaro esse fato como uma comenda que vai enriquecer meu currículo. Seria um perigoso precedente a OAB me punir às prerrogativas constitucionais e profissionais que me são asseguradas. Lutar para trazer a verdade à tona não pode ser objeto de punição. Desmascarar não é sinônimo de humilhar. No caso do André, é mais um inocente está sendo poupado da pena de morte, pois não há dúvidas de que, se ele fosse condenado injustamente, seria executado ou estuprado na prisão. Entendo como natural à comoção inicial que a fake news do The Intercept causou. Agora, com o aprofundamento dos fatos, já está claro que se tratou de uma matéria e de vídeo falsos e que cada operador do Direito atuou dentro de suas prerrogativas profissionais. Especificamente sobre a OAB, eu jamais duvidarei de sua atuação e histórico de defesa da prerrogativa dos advogados e da liberdade.

O senhor pretende denunciar Mariana Ferrer por falsa acusação de estupro?

Gastão Filho: É uma decisão que cabe ao Ministério Público, pois a ação é pública incondicionada, mas no meu entendimento é algo que precisa ser feito. A falsa acusação de estupro é um desserviço para as mulheres que realmente são violentadas. Além, é claro, de destruir a vida de um inocente. Acredito que o endurecimento da pena para o crime de falsa denúncia de estupro deveria ser discutido por nossos legisladores. Há milhares de mulheres, em situação de grande vulnerabilidade, sendo abusadas, violentadas todos os dias. Todas elas são prejudicadas quando pessoas como Mariana e sua mãe se utilizam dessa causa tão séria para conseguir dinheiro ou fama.

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