Linha do tempo: veja o passo a passo do autor da chacina em creche de SC

Acesso a sites violentos, idolatria por massacres e busca por armas marcam o perfil do responsável pela tragédia; MP detalhou passo a passo no dia do crime

O MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) detalhou, em coletiva de imprensa nesta sexta-feira (21), o passo a passo do jovem 18 anos, responsável pela cachina na escola Infantil Pró-Infância Aquarela, em Saudades, no Oeste de Santa Catarina, antes e no dia do crime que chocou o país no início de maio.

MPSC detalhou passo a passo do autor no dia do crime – Foto: Caroline Figueiredo/NDMPSC detalhou passo a passo do autor no dia do crime – Foto: Caroline Figueiredo/ND

De acordo com o promotor de Justiça, Douglas Dellazari, o planejamento do crime começou dez meses antes do ocorrido. A intenção do autor era provocar um “verdadeiro massacre” no local, matando o maior número de pessoas possíveis.

A informação foi identificada a partir da quebra de sigilo do notebook do jovem. Segundo Dellazari, foi possível verificar inúmeros acessos e pesquisas do autor a páginas com conteúdo de violência e que fomentavam “matança generalizada”.

“O denunciado nutria uma especial idolatria por assassinos em série, criminosos, assassinatos em massa”, explica o promotor.

O autor do crime, inclusive, pesquisou quando haveria o retorno das aulas presenciais nas escolas do Estado, em específico na cidade de Saudades. Na véspera da tragédia, dia 3 de maio, ele pesquisou especificamente sobre a creche onde houve atentado. “Ele vinha planejando há muito tempo o ataque. Ele delineou o alvo mais fácil”, afirma Dellazari.

“O objetivo de matar o máximo de pessoas se conecta ao interesse de fama e reconhecimento que ele queria ter dentro do meio que vivia na internet”, conta o MP.

“Ele pesquisou sobre armas de fogo, armas brancas, arco e flecha. Por várias vezes ele tentou adquirir arma de fogo, não conseguiu e passou a avaliar a possibilidade de usar armas brancas. Ele fez pesquisas na internet sobre massacres em escolas feitos com armas brancas, isso mostra como o crime foi planejado”, reforça o promotor.

Dia do crime

No dia do crime o jovem chegou a ir trabalhar, saiu no intervalo, passou em casa, fez um lanche e de bicicleta foi até a creche, onde chegou por volta das 9h50. Ele então entrou no local e foi visto por alguns funcionários.

Frente da Creche Aquarela, em Saudades, Oeste catarinense – Foto: Secom/Divulgação/NDFrente da Creche Aquarela, em Saudades, Oeste catarinense – Foto: Secom/Divulgação/ND

Até ser abordado, segundo o MP, o suspeito teve tempo de explorar a estrutura local e verificar a disposição das salas.

“Uma das educadoras então sai de encontro ao jovem para verificar o que ele queria e é atacada. Após isso, uma segunda educadora também foi atacada. Uma morreu no local e outra chegou a ser levada ao hospital, mas não resistiu”, detalha o promotor.

Após atacar as duas primeiras vítimas, o autor então segue até uma sala onde havia bebês e três educadoras. Ele tenta usar a força física para abrir a porta, mas as educadoras, já cientes do que estava acontecendo, seguraram a porta.

Não satisfeito, ele então desiste e parte em busca de outra sala para fazer mais vítimas. “Nessa outra sala ele forçou tanto a entrada que chegou a entortar as estruturas da porta. Ele deu chutes em uma vidraça que tinha na porta, a perna dele chegou a entrar no recinto”, conta Dellazari.

Procura por vítimas

Não conseguindo novamente, ele pega um caminho em direção a uma parte anexa da creche na parte de trás, procurando novas vítimas. Chegando nessa estrutura, ele se aproxima de uma janela, quando uma professora, que ouviu os gritos, abre a janela para ver o que estava acontecendo.

“Ele então, com a faca de 68 centímetros desfere os golpes contra ela. Ela, no entanto, consegue desviar, mas ele chegou a cortar a máscara de proteção contra a Covid-19 dela. Por sorte, não a feriu gravemente”, pontua o promotor.

Katana: arma utilizada na tragédia de Saudades – Foto: Willian Ricardo/NDKatana: arma utilizada na tragédia de Saudades – Foto: Willian Ricardo/ND

Na sequência ele sai desta parte anexa e ruma para outra sala e começa a incrementar o que o MP chamou de “tom sádico e debochado” batendo com a faca nos vidros das janelas das salas. Ele então, percebe que uma outra profissional, que estava na primeira parte da creche, estava fora da sala.

Ela vê o jovem e então sai gritando por socorro. É quando o autor do crime retorna à sala do maternal 3 e encontra as quatro crianças sozinhas. Ele se aproveita da situação e fere as quatro crianças. Três morreram, duas ainda no local, e uma sobreviveu.

Vizinhos ouvem gritos

Dando sequência ao massacre, ainda dentro da sala do maternal 3 ele ingressa em uma parte onde há, segundo MP, um banheiro e passa a distribuir ali artefatos explosivos. “O objetivo dele era criar um clima de ainda mais terror”, explica o MP.

Vizinhos e pessoas que estavam próximas a creche escutaram os gritos e entraram no local para ver o que estava acontecendo. Elas então vão até a sala do maternal 3, quando avistam o suspeito próximo a porta do banheiro.

Jovem recebeu alta do hospital no dia 12 de maio – Foto: Reprodução/NDTV ChapecóJovem recebeu alta do hospital no dia 12 de maio – Foto: Reprodução/NDTV Chapecó

Em uma reação de defesa, o jovem retorna ao banheiro. Nisso, um homem consegue resgatar duas crianças que haviam sido feridas – uma sobreviveu e a outra morreu no hospital.

Após os artefatos explosivos começarem a fazer barulho, as pessoas então deixam a sala e vão para a rua. Na sequência, o autor vai até a entrada da creche para tentar fugir, mas se depara com várias pessoas, algumas portando barras de ferro.

Ele então volta correndo para a sala do maternal 3 e as pessoas seguem atrás dele. Encurralado é quando ele começa a desferir golpes contra si. Ele então cai próximo a porta e é desarmado até a chegada da polícia e dos bombeiros.

Denúncia do MP

O MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) denunciou o jovem de 18 anos por cinco homicídios consumados e outros 14 tentados com três qualificadoras: motivo torpe, meio cruel e recurso que impossibilitou a defesa das vítimas.

Segundo o promotor de Justiça responsável pelo caso, Douglas Dellazari, havia 40 pessoas no local no dia da tragédia, sendo 21 funcionários e 19 crianças. Destes, 19 tiveram, de alguma forma, “sua vida colocada em risco”, de acordo com o promotor.

Por esse motivo o MPSC denunciou o autor também por tentativas de homicídio. Dessas 19 pessoas, oito eram adultos e 11, crianças. A denúncia foi enviada ao Poder Judiciário nesta sexta.

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