Mãe de vítima de atropelamento em Ingleses fala sobre o trauma: “12 dias de terror”

Adolescente de 15 anos está em estado gravíssimo após ser atropelada por uma Land Rover no dia 1º de janeiro; mãe da vítima falou com exclusividade ao ND

“É a alegria da nossa casa, uma menina muito alegre”. Com lágrimas nos olhos, assim Rebeca de Albuquerque descreve a filha, de 15 anos, que está há 12 dias em coma na UTI (Unidade de Tratamento Intensivo) do Hospital Celso Ramos, em Florianópolis, após ser atropelada por uma Land Rover no primeiro dia do ano, em Ingleses, no Norte da Ilha.

Rebeca Sayuri se encontra em estado gravíssimo, após passar por seis cirurgias. Nesta terça-feira (12), o MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) ofereceu denúncia ao motorista que cometeu o crime, e está preso preventivamente na Capital.

Rebeca de Albuquerque, mãe de vítima de atropelamento nos InglesesRebeca de Albuquerque falou sobre o acidente nesta quarta-feira (13) – Foto: Lorenzo Dornelles/ND

A mãe da adolescente concedeu entrevista exclusiva à reportagem do Grupo ND na manhã desta quarta-feira (13). Ela conta que a família, que é toda natural de Manaus (AM), se mudou para Florianópolis há cerca de 10 meses, em busca de melhores condições.

No entanto, um acidente inesperado em uma tarde de ano novo na Praia dos Ingleses marcou para sempre a vida dos envolvidos.

Rebeca Sayuri foi a única atingida em cheio pelo veículo. “Ela ainda está sedada, entubada, continua em estado grave”, diz a mãe da adolescente.

Ela já colocou pinos na bacia e nos braços, e teve os dois pulmões perfurados. O principal motivo de preocupação da família no momento é uma bactéria que foi encontrada em um dos pulmões da jovem.

“É uma bactéria resistente, e estão tratando. Os médicos falaram que vão diminuir a sedação para ver qual vai ser a reação dela, porque ela já passou por várias cirurgias, principalmente na bacia, que abriu como se fosse um livro, e junto com o pulmão foi o mais grave.

Ela teve uma parada cardíaca, de dois minutos, que causou uma pequena lesão no cérebro, que eles só vão saber quando ele acordar, se vai acontecer alguma coisa por essa lesão ou não”, revela Rebeca de Albuquerque.

Desde o acidente, ocorrido na tarde do dia 1º de janeiro, a mãe só conseguiu ver a filha uma única vez. A visita foi na última sexta-feira (8), oito dias depois. Os outros familiares da adolescente ainda não tiveram a oportunidade de vê-la.

“Uma vez só eu consegui entrar, já que por conta da pandemia eles não deixam. Como ela estava recuperando bem, eles permitiram em uma oportunidade, mas agora com essa bactéria, não autorizaram. Então são 12 dias de terror”, relata.

Como foi o acidente

“Eu estava com a Rebeca (filha), meu esposo, meu filho mais velho, de 18 anos, passeando com nossa cachorrinha. Nós estávamos na praia, passamos no mercado e decidimos voltar para casa caminhando mesmo”, explica a mãe.

Ela relata que, no caminho, a família já havia estranhado o comportamento do motorista. “Nós ouvimos ele no estacionamento acelerando o carro. E até comentamos: ‘esse tá bêbado’. Então quando ele saiu, fez zigue-zague para outra mão, iria bater em um carro, nisso ele jogou para o outro lado, e pra evitar bater em um poste foi para outro lado de novo, quando nos acertou”.

Uma câmera de segurança flagrou o momento que o motorista de uma Land Rover deixa o estacionamento em alta velocidade e, em seguida, atinge a família que caminhava na calçada. Confira o vídeo:

Na sequência do choque, Rebeca relata momentos de desespero ao ver a situação da filha.

“Foi um terror, porque é uma situação que nunca imaginei na vida passar. Eu caí, quando levantei não vi minha filha, fiquei desesperada.

Quando eu vi ela ali, com as pernas embaixo do carro, só a cabecinha de fora, com um monte de pedras em cima dela, fiquei desesperada, gritava.

Eu sentei ali em cima dos vidros mesmo, coloquei a cabeça dela nas minhas pernas, e fiquei chamando por ela. Eu gritava pra Deus dar minha filha de volta, porque ela estava desmaiada, e eu ficava batendo no rostinho dela até que ela retornou.

Ela se mexia, queria sair, falou que estava com falta de ar. Então eu comecei a gritar, quando chegaram os salva-vidas e colocaram a máscara de oxigênio nela.

Aquele momento foi uma eternidade, ver minha filha ali embaixo, o pessoal falando que o carro estava querendo pegar fogo… então o desespero ali foi muito.

Foi horrível, é uma dor que nenhuma mãe na vida deveria passar, porque é muito grande”, lamenta.

Alegre e cheia de planos

A mãe de Rebeca Sayuri conta que a adolescente é apaixonada por dança e animais. “O que ela sonha na vida é ser veterinária e o amor dela é o balé, que faz desde pequena”.

O sentimento de angústia tomou conta de toda a família nas últimas semanas.

“É difícil, estou tentando me alimentar, para ficar forte e quando ela acordar eu poder estar lá e ficar do lado dela, mas tá sendo difícil, estou dormindo bem pouco, tomando calmante… tem horas que dá crises de ansiedade que eu não consigo controlar. É bem difícil estar longe da sua filha, ela precisando de você e não poder estar lá”, conta Rebeca de Albuquerque.

Rebeca Sayuri, vítima de atropelamento nos InglesesRebeca Sayuri de Albuquerque Minori, de 15 anos, está em coma na UTI do Hospital Celso Ramos – Foto: Arquivo Pessoal

A adolescente era a maior responsável por levar alegria à família, como lembra a mãe.

“Ela está fazendo muita falta, o dia que eu vi ela eu falei ‘minha filha você é tão amada, nossa casa não é a mesma sem você, você que dá alegria para aquela casa’. Todas as pessoas que conhecem ela sabem o quanto ela era animada, alegre”.

Advogado da vítima defende dolo eventual

Tiago Santos de Souza, advogado de defesa das vítimas, afirma que há indícios claros de embriaguez ao volante e alta velocidade.

“A gente espera, pelos indícios, relatos de testemunhas que viram esse rapaz já na noite anterior em alta velocidade pela rua dos Ingleses, pelos indícios de embriaguez, por tentar se evadir do local, a gente enfatiza no dolo eventual.

Como a Rebeca ainda se encontra viva, respirando por aparelhos, a tentativa já tem uma jurisprudência menor no sentido do dolo, mas a gente enfatiza que mais mães não tenham que chorar, porque não é a primeira vez que acontece, aqui nos Ingleses, um acidente no primeiro do ano, envolvendo perdas fatais ou pessoas com membros decepados, porque a Rebeca infelizmente foi toda quebrada por dentro.

Esperamos uma boa recuperação, esperamos agora que a juíza aceite a denúncia, ele pode alterar, esperamos que mude para dolo eventual”.

A denúncia apresentada pelo promotor do MPSC classifica o caso como lesão corporal culposa em quatro vezes. Apesar desse ponto, o advogado elogiou a denúncia do órgão.

“É uma denúncia que foi muito bem elaborada pelo promotor, e agora a juíza pode alterar, se achar necessário, pedir dolo eventual. Mas foram muito bem ratificadas as argumentações do promotor. Ele está preso preventivamente, e foi reforçado na denúncia a manutenção da prisão dele, pela manutenção da ordem pública e aplicação da lei penal, sendo que ele tentou se evadir do local, outras pessoas tentaram se evadir. Então esses foram os argumentos, e são os nossos argumentos também, da manutenção da prisão dele até que tudo seja estabelecido”, explica.

Rebeca de Albuquerque e Tiago de Souza, advogado das vítimasAdvogado Tiago Santos de Souza acredita que motorista assumiu risco ao dirigir embriagado – Foto: Lorenzo Dornelles/ND

O próximo passo, de acordo com Tiago de Souza, é esperar o recebimento da denúncia por parte da juíza Andrea Cristina Rodrigues Struder, que deve confirmar ou não, com as alterações que considerar cabíveis.

O denunciado é Diego Sales, de 34 anos. Ele é natural de Florianópolis, mas documentos apresentados por ele apontam que reside em Brasília (DF). Com ele haviam outras duas pessoas dentro do carro no momento do acidente, mas que se evadiram do local.

Certos fatores do caso causam ‘estranheza’, segundo advogado

“A defesa do motorista alegou que ele era funcionário de uma loja de outlet e recebe R$ 1.500 por mês. E fazendo um trabalho investigativo e minucioso descobrimos uma empresa dele, em Kobrasol (São José), com capital social no valor de R$ 62 mil, e um outro veículo de luxo, um Mini Cooper, que ainda não consegui a negativa no Detran, mas foi me passado por uma fonte segura.  Vamos colocar no processo, não sabemos porque ele está escondendo, omitindo endereço… então vamos averiguar isso juntamente ao MPSC”, relata o advogado Tiago de Souza.

Além disso, o fato de o denunciado não ter procurado a família é apontado com suspeita pelo advogado.

“O que também nos causa perplexidade é que em nenhum momento o autor ou a família deu respaldo à família da Rebeca. Em nenhum momento entrou em contato. Se ele se evadiu do local, se ele não trouxe nenhum argumento, não trouxe respaldo à família da vítima, ele tem que se manter preso até que tudo seja esclarecido. Quem é ele? O que ele faz? Por que está ocultando endereços? A Rebeca está em estado gravíssimo, em uma família humilde, e vai precisar de assistência sim. Deus queira que ela vai se recuperar, mas ela era uma menina atleta, que tinha todo um futuro pela frente, uma menina de 15 anos”, diz.

Tiago de Souza afirma que não considera a ocorrência como um “acidente comum”, e que o tipo de comportamento do motorista tem de ser repudiado pela sociedade.

“Um veículo desse porte, de alto luxo, não interessando aqui o valor de mercado, ele possui controle de tração, mais uma prova do estado etílico do denunciado é que em nenhum momento ele freou. Ele podia ter freado, ter colocado em um poste, se perdeu a direção como um acidente comum. Mas não, ele estava em um estado etílico, com fala arrastada, vermelhidão nos olhos, tudo isso constatado pela Polícia Militar. E aí tem um grande trauma pra família, com uma filha que está agora há doze dias entubada em um hospital, sem poder vê-la por causa da pandemia, então tudo isso causa um abalo emocional, eles já não conseguem nem trabalhar.”

Motorista de Land Rover atropelou família nos InglesesAcidente ocorreu no dia 1º de janeiro, na Rua das Gaivotas, nos Ingleses – Foto: Corpo de Bombeiros/divulgação/ND

A defesa do motorista tenta revogar a prisão preventiva do denunciado, com foco nas alegações de que ele não estava embriagado no momento do acidente, nem teria tentado fugir do local.

Para o advogado Tiago de Souza, não há nenhuma dúvida sobre esses pontos.

“É o papel da defesa, o direito constitucional da defesa é ficar calado em sede policial e não fazer prova contra si mesmo. Mas existe a fé pública dos policiais militares, que tem a constatação do estado etílico, tem inúmeras imagens, testemunhas, temos um cooler encontrado com taças, com gelo, e também uma pulseira que o autor tentou esconder no sofá do hotel quando estava detido pelo policial, que estaria na noite anterior em um paradouro aqui no Norte da Ilha, em Jurerê Internacional. Então ele já estava amanhecido de festa, continuou, estava com as vestes rasgadas, em estado deplorável, então nada justifica o que aconteceu, não foi um acidente comum. Isso tem que ser repudiado pela sociedade, julgado de forma justa, e eu quero que ele seja condenado na pena máxima do artigo 303 do Código de Trânsito Brasileiro”, conclui o advogado.

O que diz a defesa do motorista

A defesa do acusado se posicionou por meio de nota e afirmou que os fatos narrados se demonstram “especulativos e totalmente alheios a realidade”.

“Nos unimos à família e todos os demais atingidos por essa fatalidade, mas não é possível aceitar que qualquer cidadão seja processado e julgado com base em fatos desconexos da verdade”, diz a nota.

A defesa prossegue afirmando que na acusação são apresentados argumentos sem “semelhança alguma com a verdade” e que o dia 1º de janeiro ficará marcado por essa “infeliz tragédia”.

“Na ansiedade de julgar e condenar o acusado, não podemos permitir a utilização de inverdades. Desta forma, a defesa permanecerá atuando para preservar os direitos e garantias constitucionais do acusado, com finalidade de combater ilações e esclarecer, no processo, a realidade dos fatos”, finaliza a nota.

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