No Dia da Mulher, conheça a história de Duda Santos, trans executada a tiros em Itajaí

Filha de uma família simples e cristã de Porto União, a presença de Duda deu lugar a dor da impunidade em um dos Estados com mais queixas de violência contra a população trans

Talvez você não reconheça a história que vem a seguir, mas ela é mais comum do que se imagina em um país alicerçado no preconceito e no machismo como é o Brasil.

Duda Santos, 19 anos, era filha de Jozias e Marli dos Santos, um casal cristão e tradicional de Porto União (SC). Desde pequena, ela sonhava ser independente e livre. Deu seus primeiros passos rumo a sua autonomia quando, aos 16 anos, decidiu assumir sua real identidade.

A transição de um corpo com características masculinas foi assimilada por sua família que, sem hesitar, ressignificou a relação de afeto, empatia e respeito para com a filha.

“Com a Duda, aprendemos muito sobre o real sentido do amor cristão de que tanto falamos. Confesso que foi delicado pois nunca tivemos alguém próximo que tivesse vivido algo semelhante. Mas ao longo desses três anos, foram inúmeras descobertas e aprendizados”, conta Jenifer dos Santos, irmã mais velha de Duda.

Duda Santos, 19 anos, transexual brutalmente assassinada em Itajaí – Foto: Arquivo Pessoal/NDDuda Santos, 19 anos, transexual brutalmente assassinada em Itajaí – Foto: Arquivo Pessoal/ND

Aos 18 anos, Duda decidiu sair de sua cidade natal para viver sua própria história em Itajaí, Litoral Norte de Santa Catarina.

“Ela decidiu se mudar da nossa cidade pois sonhava grande, queria ser independente e colocar o tão sonhado silicone. Decidida, aos 18 anos ela foi viver”, relembra Jenifer.

Infelizmente, a nova vida de Duda no Litoral Norte do Estado durou pouco mais de um ano. No dia 2 de fevereiro, ela foi brutalmente assassinada com cinco tiros à queima roupa, na rua Doutor Reinaldo Schmithausen, no bairro Cordeiros, em Itajaí.

Sem oportunidades

Em razão do preconceito sofrido por ser mulher transexual, Duda se viu sem oportunidades de trabalho na nova cidade a não ser na prostituição. E o motivo de sua morte está diretamente atrelado ao trabalho que exercia. Ela foi assassinada por um cliente que discordou do valor cobrado.

“Ela entrou para a prostituição por falta de oportunidade. E isso nos preocupava muito porque sabíamos as dificuldades dessa vida. Ela conversava comigo todos os dias, tínhamos uma relação muito próxima, toda nossa família tem sintonia e ligação intensas”, ressalta Jenifer.

Duda era natural de Porto União (SC) e tinha uma boa relação com a família – Foto: Arquivo pessoal/NDDuda era natural de Porto União (SC) e tinha uma boa relação com a família – Foto: Arquivo pessoal/ND

O último dia em que Duda viu a família foi no dia 23 de dezembro de 2020. “Minha família hoje chora e sofre por uma morte que não entendemos e não aceitamos. Soubemos na madrugada de terça-feira, dia 02 de fevereiro, por outras pessoas, que minha irmã havia sido morta com cinco tiros. Saímos imediatamente da nossa cidade de madrugada e chegamos em Itajaí às 8h”, relembra.

Descaso das autoridades

Questionado sobre os crimes violentos cometidos contra transexuais e travestis em Itajaí, o delegado Sérgio de Souza da DIC (Divisão de Investigação Criminal de Itajaí) afirmou que as investigações conduzidas pela Polícia Civil não levam em conta o gênero da vítima.

Lirous Ávila, assistente social e ativista LGBTQIA+, conta que há, entre a própria comunidade, uma dificuldade em coletar dados sobre a violência contra transexuais no Estado.

“A segurança pública omite muitas vezes que essa violência e assassinatos são dados a pessoas trans e travestis. O que a gente tem de informação vem redes de conhecidos, pessoas as quais a gente conhece, que conseguimos contabilizar”, explica Lirous.

A ativista explica ainda que existe uma discrepância entre o número de denúncias de violência registradas por pessoas trans e o número de assassinatos ligados a esse grupo.

“No ano passado, Santa Catarina registrou apenas quatro assassinatos de pessoas trans, o que é muito pouco tendo em vista que Santa Catarina é o segundo Estado em número de queixas sobre violência contra essa população”, salienta.

A família de Duda também se sente desassistida pelos investigadores. “Não houve nenhum contato com a polícia e sentimos que estão tratando com descaso, pois uma pessoa ser morta em via pública com cinco tiros e nenhuma providência ser tomada é algo inaceitável”, conta a irmã da jovem, que recebeu uma ligação da Polícia Civil na qual informava que o caso corre em segredo de justiça.  

Duda Santos tinha 19 anos – Foto: Arquivo pessoalDuda Santos tinha 19 anos – Foto: Arquivo pessoal

O país que mais mata travestis e transexuais

De acordo com a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais), o Brasil é o país que mais mata transexuais e travestis. Em 2020, houve crescimento de 90% no número de ocorrências registradas em comparação ao mesmo período de 2019.

“Em 2019 foram 20 casos, enquanto em 2020, 38 notificações. O maior índice registrado nos últimos quatro anos, superando 2017, ano em que o Brasil apresentou o maior índice de assassinatos da história de acordo com o Altas da Violência e Anuário da Segurança Pública”, diz documento emitido pela associação.

“As classes média e alta, onde majoritariamente a população trans se sustenta, não quer que nós estejamos nos mesmos ambientes em que estão as suas famílias. Então, a violência no Brasil envolve dinheiro, poder questões religiosas e tabus sexuais”, destaca a ativista Lirous Ávila.

A assistente social ressalta também que a ausência de ações públicas de saúde, emprego e educação destinadas a essas pessoas também implica diretamente nos números de violência contra trans e travestis no país.

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