O que diz o laudo psicológico da acusada de matar grávida de Canelinha

De acordo com o Instituto Geral de Perícias, Rozalba Maria Grime não tem doenças mentais, e deve ser julgada pelos crimes

A mulher acusada de matar a jovem grávida em Canelinha e roubar o bebê dela passou por um exame de sanidade mental no último dia 22 de novembro. O ND+ teve acesso ao laudo pericial onde a ré confessa relatou com detalhes como teria planejado o crime e os momentos depois, até sua prisão e a transferência de penitenciária.

De acordo com o laudo, emitido pelo IGP (Instituto Geral de Perícias), a ré “não possui qualquer transtorno psiquiátrico, doença mental, perturbação da saúde mental ou desenvolvimento incompleto ou retardado”.

De acordo com o Instituto Geral de Perícias, Rozalba Maria Grime não tem doenças mentais, e deve ser julgada pelos crimes – Foto: Reprodução/NDDe acordo com o Instituto Geral de Perícias, Rozalba Maria Grime não tem doenças mentais, e deve ser julgada pelos crimes – Foto: Reprodução/ND

Ao médico psiquiatra responsável pela perícia, Rozalba Maria Grime, de 26 anos, relatou que engravidou pela primeira vez entre 2012 e 2013, mas afirma que sofreu um aborto espontâneo. Ela continuou tentando engravidar, mas sem sucesso.

Ela teria engravidado pela segunda vez no final de 2019. Rozalba teria, inclusive, feito uma ultrassonografia quando ainda estaria grávida. O segundo aborto espontâneo teria acontecido em fevereiro deste ano.

“Abalada pelo infortúnio com o qual estaria sofrendo mais uma vez, Rozalba optou por não revelar a terceiros o que havia sucedido, nem mesmo ao  companheiro, que retornara para casa no fim de semana subsequente”, descreve o perito Rafael dos Santos Barni, que assina o laudo.

“Temia decepcioná-los caso desvelasse o segredo, e lidar com a própria
frustração não era uma tarefa fácil”, relatou. Chegou a pensar em dar fim à farsa, mas continuou com a história.

Para o marido, Rozalba mostrava imagens da primeira ultrassonografia, assim como uma imagem da internet, que chegou a estampar uma camiseta para o ensaio fotográfico da suposta gestação. Rozalba chegou a anunciar que esperava uma menina e escolheu o nome da suposta filha: Antonella.

Rozalba chegou a anunciar que esperava uma menina junto com o marido, Zulmar, e escolheu o nome da suposta filha: Antonella – Foto: Reprodução Redes Sociais/NDRozalba chegou a anunciar que esperava uma menina junto com o marido, Zulmar, e escolheu o nome da suposta filha: Antonella – Foto: Reprodução Redes Sociais/ND

Ele chegou a ser acusado pelo Ministério Público de participação no crime, mas as investigações concluíram que ele também foi enganado.

Relacionamento com a vítima

Rozalba contou também que conheceu a vítima ainda na escola, onde estudavam juntas. Na época, elas eram apenas colegas, através de amigos em comum.

Foi apenas no final de 2019 que elas se reaproximaram, quando passou a frequentar a loja que a vítima trabalhava. Foi em julho, quando percebeu que a idade gestacional da jovem era próxima à de sua falsa gravidez, e que a conhecida esperava uma menina, Rozalba passou a cogitar fazer algo.

O perito chegou a questionar se a ré confessa teria feito algo caso o bebê da vítima fosse um menino. “Sem hesitar, Rozalba afirma que procuraria outro alvo”, relata.

Duas semanas antes do crime, a acusada teve a ideia do falso chá de bebê como desculpa para atrair a vítima. Ela chegou a convidar uma amiga em comum, mas depois cancelou a celebração com a conhecida.

Rozalba, que chegou a confessar o crime em depoimento, seguiu arquitetando o crime. Procurou vídeos sobre como era feita a abertura do útero.

Rozalba chegou a confessar o crime em depoimento – Foto: Anderson Coleho/NDRozalba chegou a confessar o crime em depoimento – Foto: Anderson Coleho/ND

“Em nenhum outro momento havia cogitado matar uma pessoa, tampouco havia visto cenas de bebês sendo retirados de úteros. Se o crime fosse bem sucedido, acreditava que não seria responsabilizada pelo desaparecimento da vítima, e poderia criar a criança como sua filha legítima”, descreve o perito.

O crime

Rozalba descreveu com detalhes o crime. Levou a vítima de carro até a cerâmica abandonada, onde usou uma máscara de dormir para cobrir os olhos da vítima e a guiar até o local.

Foi quando Rozalba deferiu os golpes na cabeça da vítima, com um tijolo. Continuou com os golpes até a jovem grávida desmaiar. A ré confessa teria usado um estilete para cortar a barriga e o útero da vítima, ferindo a bebê no processo.

A acusada levou o bebê até o carro e fugiu. Rozalba “sentia-se nervosa naquele instante, ‘com adrenalina’ por ter matado alguém”.

Ela encontrou o marido no caminho, e levou a bebê para o hospital. Lá, alegou que a bolsa havia rompido e o parto acontecido dentro do carro. A mulher chegou a passar por exames, onde os médicos não teriam desconfiado.

Foram os ferimentos na criança que atraíram a atenção dos médicos, que chamaram a polícia. Como não foi questionada, naquele momento, sobre o desaparecimento da vítima, Rozalba achou que sairia ilesa.

Rozalba foi presa na manhã seguinte ao crime, na casa dos pais – Foto: Arquivo Pessoal/NDRozalba foi presa na manhã seguinte ao crime, na casa dos pais – Foto: Arquivo Pessoal/ND

A prisão

Rozalba foi presa na manhã seguinte, na casa dos pais. O bebê, devido aos ferimentos, foi encaminhada ao Hospital Infantil Joana de Gusmão, em Florianópolis, acompanhada por Zulmar.

Ao perito, ela relatou que estava arrependida por tudo que fez. Ela chama o ato de “loucura”. Rozalba chegou a contar que se arrependeu imediatamente, ao ver a jovem caída no chão, “mas já era tarde”.

O que concluiu a perícia

De acordo com o médico psiquiatra que assina o laudo, mesmo que Rozalba tivesse sofrido mais de um aborto, “o desenvolvimento de quadro psicótico, a ponto de suscitar os atos de violência praticados, mostra-se algo improvável”.

O perito ainda descreve que Rozalba não possui os sintomas de transtornos psiquiátricos, como estresse pós-traumático, hipótese levantada pela defesa.

“Rozalba não apresentou sintomatologia compatível com esse diagnóstico [de estresse pós-traumático]. Se os
abortamentos seriam a causa do estresse pós-traumático, por que buscar obstinadamente contato com mulheres grávidas, relembrando o trauma original, ou seja, a incapacidade de ser mãe?”, questiona.

Em conclusão, o perito alega que a ré confessa “não possui qualquer transtorno psiquiátrico, doença mental, perturbação da saúde mental ou desenvolvimento incompleto ou retardado. Tampouco apresentou alguma dessas condições antes, à época ou após as práticas delituosas em apuração”.

O que diz a defesa

De acordo com o advogado Rodrigo Goulart, responsável pela defesa da ré, um novo laudo deve ser solicitado à Justiça, desta vez em um consultório particular. Caso o pedido seja deferido, a defesa acredita que o novo laudo deva sair em até 30 dias.

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