Um ano após feminicídio de médica em SC, réu confesso continua foragido

Acusado do crime era companheiro da vítima e foi preso no dia do crime, mas foi solto três meses depois

O mês de março marca o Dia Internacional da Mulher, mas também lembra um crime brutal contra a médica pediatra Lúcia Regina Gomes Mattos Schultz.

Lucia foi morta no dia 20 de março de 2020. O principal suspeito do crime é seu companheiro, Ireno Nelson Pretzel, preso no mesmo dia e solto em 3 de junho de 2020.

A prisão foi em flagrante, momentos depois do crime. Enquanto a polícia estava no apartamento, atendendo a ocorrência de feminicídio, Ireno, que havia fugido, resolveu voltar para buscar a carteira.

Lúcia era médica pediatra e foi encontrada morta no apartamento de veraneio da família, onde passava os primeiros dias de quarentena, em 2020 – Foto: Arquivo pessoalLúcia era médica pediatra e foi encontrada morta no apartamento de veraneio da família, onde passava os primeiros dias de quarentena, em 2020 – Foto: Arquivo pessoal

Ireno continua foragido da Justiça. Alex Blaschke Romito Almeida, advogado de defesa do acusado, afirma que há duas decisões conflitantes e um pedido de habeas corpus em julgamento, portanto, orientou o réu confesso a não se apresentar e “continuar no local”.

As duas decisões conflitantes são do TJSC (Tribunal de Justiça de Santa Catarina), que determinou prisão preventiva de Ireno, e outra decisão do juiz do caso, que pede pela soltura o réu.

“Claro que a do TJ impera, mas vamos aguardar o julgamento do HC [habeas corpus]”, afirma o advogado. Ireno foi denunciado por feminicídio, mas a defesa entende que o crime que ele confessou se trata de homicídio simples.

Para a defesa, Ireno não apresenta risco para a sociedade, além de ser idoso e não ter antecedentes criminais e, por isso, protocolou o habeas corpus, que aguarda julgamento.

Ireno Nelson Pretzel continua foragido da Justiça, um ano após ter confessado o crime – Foto: Arquivo pessoalIreno Nelson Pretzel continua foragido da Justiça, um ano após ter confessado o crime – Foto: Arquivo pessoal

Logo depois que o réu confesso foi solto, em junho, o MPSC (Ministério Público de Santa Catarina) entrou com recurso pedindo novamente a prisão preventiva de Ireno.

Em nota, o MPSC informou que o TJSC restabeleceu a prisão preventiva e o mandado de prisão foi expedido em 24 de setembro de 2020, “o qual não foi cumprido até a presente data porque o acusado não foi encontrado no endereço que informou no processo, o que confirma sua intenção de fugir da sua responsabilidade“. Segundo o MPSC, o mandado de prisão está no banco de dados do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) aguardando cumprimento.

O crime

Lúcia tinha 60 anos e foi morta pelo companheiro dentro da casa de veraneio da família, na região central de Itapema, logo no começo do lockdown imposto para evitar o contágio da Covid-19, ainda em março de 2020.

A PM (Polícia Militar) foi chamada por vizinhos por volta das 17h30 daquela sexta-feira, e precisou arrombar a porta do apartamento do casal para localizar a vítima. Ireno já havia deixado o imóvel, mas foi preso ao retornar para o apartamento, para pegar a carteira.

Ele contou à PM que agrediu a esposa durante uma discussão em que ela teria dado um tapa no rosto dele.

O começo do relacionamento

Lúcia e Ireno se conheceram em 2013, em um site de relacionamentos. Ele morava em Gaspar, no Vale do Itajaí, e ela e a família em Florianópolis. “Minha mãe temia muito envelhecer sozinha”, conta a filha, Juliana dos Santos.

Logo no começo do relacionamento, o pai de Lúcia adoeceu. Foi aí que Ireno entrou na família, se fazendo presente. A filha conta que a mãe era uma mulher muito ocupada, e o namorado, já aposentado, passou a ajudá-la com demandas pessoais.

“Ele veio com a premissa de redenção, que teve um passado ruim e estava disposto a mudar”, conta Juliana. O passado ruim foi uma condenação por maus tratos à filha caçula, em 2013. No entanto, o crime prescreveu, por isso, atualmente, Ireno é considerado réu primário.

“Desde o começo percebemos que ele era um homem abusivo”, conta Juliana. Segundo ela, Ireno tinha ciúmes da família e de colegas de trabalho de Lúcia.

 “Amada, respeitada e admirada”

Lúcia era médica pediatra, e, segundo a filha, sempre foi uma pessoa querida por todos. “E isso não é de agora, que as pessoas vem prestar suas homenagens, mas durante toda minha vida vi que ela era uma pessoa muito amada, respeitada e admirada”, relembra.

Juliana, a mãe Lúcia e o filho Luiz – Foto: Arquivo pessoalJuliana, a mãe Lúcia e o filho Luiz – Foto: Arquivo pessoal

Emocionada, Juliana lembra o quanto sua mãe era uma pessoa “iluminada”. “Ela tinha uma forma de encarar a vida, muito guerreira, muito forte”.

Saudade

“O Nelson assassinou a mãe”. Quem trouxe a notícia foi o irmão de Juliana. O primeiro pensamento da filha foi que, o que ela mais temia, havia acontecido, e era irreversível.

Juliana pensou na sobrinha, a neta mais velha de Lúcia. “Elas se amavam tanto”, conta, a voz embargada. A avó passava um dia inteiro com a menina, pelo menos uma vez por semana. “Foi muito sofrido pra ela”. Para a neta, a avó, tão amada e tão querida, virou uma estrela no céu.

Campanha

O SIMESC (Sindicato dos Médicos de Santa Catarina) lançou uma campanha de conscientização entre médicos catarinenses. De acordo com a diretora do sindicato, Eliane Soncini, o crime contra Lúcia revela um alerta.

“Geralmente os médicos atendem mulheres vítimas da violência. Mas médicas vítimas de feminicídio foi algo que nos chocou porque nos prova que ainda escondemos essas barbaridades. Passado um ano, esse crime ainda não tem solução e por isso, resolvemos nos pronunciar”, afirma.

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