Editora de Floripa lança “Mensagem”, única obra publicada em vida por Fernando Pessoa

A Caminho de Dentro teve um trabalho cuidadoso, quase artesanal com a reedição

Em “Mensagem”, qualquer página que se abra desvela uma pérola, um achado, um mimo – como, aliás, é regra na obra de Fernando Pessoa. Seja cantando grandes figuras da história de Portugal, seja deambulando sobre o mar, elemento que os portugueses dominaram por longos séculos, seja ainda chamando para o esforço de reavivar os dias de glória da nação, o livro é um bálsamo, um lenitivo para qualquer desconforto que o mundo possa nos causar. Uma espiada aleatória, portanto, já garante o prazer que esse ourives da forma que foi Pessoa sabe proporcionar aos sentidos por meio da leitura.

Fernando Pessoa - Divulgação/ND
Fernando Pessoa – Divulgação/ND

Agora, a editora Caminho de Dentro, de Florianópolis, reedita o livro, num trabalho cuidadoso, quase artesanal. “É um produto para guardar, para colecionadores”, afirma o também poeta Alcides Buss, sócio da editora junto com a mulher Denise e o filho Hermano. A maioria das edições de Pessoa traz ‘Mensagem” com outras obras, mesclando os heterônimos que criou. Único volume lançado em vida pelo vate lisboeta (em dezembro de 1934), ela traz alguns de seus poemas mais significativos, como “Mar português” e “O infante”. Cada vez mais universal, ele é comparado a Luís de Camões, e há quem o coloque até acima do criador de “Os lusíadas”.

O livro é dividido em três partes, que representam diferentes épocas e distintas motivações da alma portuguesa. Na primeira, intitulada Brasão, estão figuras relacionadas à fundação da nação, heróis que a consolidaram lutando e perecendo em batalhas e viagens rumo ao desconhecido e temerário. Há, ali, muito de mítico, de épico, de simbólico. A segunda parte é Mar Português, título também do poema mais conhecido de Pessoa, que evoca o período áureo das descobertas e do que as navegações traziam de sobressaltos a quem partia e a quem ficava. Por fim, O Encoberto rescende à esperança de um tempo de glórias semelhantes às que ficaram para trás, legando um país onde “tudo é incerto e derradeiro”.

Na introdução, o professor Stélio Furlan, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), fala dos heterônimos – Alberto Caeiro, Ricardo Reis, Álvaro de Campos, Bernardo Soares, entre outros de menor recorrência –, mas se atém a “Mensagem”, que é objeto da edição. Diz ele: “‘Mensagem’ persiste como rumor, dá margem à proliferação de leituras. Creio que se ganha maior rendimento teórico pensando-o como um texto da mais alta e complexa tessitura literária, um texto hipersimbolista movido pelo intuito de realizar uma intervenção poética na Cultura, um grito pacificador dos que não se resignam, enfim, enquanto celebração ritual e ficcional da cultura lusitana”.

Canto de amor à língua portuguesa, e não menos ao passado do país, “Mensagem” está entre os dez melhores textos poéticos do século 20, de acordo com especialistas em literatura. Para Alcides Buss, um fã assumido de Fernando Pessoa, patrocinar essa reedição tem um significado especial e serve para dar à Caminho de Dentro a oportunidade de inserir-se no mercado restrito das edições relevantes em língua portuguesa.

“Editar Pessoa facilita nossa inserção num meio dominado pelas grandes redes, algumas delas também proprietárias de livrarias”, diz Buss. “Conseguir isso com um autor regional é bem mais difícil. Para romper essa limitação, já lançamos os “Diários” de Baudelaire, poemas de Gregório de Matos e a biografia de Victor Meirelles, de Teresinha Franz”.

Melhor para os leitores, que têm uma oportunidade a mais de conhecer parte da obra de um poeta que alcança projeção cada vez maior, em países de todos os continentes e idiomas.

Mar Português

Ó mar salgado, quanto do teu sal

São lágrimas de Portugal!

Por te cruzarmos, quantas mães choraram,

Quantos filhos em vão rezaram!

Quantas noivas ficaram por casar

Para que fosses nosso, ó mar!

 

Valeu a pena? Tudo vale a pena

Se a alma não é pequena.

Quem quer passar além do Bojador

Tem que passar além da dor.

Deus ao mar o perigo e o abismo deu,

Mas nele é que espelhou o céu. 

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