Fábio Machado

Rotina, contratações e análise dos jogos dos clubes catarinenses. A história do futebol no Estado é resgatada com postagens que relembram os títulos e jogadores que marcaram Santa Catarina.


Histórias do futebol: A lambreta destemida

Uma história verdadeira ocorrida com o pai deste colunista e um grande goleiro do futebol catarinense. Boa leitura!

Com quase duas décadas de serviços prestados para as firmas do Dr. Oscar Cardoso, Mauri, um manezinho do Bairro Saco Grande (atualmente João Paulo) seguiu o caminho natural de jovens trabalhadores que saíam dos seus bairros para ajudar no orçamento familiar: começou atuando em várias funções, inclusive a de cobrador das Lojas A Capital com uma lambreta. Para a nova geração entender: Lambreta, Vespa ou Motoneta é um veículo motorizado de duas rodas no qual o condutor condiciona suas pernas para a frente de seu tronco, sobre uma plataforma, em vez de para os lados, como ocorre nas motocicletas. Com esse veículo, realizando cobranças e entregas em vários lados da cidade, Mauri, um filho de pescador e de uma rendeira oriundos do bairro Cacupé, aproveitava para conhecer as ruas, os bairros e as pessoas da então pacata Florianópolis. Alguns serviços eram mais longes. Quando a tarefa era na distante São José (era uma viagem!), Mauri aproveitava para espiar de longe assustado, as “moças” que trabalhavam na Vila Palmira, a rua do Pau do meio, onde é hoje a rua Célio Veiga com vários galpões, fábricas e muito comércio. Esticava o trajeto para ver de perto os pequenos aviões no Aeroclube que ficava no terreno onde hoje estão erguidos os prédios do bairro Kobrasol. No terreno onde funciona hoje o primeiro Shopping do estado, a preocupação era o barro grosso das ruas e os cavalos que ficavam soltos pela aquela área. Dá para imaginar? Aquilo era um deserto rural naquele tempo. Na ilha, Mauri não perdia a oportunidade de contemplar a vasta natureza, as praias, muitas das quais ele acompanhou o seu pai nas pescarias e os morros verdejantes. Algumas missões era um verdadeiro rali: para chegar em alguns bairros da capital para realizar as suas cobranças ou fazer alguma entrega solicitada pelo Dr. Oscar Cardoso e seus familiares, Mauri apelava para as rezas ensinadas pela vó, uma das tantas benzedeiras da ilha. Mas no fim, como bom funcionário que era, tudo terminava bem: para ele e para a sua destemida lambreta. E num desses retornos para a loja, lá no distante ano de 1972, onde hoje fica a SC 401, próximo ao bairro do Monte Verde, um enorme cidadão, “um armário” pede uma carona até o centro da cidade. Receoso pelo tamanho e peso do distinto, um penalizado Mauri aceitou dar carona. Com “a carga” no banco de trás, a pobre Lambreta quase explodiu as bielas ao subir o morro do Jardim da Paz. Expelindo fumaça para todos os lados, Mauri consegue deixar o seu “carona” no endereço combinado. Aliviados (ele e a pobre lambreta!), uma dúvida passou a atormentar a sua cabeça: “Quem era essa pessoa? Tenho certeza de ter visto ele em algum lugar”. Ao chegar no escritório, Mauri foi liberado para fazer o seu lanche no bar da esquina. Pegou e seu vale e assim que sentou, viu no balcão a foto do rechonchudo carona misterioso em destaque na capa do jornal O Estado: “Rubão, supercampeão pelo Metropol é o novo goleiro do Avaí”.

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