Skate vive novo boom na pandemia impulsionado por novos e velhos praticantes

De esporte marginalizado à esporte olímpico, o carrinho sobre quatro rodas tem atraído cada vez mais a atenção de jovens e adultos, ansiosos por voltarem a curtir a vida

Lema de uma geração de skatistas ligados a movimentos underground, “Skate or Die! (Skate ou morte!) nunca foi tão apropriado para o momento de medo e incerteza gerado pelo novo coronavírus. De esporte marginalizado à novidade nos Jogos Olímpicos de Tóquio, o carrinho sobre quatro rodas tem atraído cada vez mais a atenção de jovens e adultos, ansiosos por voltarem a curtir a vida em meio às dificuldades impostas pela pandemia.

Romeu Cajueiro, 12 anos, é um dos novos praticantes do skate. Foto: Anderson Coelho/NDRomeu Cajueiro, 12 anos, é um dos novos praticantes do skate. Foto: Anderson Coelho/ND

De acordo com uma pesquisa encomendada pela CBSK (Confederação Brasileira de Skate) junto a Datafolha em 2019, o skate conta com um universo de 8,7 milhões de praticantes no Brasil.

“A gente encara com naturalidade esse aumento da procura pelo skate, já que durante a pandemia as atividades individuais e ao ar livre ganharam uma importância pela necessidade de isolamento. Principalmente, porque o skate, além do lado competitivo, sempre teve um lifestyle muito forte”, afirma o recém empossado presidente da CBSK, Eduardo Musa, o Duda.

O skatista e empresário Eduardo Dias, que também integra a nova diretoria da CBSK como vice-presidente, destaca que todos os esportes individuais ao ar livre cresceram durante a pandemia. “O skate também aproveitou esse boom”, emendou.  O reflexo desse interesse foi sentido por Dias na fábrica da Drop Dead, uma das principais marcas de equipamentos do Brasil, sediada na vizinha São José (SC).

Após paralisar a linha de produção por dois meses, por conta das restrições, e ficar trabalhando apenas com um estoque regulador, a fábrica voltou a produzir em julho, em níveis nunca antes alcançados. “Tivemos recorde de produção dos últimos 10 anos”, dimensiona Dias.

Guto Penteado (e) ministra aulas na pousada Hi Adventure, no Rio Tavares. Foto: Anderson Coelho/NDGuto Penteado (e) ministra aulas na pousada Hi Adventure, no Rio Tavares. Foto: Anderson Coelho/ND

Apesar do crescimento do interesse do esporte, Dias alerta para a necessidade de absorção dessa demanda com a construção de pistas e instrução de qualidade. “As prefeituras gastam R$ 500 mil com uma praça, mas não querem gastar R$ 1,5 mil com o projeto de uma pista que atenda todas as especificações do esporte”, ressalta Dias.

Para isso, a nova diretoria da entidade criou um Comitê de Construtores para orientar o Poder Público com as melhores práticas de construção. “As prefeituras já entendem a necessidade de criar ambientes para a prática de skate. O problema é a falta de técnica específica para a construção acaba ocasionando ao contrário, a pista fica abandonada e cria-se uma zona cinzenta que prejudica a imagem do esporte“, explica Musa.  “Se não é desperdício de dinheiro público”, completa Dias.

Se ainda falta qualidade para as pistas públicas, as pistas particulares garantem um ambiente mais acolhedor para os novos praticantes. Ex-surfista profissional e professor de surfe, Marco Polo Soares faz questão de parar a rotina de aulas junto ao mar para levar os filhos Marco Polo e Davi até a pista da Pousada Hi Adventure, no Rio Tavares. “Eles gostam muito. O Polinho faz aula há três anos e evoluiu muito com o professor. Isso não tem preço e sei que o skate vai ajudar eles a serem pessoas melhores no futuro, sem problemas como depressão e obesidade“, completa.

Marco Polo e o filho Polinho são presenças constantes na pista da Hi Adventure. Foto: Anderson Coelho/NDMarco Polo e o filho Polinho são presenças constantes na pista da Hi Adventure. Foto: Anderson Coelho/ND

Mais do que aumento das vendas no Brasil, dono da segunda maior indústria do esporte no mundo, o boom do interesse no esporte se deu nas escolas de skate como novos e antigos praticantes. Pais e filhos buscaram refúgio nas pistas para gastar energia e se livrar do estresse provocado pelo isolamento.

Diante do recesso de final de ano na pista particular da Pousada Hi Adventure, o telefone celular do instrutor Guto Penteado não para de tocar, com mães e pais de futuros alunos atrás de sua mentoria divertida e atenciosa.

O curitibano que reside em Florianópolis há mais de uma década também ministra aulas em pistas públicas. “Ensino basicamente o moleque a ter velocidade, habilidade e autoconfiança”, explica o instrutor”, ressalta Guto.

Instrutor Guto Penteado promete “desnutelar” os novos praticantes do esporte.  Foto: Anderson Coelho/NDInstrutor Guto Penteado promete “desnutelar” os novos praticantes do esporte.  Foto: Anderson Coelho/ND

Para ele, a pandemia gerou o mesmo nível de interesse que os eventos transmitidos em canal aberto com a presença do manezinho Pedro Barros traziam. “Depois de um evento desses, chovia aluno. Agora foi a mesma coisa, porque os pais não sabiam mais o que fazer com a criançada em casa”, conta.

Ex-atleta profissional, árbitro e integrante da Federação de Skate de Santa Catarina, Affonso Muggiati também ministra aulas na Pousada Hi Adventure, um dos berços do hexacampeão mundial Pedro Barros. Há 10 anos como professor, Muggiati percebeu logo o aumento da procura por vagas nas turmas da escola.

“A procura maior foi das mulheres, mas também tenho alunos com mais de 50 anos”, conta Muggiati, que foi instrutor de Isadora Pacheco, Yndiara Asp, duas integrantes da seleção brasileira feminina que lutam por vaga na Olimpíada.

No início da pandemia, as aulas também foram paralisadas, mas o interesse dos alunos não diminuiu a ponto de Muggiati promover uma competição on-line, de melhor manobra (The Best Trick), a partir de vídeos enviados por alunos. Todos os detalhes da competição estão postados na conta do @professoraffonso no Instagram.

Professor Affonso Muggiati com os alunos após evento on line. Foto: Reprodução/Instagram Affonso Muggiatti – Professor Affonso Muggiati com os alunos após evento on line. Foto: Reprodução/Instagram Affonso Muggiatti – 

Tetracampeão mundial profissional de downhill slide, o paulista Sérgio Yuppie, 46 anos, tem acompanhado o crescimento do interesse no skate com bons olhos. “Estou bem otimista porque o skate deve crescer ainda mais, ainda mais com a Olimpíada, um evento que deve fomentar o mercado”, analisa.

O veterano skatista competiu profissionalmente até 2011, mas agora se dedica na produção de equipamentos (shapes) e na loja especializada no bairro Rio Tavares, que levam o mesmo nome, Curva de Hill. Após fechar a loja por três semanas diante das restrições impostas pela pandemia, Yuppie viu a demanda aumentar a medida que a flexibilização das atividades permitiu que os praticantes voltassem às ruas, sejam para andar em pistas públicas, particulares ou ladeiras.

“Deu um salto muito grande. Eu poderia fabricar muito mais shapes, mas como o meu trabalho é mais artesanal prefiro também não me matar de trabalho para fazer algo de qualidade”, conta. Na loja, Yuppie se acostumou a receber pais interessados em montar um skate para os filhos. Segundo o skatista, foi comum se deparar com situações constrangedoras, como um pai que disse que o skate estava comprado e o filho teria que se tornar um campeão mundial.

“Falei para ele deixar o menino à vontade. Com essa pressão, o pai não vai estar estimulando a criança. Acho legal o apoio dos pais, mas não pode ser aquela cobrança chata”, afirma. Por outro lado, a situação revela a evolução do esporte, que caminhou para a profissionalização com premiações milionárias oferecidas ao vencedores de grandes eventos internacionais.

Sergio Yuppie é uma lenda do skate mundial. Foto: Anderson Coelho/NDSergio Yuppie é uma lenda do skate mundial. Foto: Anderson Coelho/ND

Em termos de mercado, Yuppie percebeu uma oportunidade para as marcas nacionais. “Com a alta do dólar e as dificuldades de importação de equipamentos da China e do Estados Unidos, ganhamos espaço e nada mais justo, pois o Brasil é uma fábrica de skatistas”, conta, ao lembrar o histórico verde amarelo com campeões mundiais em diversas modalidades (downhill slide, speed, bowl, park, street e vertical).

Yuppie ainda é daquele geração que enfrentou o preconceito de um esporte visto como “coisa de vagabundo” ou de maconheiro. Tanto que na década de 80, quando ainda morava na Capital paulista, por vezes precisou driblar a Polícia que tentava coibir a prática do esporte após proibição imposta pelo então prefeito, Jânio Quadros.

“O skate mudou muito. Antes era coisa de marginal. Já passou essa fase, pois existe uma indústria, um mercado que movimenta milhões de empregos e dinheiro”, ressalta.

Yuppie e a Kombi “Mimosa”, companheira dos rolés pelas ladeiras do mundo. Foto: Anderson Coelho/ND. Yuppie e a Kombi “Mimosa”, companheira dos rolés pelas ladeiras do mundo. Foto: Anderson Coelho/ND. 

Até por ter vivido todas as fases da evolução do esporte, Yuppie ainda cultua o lado underground do esporte, mas entende que massificação pode trazer benefícios para ele e para todos os praticantes. “Quanto mais loja de skate melhor para o esporte.

Por mais que seja um concorrente, sei que o esporte vai crescer e se manter”, diz ele, que atualmente estrela o programa “Os Yuppies”, ao lado dos filhos Fernando, 27, Júnior, 25 e Christian, 14, pelas ladeiras do Brasil a bordo de uma VW Kombi, ano 77, batizado de Mimosa.

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