Velejadores de SC relembram ‘façanha’ à sombra do vulcão na conquista do mundial há 40 anos

Trio foi responsável por derrubar favoritos e conquistar o título de campeões mundial da classe lightning na cidade de Pucón, no Chile

Este início de 2022 marca o 40º aniversário de uma conquista para o esporte catarinense que teve lances dignos das grandes aventuras. Os velejadores Walmor Gomes Soares Filho (timoneiro), César Murilo Barbi e Valério Gomes Soares (proeiros) derrubaram todos os favoritos e conquistaram, com o barco Goiabada, o título de campeões mundiais da classe lightning na cidade de Pucón, no Chile.

Da esquerda para a direita Walmor, César a Valério – Foto: Acervo pessoal/NDDa esquerda para a direita Walmor, César a Valério – Foto: Acervo pessoal/ND

Eles eram franco-atiradores e superaram adversários mais bem ranqueados, mas isso foi pouco comparado à maratona de ir e voltar do litoral do Pacífico com o barco rebocado por um Passat TS usado, sem patrocínios e sujeitos a todo tipo de sobressaltos.

Os três continuam firmes e saudáveis, mas não cansam de relembrar da façanha e, é claro, reclamar que seu feito nunca foi devidamente valorizado em Santa Catarina.

O Estado tem tradição na vela e no remo, que já foram os esportes mais populares que o futebol em Florianópolis, com vitórias expressivas do Iate Clube Veleiros da Ilha e dos clubes de remadores cheios de taças e troféus nas prateleiras.

Um título mundial, no entanto, é coisa para poucos, e da forma como se deu, andando cerca de 8 mil quilômetros por própria conta e risco, a proeza ganha ainda mais relevância.

O trio havia ficado em quarto lugar, em 1981, no Campeonato Brasileiro de Lightning, na raia da baía Sul, em Florianópolis. Eram os segundos reservas para o Mundial, mas como os três primeiros colocados desistiram de participar eles encararam o desafio, juntaram dinheiro, treinaram na Lagoa da Conceição e até na represa de Guarapiranga, em São Paulo, e botaram o carro na estrada.

O comboio teve um problema mecânico em Araranguá, seus condutores foram retidos na Argentina (onde o barco foi confundido com um tanque de guerra!), subiram a cordilheira dos Andes ainda sem pavimentação e afrontaram o estado de sítio que vigorava no Chile para chegar a tempo ao local das competições.

Lá, tiveram uma pontuação excepcional, isso depois de passar por perrengues como o capotamento do barco, ainda sem as velas ideais. Os 27 pontos perdidos resultaram do 11º lugar na primeira regata, 2º lugar na segunda, 1º na terceira, 5º na quarta e 8º na quinta regata.

Chegaram à penúltima etapa empatados com os norte-americanos liderados por Glen Darden, favorito ao título, mas um temporal danificou quase todos os barcos e interrompeu as competições.

“A soma geral das melhores posições desempatou a nosso favor”, diz César Barbi. “Darden e sua equipe pressionaram, porque ainda tinham a chance de vencer, mas os organizadores encerraram o campeonato por ali”.

Treinos fortes fizeram a diferença

Quando a vaga no 11º Campeonato Mundial de Lightning caiu no colo de Walmor, César e Valério, eles iniciaram um treinamento de seis meses, foram atrás de apoios e encomendaram velas novas para o barco, que não chegaram a tempo no litoral chileno.

Registro realizado próximo da Cordilheira – Foto: Acervo pessoal/NDRegistro realizado próximo da Cordilheira – Foto: Acervo pessoal/ND

“Não era comum fazer o treinamento físico e técnico que fizemos”, diz César. “A preparação é essencial, porque as competições requerem um grande esforço. Isso fez a diferença no resultado final”.

Um grande incentivador do trio foi Walmor Gomes Soares, pai de Walmor e Valério, heptacampeão brasileiro e um dos maiores iatistas do país, que deu suporte logístico e emprestou o Passat 1975 para viabilizar a viagem.

Sem patrocínios oficiais, eles tiveram sorte em outros aspectos do projeto. Um fabricante americano levou ao Chile um jogo novo de velas destinado ao vencedor do campeonato de lightning de 1981, que não compareceu – e eles herdaram o equipamento.

Isso se juntou a algumas estratégias que acabaram determinando o êxito nas competições no lago gelado de Pucón, formado pelas águas do degelo das montanhas nevadas da região.

Eles adaptaram uma base flexível para o pé do mastro, que dava maior agilidade no manuseio das velas – “inovação” que foi fotografada e copiada pelos gringos e adotada nas competições que se seguiram.

Os treinos feitos em lagoas e represas brasileiras foram essenciais, porque a maioria dos competidores estava acostumada a regatas em mar aberto, de águas menos pesadas.

Eles adotaram ainda a tática de colocar mais peso na parte de frente do barco, deixando menos casco dentro da água. E foi assim que, competindo com outras 52 embarcações do mundo inteiro, os catarinenses deixaram para trás nada menos que quatro campeões mundiais.

Depois dos obstáculos, desfile no carro dos bombeiros

Na rota de ida, Walmor Gomes Soares Filho, César Murilo Barbi e Valério Gomes Soares tomaram o caminho do Sul, passaram por Uruguaiana (RS), Santa Fé e Mendoza, na Argentina, e chegaram à cordilheira dos Andes, ainda servida por uma estrada de chão batido.

O Goiabada em ação – Foto: Acervo pessoal/NDO Goiabada em ação – Foto: Acervo pessoal/ND

O motor do Passat aquecia demais, pelo peso que puxava, e eles chegaram a dormir dentro do carro, no altiplano. Depois de três dias e meio viajando, e após uma rápida parada em Santiago, iniciaram mais uma maratona de 800 quilômetros até Pucón, uma região de lagos vizinha ao vulcão Villarrica, ativo e coberto de neve. “Nossa viagem foi uma odisseia”, afirma Walmor.

Nessa etapa, andaram durante horas, praticamente sozinhos, sem desconfiar do estado de sítio e dos riscos de dirigir à noite a toda velocidade.

“Não havia mais ninguém na pista, para nossa surpresa”, relata Valério. “Passamos por uma barreira militar, mas mostramos documentos com as armas do Brasil e fomos liberados. Ao lado da estrada, víamos o gelo eterno dos Andes. Nos hospedados num pequeno hotel de madeira cujos donos nos ajudaram muito e festejaram junto a nossa conquista”.

Na água, as disputas foram acirradas, com todo tipo de contratempos, como um problema no leme que virou o barco por causa de um vendaval de 135 km por hora.

As novas velas e o preparo físico garantiram a vitória, mas eles precisaram suportar uma onda de insetos que atacavam até mesmo durante as regatas. No retorno, voltando pela Patagônia, ficaram retidos numa aduana e contaram com a ajuda de um oficial argentino que conhecia Florianópolis e facilitou sua liberação.

A caminho de Buenos Aires, uma roda do carro se soltou e passou na frente deles – um susto e tanto no meio do nada! A melhor parte foi a chegada, com uma festa organizada pelo pai de Walmor e Valério Gomes Soares que incluiu uma recepção no trevo de Palhoça, foguetório e desfile em caminhão dos bombeiros pelo centro de Florianópolis.

“Fomos os primeiros no Brasil a subir num carro de bombeiros para comemorar uma conquista”, afirma Walmor Soares.

Eles trouxeram a taça que só contempla os campeões e, assim como a Copa do Mundo de futebol, fica na casa do vencedor até o campeonato seguinte.

O nome dos três velejadores catarinenses está inscrito na taça e aparece em todas as edições da revista International Lightning Class Association, que sai anualmente.

Contudo, eles tiveram que devolver o troféu sem defender o título, em 1984, na Itália, porque não conseguiram dinheiro para a viagem. O feito do trio teve repercussão em jornais chilenos e brasileiros e foi citado até por Cid Moreira no Jornal Nacional, da TV Globo.

O reconhecimento que nunca veio

Ao mesmo tempo em que rememoram detalhes da façanha no Chile e passagens impagáveis da viagem, Walmor, César a Valério são unânimes em reclamar da falta de reconhecimento de seu feito e da indiferença das autoridades e instituições públicas com eles e com os esportes náuticos em geral.

O governo do Estado só prestou uma homenagem mais de 30 anos depois, em 2014, mas distinguiu apenas César Barbi com uma comenda de mérito desportivo, sem citar os outros dois competidores.

“Na época, fomos mais reverenciados no Chile do que aqui”, diz Barbi, que foi comodoro do Veleiros da Ilha durante quatro mandatos não consecutivos. “Ganhamos o troféu em nome do país, mas tudo o que recebemos foi um telegrama do governo, que devolvemos”.

Valério Gomes Soares conta que eles tiraram 70 mil dólares de suas economias para participar do campeonato mundial. Na volta, na comemoração, passaram em frente ao Palácio do Governo e exibiram a taça, com orgulho.

Eles viraram notícia e foram chamados para dar palestras, mas o fato de ter que devolver o troféu sem defender o título de 1982 se transformou em uma grande mágoa.

César Barbi (75 anos) e Valério Gomes Soares (66) foram empresários e estão aposentados. Walmor Gomes Soares Filho (67 anos) é arquiteto e atualmente preside o conselho da Fucas (Fundação Catarinense de Assistência Social).

Participe do grupo e receba as principais notícias
do esporte de Santa Catarina e do Brasil na palma da sua mão.

Entre no grupo Ao entrar você está ciente e de acordo com os
termos de uso e privacidade do WhatsApp.
+

Mais Esportes

Loading...