Conheça a história da ornitóloga que mapeou quase 600 aves em Santa Catarina

Durante 18 anos, Lenir do Rosário viajou pelas regiões do Estado e registrou pássaros em seus habitats; trabalho é referência sobre a avifauna catarinense

Imagine abrir um mapa de Santa Catarina e desenhar 224 quadrados de tamanhos quase iguais, dividindo todo o território catarinense – do Sul ao Planalto Norte, do Litoral ao Oeste. E, depois, ao longo de 18 anos visitar cada quadradinho, portando binóculos e, com um ouvido apurado e disciplinado, descobrir os pássaros que vivem em cada um desses locais.

Esse foi o trabalho da ornitóloga Lenir Alda do Rosário, reunido no livro “Aves de Santa Catarina”, de 1996 e no site de mesmo nome. Na época, ela registrou 596 espécies. Criado por Rosário e atualizado com pesquisas de novos observadores, o número de espécies registradas chega hoje a 715.

Rosário durante o trabalho de identificação de pássaros – Foto: Lenir Alda do Rosário/Arquivo Pessoal/ND

No site, que entrou no ar em 2011, estão os registros de um trabalho que iniciou em 1978 quando Rosário ainda era estudante de biologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina).

Na época, ela ocupou uma vaga de estágio na extinta Fatma (Fundação do Meio Ambiente) – hoje IMA (Instituição do Meio Ambiente de Santa Catarina).

A paixão da estudante era a botânica, mas nos seus primeiros meses na fundação foi incumbida de outra função: o mapeamento da avifauna catarinense. A missão foi dada pelo então diretor da Fatma, o padre Raulino Reitz, um dos patronos da ecologia catarinense que 36 anos antes havia fundado o herbário “Barbosa Rodrigues”, em Itajaí.

Projeto inédito

Reunir em um livro toda a avifauna catarinense era uma proposta inédita no Estado. Para tanto, naqueles anos finais da década de 1970, Raulino pediu apoio a Helmut Sick, ornitólogo alemão renomado que integrava a equipe do Museu Nacional do Rio de Janeiro.

“Ele repassou todo conhecimento necessário para aprendermos sobre a identificação das aves. E era exigente: toda semana recebia duas cartas de observações, fora as ligações”, lembra a ornitóloga. Através desses ensinamentos ela construiu o método da sua pesquisa.

Da esquerda para direita: Helmut Sick, Raulino Reitz e Rosário, em Itapiranga. A foto foi tirada em 1982 – Foto: Lenir Alda do Rosário/Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

O livro também conta com o resultado de inúmeros projetos que Lenir se envolveu durante essas quase duas décadas de pesquisa, junto a outros estudiosos da Fatma. Publicações sobre a avifauna da ilha Moleques do Sul e de municípios como Biguaçu e Antônio Carlos, são alguns exemplos.

A rotina de observação

Cada “quadrado no mapa” visitado por Rosário conta com cerca de 20 quilômetros de largura e outros 20 de altura- número aproximado, uma vez que os observadores se orientam por coordenadas geográficas (15′ de latitude e longitude). Um mapa de papel sempre acompanhava Rosário.

Ocasionalmente, o trabalho era acompanhado por estudiosos de outras áreas, mas na maior parte das vezes era solitário. Ao  chegar nos locais, falava ao motorista “se eu não voltar dentro de 30 minutos, vem atrás. Eu podia cair, ou sofrer algum acidente. Mas ele nunca precisou ir atrás, sempre fui muito cuidadosa” conta.

Tesourão (1), garça-morena (2), pernilongo (3) e a coruja do campo (4): espécies que Lenir registrou em seu livro de 1996 – Foto: Lenir Alda do Rosário/Divulgação/ND

Seguindo mata adentro, preferia os lugares abertos pela facilidade de ouvir e ver as aves – as duas formas de se fazer um registro. “Praias, pântanos, banhados, campos e espaços urbanos são alguns dos melhores locais. Nas florestas, as aves se escondem” conta Lenir.

Em cada lugar Rosário ficava cerca de 20 minutos, fazendo o máximo de registros possíveis. Após todo esse tempo de pesquisa ela consegue chegar em uma região qual será a sequência de cantos. “Quando você entra na mata, por exemplo, tem sempre as aves que vão emitir um alerta”.

A região Serrana é uma das favoritas de Lenir para a observação. Na foto ela está no Canyon do Itaimbezinho – Foto: Lenir do Rosário/Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Ao ser questionada sobre as regiões catarinenses favoritas, Rosário lista Campo dos Padres (Urubici), em razão de espécies que só vivem naquela região (endêmicas), como o pássaro pedreiro. A região Sul também está entre as favoritas, principalmente a região das lagoas da Caveira, do Sombrio, de Santa Marta, entre outras.

“É uma região que, em época migratória, recebe várias espécies. E no período de primavera tem uma densidade muito grande” conta.

Número de espécies cresceu

Em 2011, Lenir disponibilizou todo o seu trabalho online. O site “Aves de Site Catarina” passou a receber também os registros de outros ornitólogos e se tornou uma referência para o estudo das aves no Estado. O número de aves registradas em Santa Catarina hoje é de 715 espécies. São 119 novas espécies registradas nos últimos 25 anos.

Dentre as aves registradas no Estado neste período, estão espécies como a sanã-amarela, turu-turu, garça-real, sabiá-de-óculos, sabiá-norte-americano, saíra-de-chapéu-preto, papa-moscas-do-campo, espécies de marreca, pardela-de-óculos, albatroz-real-do-norte, e muitas outras. A lista com todos os registros pode ser conferida neste link.

Dentre as espécies registradas por diferentes ornitólogos no site Aves de SC, durante os últimos 25 anos, estão a garça-real (1), pardela-de-óculos (2), papa-moscas-do-campo, (3), sábia de óculos (4), sanã-amarela (5), Marreca-de-asa-azul (6). Fotos pertencem, respectivamente, aos fotógrafos Bernard Dupont, , Don Faulkner, Brian Gratwicke e Marlin Harms – Foto: Wikimedia Commons/Divulgação/ND

Maior conhecimento da avifauna

O aumento de registros não significa necessariamente que estas novas espécies passaram a viver em ares catarinenses, explica Rosário.

Para ela, a expansão da lista é fruto principalmente do aumento de observadores e faculdades de Biologia, assim como a criação de leis que exigem o estudo mais aprofundado de ambientes naturais antes que seja realizada alguma interferência humana.

“Uma resolução de 1986 do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) passou a exigir estudos mais detalhados para permitir intervenções ambientais. Com o aumento da demanda de pesquisadores foram criados novos cursos de biologia na década de 1990, o que aumentou o número de pesquisadores” afirma.

Canário-da-terra-verdadeiro (1), Carucaca (2), Gaivotão (3), gavião-chimango (4), gralha-azul (5), guarás (6), Urubu-de-cabeça-vermelha (7), tico-tico (8). Registros feitos por Rosário – Foto: fotos

A jovem Lenir, observando aves na Praia da Pinheira, em 1979 – Foto: Lenir do Rosário/Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

Além disso, a evolução tecnológica contribuiu com o trabalho de campo. Durante a sua pesquisa, Rosário chegava nas áreas de observação carregando livros imensos. Câmeras analógicas e gravadores rudimentares ocasionalmente acompanhavam as pesquisas.

Os ornitólogos de hoje, além de serem mais numerosos, contam com uma tecnologia mais sofisticada. Câmeras que fotografam melhor no escuro e gravadores mais compactos que facilitam o trabalho. Com alguns cliques, conseguem ter acesso a um banco de dados online de espécies, podendo comparar imagens e canto de pássaros.

Mesmo diante das dificuldades e da escassez de estudos, Lenir dedicou a vida ao estudo das aves e à ecologia catarinense. “Eu faria tudo de novo. Pra mim foi muito prazeroso, nunca me cansava. Não tinha um dia que pudesse ser aborrecedor”.

As fotos referentes às aves registradas no Estado nos últimos 25 anos foram retiradas do Wikimedia Commons. São indivíduos fotografados ao redor do mundo. O crédito é dos seguintes fotógrafos: Hector Bottai, Bernard Dupont, Hector Bottai, Brian Gratwicke, Don Faulkner e Marlin Harms.

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