Professor ferido em casa em Florianópolis tinha como marcas coibir invasões e exaltar educação

Amigos e colegas têm como principais memórias a participação do professor em movimentos sociais e ambientais; investigação aponta morte por queda

Entre amigos e ex-colegas de profissão, as lutas ambiental e pela educação são as primeiras memórias que vêm à mente ao falarem do professor Getúlio Dornelles Larratéa. Valorizar a “comida de verdade”, conquistar verbas para a universidade pública e proteger áreas de conservação eram algumas das bandeiras do professor, que morreu no último dia 2.

Larratéa teve papel fundamental na formação do curso de Nutrição, na UFSC – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDLarratéa teve papel fundamental na formação do curso de Nutrição, na UFSC – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

No fim de maio ele foi encontrado por vizinhos andando desorientado em frente da casa onde morava, no bairro Pântano do Sul. Larratéa residia na região da Costa de Cima, um dos limites do atual Mona Peri (Monumento Natural da Lagoa do Peri). Ele entrou em coma ao ser hospitalizado e morreu três dias depois, aos 71 anos.

Nesta quinta-feira (23) a Delegacia de Homicídios da Capital ainda apura as circunstâncias da morte do professor. Os indícios e laudos periciais apontam morte por queda, de acordo com o delegado Enio de Oliveira Mattos.

O gaúcho de Sant’Ana do Livramento começou em 1982 a lecionar na então recém-fundada graduação em Nutrição da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina). Na época contribuiu para a criação do currículo do curso, no qual lecionou até se aposentar em meados dos anos 90.

Uma amizade formada no comitê de greve

Foi em meio a uma greve que Carlos Eduardo Pinheiro, professor do departamento de pediatria da UFSC, conheceu Larratéa. Era 1984, fim da ditadura militar. A universidade se democratizava: tinha realizado no ano anterior a primeiro eleição direta paritária para reitor.

As reuniões do movimento ocorriam no CCS (Centro de Ciências da Saúde) e, no comitê da greve, Larratéa representava a Nutrição. Maninho, como Carlos é conhecido, era um dos poucos que representava a medicina – curso que ainda hoje carrega a fama de ser “mais conservador”.

Naqueles anos a UFSC também passava por uma ampliação expressiva na oferta de cursos, especialmente no CCS. Paralelamente também ocorria uma efervescência de lutas por mais verbas e melhores condições para os docentes.

“Ele [Getúlio] era combativo, falava bem, tinha temperamento forte”, pontua Carlos Eduardo.”As alunas [a Nutrição é majoritariamente feminina] adorava ele. Ele defendia a mudança de hábitos, como a alimentação natural”, lembra o amigo, que depois passou também a ser médico da família.

Eram os ideais de Getúlio que também sobressaem nas memórias da colega do departamento de nutrição, Anete Araújo de Sousa. “Ele foi um pilar para construir o curso de Nutrição e para as reivindicação dos professores”, lembra. “Já naquela época defendia a agroecologia [prática alternativa de agricultura], terapias alternativas e o plantio de vegetais”.

O último encontro dos dois foi antes da pandemia, em fevereiro de 2020, durante uma reunião de ex-professor da Nutrição.  “O Getúlio era alegre, passava energia. Uma pessoa de fortaleza, lutava pelo que acreditava e inspirava esperança”.

Professor é lembrado também pela irreverência – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/NDProfessor é lembrado também pela irreverência – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação/ND

A defesa da conservação

Enquanto a primeira memória de Maninho remete a uma greve, a mais marcante de Gelson Albuquerque, professor aposentado do departamento de enfermagem da UFSC, remonta uma assembleia de orçamento participativo realizada no bairro Rio Tavares, já em 1995. A política de bairro também estava no radar de Larratéa.

Albuquerque, que era então secretário da Susp (Superintendência de Serviços Públicos) na gestão do prefeito Sérgio Grando (PPS), passou a se reunir com Getúlio para tratar dos limites das unidades de conservação de Florianópolis. O tema sofria uma série de indefinições na pasta.

“Tínhamos uma dificuldade imensa com os mapas da prefeitura. Ouvíamos os moradores para tentar identificar as regiões remanescentes que tinham posses. Era muito jogo de memória, ‘de pedra tal a pedra tal’. Com o tempo fica difícil definir o que é área pública”, explica. Getúlio morava próximo ao Sertão do Ribeirão, que integra o Mona Peri.

Por conta disso, ao poder municipal, Getúlio virou uma fonte de informação necessária para coibir invasões , impedindo que áreas que deveriam ser protegidas se tornassem devolutas ou de posse na região onde morava.“Devido a sua memória histórica, ele nos ajudou a identificar várias aéreas que eram de preservação”, explica Albuquerque.

Na época a Floram (Fundação do Meio Ambiente de Florianópolis), atual órgão ambiental do município, ainda não havia sido criado. Questões ambientais ficavam a cargo da Susp.

Na última terça-feira (21), professores que lecionaram na mesmo época de Getúlio se reuniram no bosque da UFSC para plantar uma árvore em homenagem ao professor. Larratéa deixou um filho. Procurado pelo ND+, ele preferiu não se manifestar sobre a morte do pai.

Colegas prestaram homenagem ao professor plantando uma árvore no bosque da UFSC – Foto: Arquivo Pessoal/DivulgaçãoColegas prestaram homenagem ao professor plantando uma árvore no bosque da UFSC – Foto: Arquivo Pessoal/Divulgação

Investigação

“É necessário fazer o processo de investigação, pois é difícil que ele tenha tido tantos traumatismos somente por conta de uma queda. É inaceitável que as coisas acabem”, afirma Albuquerque, em referência ao resultado do laudo pericial.

Os amigos do professor suspeitam de possível crime por conta de ameaças recentes relatadas por Getúlio, justamente por conta de denúncias feitas na região. Ele foi aconselhado a realizar um boletim de ocorrência, registrando as ameaças.

Uma possível associação, no entanto, é afastada pela investigação. A  Polícia Civil chegou a apurar um possível homicídio, mas concluiu que a morte foi provocada por queda. A investigação não informou quando o inquérito deve ser concluído.

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