Dia da Amazônia: Como queimadas e desmatamento impactam SC

Especialistas explicam os efeitos que o crescente descuido com a maior floresta tropical do mundo causam na vida dos catarinenses

Neste sábado (5), é comemorado o Dia da Amazônia. A maior floresta tropical do mundo, com 8,47 milhões de quilômetros quadrados, conta com uma fauna de mais de 30 milhões de espécies e é considerada a região de maior biodiversidade do planeta.

No entanto, nos últimos 50 anos, o bioma da Amazônia tem sofrido danos constantes com desmatamentos e queimadas. Estudos indicam que cerca de 17% da floresta foi devastada nesse período.

Vista aérea de um grande incêndio florestal em Castanho, a 113 km de Manaus. – Foto: The Sun/Divulgação/Reprodução/ND

De acordo com dados do Inpe (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o Brasil encerrou o mês de agosto com o segundo pior resultado de queimadas na Amazônia dos últimos dez anos. Foram registrados 29.307 focos de incêndio no último mês, número acima da média histórica para este período do ano, que é de 26 mil.

A área da Amazônia cobre grande parte do Norte do Brasil e outros oito países da América do Sul. A distância da floresta até o Estado de Santa Catarina é de pelo menos 1.500 quilômetros, mas se engana quem acha que os efeitos do desmatamento e queimadas não chegam até aqui.

De acordo com a especialista em geociências, meteorologia e climatologia e professora da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Marina Hirota Magalhães, em quesitos de atmosfera, a Amazônia fica “do lado” de Santa Catarina.

“As pessoas pensam que a Amazônia está longe de nós, mas estamos no mesmo continente, no mesmo país”, ressalta a professora.

Dessa forma, os impactos do descuido ambiental na maior floresta tropical do mundo atingem diretamente o clima, a saúde e o bolso dos catarinenses.

Influência sobre a chuva

Um dos efeitos mais diretos da Amazônia em Santa Catarina está na formação das chuvas, explica a pesquisadora, cientista e integrante do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU), Regina Rodrigues:

“Para chover em Santa Catarina, deve haver um fluxo de umidade, e ao contrário do que muita gente pensa, boa parte dessa umidade não vem do oceano, mas sim da Amazônia.”

Na figura abaixo, um esquema mostra a circulação atmosférica padrão sobre a América do Sul e em particular a corrente de ar de grande intensidade, chamado jato atmosférico (seta em azul escuro), que traz umidade da Amazônia para nosso Estado.

Esquema mostra como a Amazônia influencia nas chuvas em Santa Catarina – Foto: Reprodução

“Então, as nossas chuvas dependem da Amazônia. Com o desmatamento, esse fluxo de umidade pode diminuir e agravar secas em Santa Catarina, que têm um efeito devastador não só para a agricultura, atividade econômica importante para o Estado, mas também para os nossos ecossistemas naturais (fauna e flora)”, alerta Regina Rodrigues.

Desequilíbrio pode agravar fenômenos naturais

Só em 2020, Santa Catarina já sofreu com diversos fenômenos extremos como ciclones e até tornado. A posição geográfica do Estado favorece essas ocorrências, visto que está localizada no segundo maior corredor de tornados do mundo.

Mas, a intensidade desses fenômenos pode ser agravada pelo impacto ambiental na Amazônia, conforme explica Marina Hirota.

“A Amazônia tem um impacto no mundo todo, e aqui não é diferente. A temperatura elevada do planeta pode afetar a intensidade de eventos extremos, porém ainda não há um consenso científico se para mais, ou para menos”, diz.

De qualquer forma, o desequilíbrio traz malefícios severos para o clima de uma região, como mudanças nos níveis de chuva e frio para determinado período do ano. Essas oscilações, portanto, podem resultar em eventos extremos da natureza com ainda mais intensidade.

Fumaça das queimadas

Marina Hirota explica que, “quanto mais perto, maior é o efeito”. E, segundo ela, em se tratando de atmosfera, o Estado de Santa Catarina está muito perto da Amazônia.

“De uma forma geral, qualquer lugar que tem queimada, tem efeito na chuva”, afirma a professora.

Além da seca que pode ser ocasionada, conforme explicou a pesquisadora Regina Rodrigues, as partículas de resíduos de combustão também podem influenciar na força da chuva, com pingos maiores e uma maior intensidade, alerta Marina Hirota.

Segundo Hirota, a chance de uma “escuridão” no céu de Santa Catarina por conta das queimadas, como ocorreu em 2019 em São Paulo, sempre existe. No entanto, a professora ressalta que a queimada na Amazônia ainda teria de ser muito maior para este tipo de efeito direto ocorrer.

Impacto na saúde

Ainda segundo Marina Hirota, sempre que ocorre uma perturbação ambiental na Amazônia, o desequilíbrio é sentido em Santa Catarina também.

Isso também acontece no âmbito da saúde. De acordo com a professora, resultados preliminares de estudos realizados sobre as mudanças nas condições climáticas ocasionadas pelas queimadas na Amazônia apontam o efeito nas chuvas e uma possível influência direta em doenças respiratórias.

Ou seja, “sendo o impacto da chuva que chega à Santa Catarina maior ou menor do que o normal, as pessoas com a saúde mais sensível irão sofrer” explica.

Além disso, de acordo com a pesquisadora Regina Rodrigues, o jato atmosférico pode trazer a fumaça das queimadas na Amazônia para Santa Catarina. E, junto com a fumaça das queimadas locais, esse jato pode diminuir dramaticamente a qualidade do ar, afetando o sistema respiratório não só dos seres humanos, mas também de vários animais.

“Nosso clima é úmido com chuvas regulares bem distribuídas pelo ano com maiores volumes na primavera e verão e a nossa fauna e flora são bem adaptadas a esse clima. Secas muito intensas combinadas com queimadas locais podem causar grande mortalidade de animais e plantas e, se muito frequentes, podem levar até à extinção de algumas espécies por falta de habitat, alimentos e água”, alerta a cientista.

Efeito no mar

As possíveis secas ocasionadas pelo desmatamento na Amazônia podem ter impacto indireto crucial no mar catarinense, ainda segundo Regina Rodrigues.

“Os verões podem ficar bem mais quentes, pois a diminuição das nuvens leva a uma maior insolação e consequente elevação das temperaturas. Esse processo também ocorre sobre o oceano, levando a uma elevação das temperaturas da água do mar. Este aquecimento anormal da água pode exterminar várias espécies marinhas”, afirma.

O aquecimento térmico já chegou a afetar o berbigão, molusco tradicional das praias catarinenses, além do cultivo de ostras, afirma Rodrigues.

“Acredita-se que no litoral de Santa Catarina, o berbigão tenha sido dizimado devido a esses extremos de temperatura causados por falta de nuvens e insolação excessiva. Outro efeito negativo ocorre com o cultivo de ostras, quando a água fica muito quente, elas não se desenvolvem bem e não atingem o tamanho ideal, perdendo valor comercial”.

A pesquisadora alerta ainda para outro problema grave em relação às ostras em situações como essa. “As ostras também ficam mais suscetíveis a organismos patogênicos que se proliferam mais rapidamente, podendo neste caso causar intoxicação alimentar se consumido por seres humanos”.

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