Em caso raro, tartaruga ameaçada de extinção desova no Litoral de SC

Tartaruga-de-couro de mais de 300 kg é acompanhada por biólogos na praia de Balneário Gaivota; último registro de desova da espécie no Sul do país foi em 1995

Uma tartaruga-de-couro, espécie que pode chegar a medir dois metros e está ameaçada de extinção, proporcionou um momento raro na praia de Balneário Gaivota, no Litoral Sul catarinense, nesta semana.

Desde a madrugada do dia 23 de janeiro, biólogos acompanham a desova da tartaruga na praia. O acontecimento é raro, não só pela raridade de espécies do animal, mas pela região em que ocorre.

Tartarugas-de-couro costumam desovar no Litoral Norte do Estado do Espírito Santo, que tem como característica águas mais quente. Além disso, essa espécie de tartaruga têm o costume de desovar apenas na praia onde nasceram.

Tartaruga de espécie rara faz desova no litoral de SCTartaruga-de-couro faz desova rara no Litoral de Santa Catarina – Foto: Reprodução/NDTV

O animal foi visto há cerca de duas semanas na praia de Arroio do Sal, no Litoral gaúcho. Então, uma equipe de biólogos da UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) passou a fazer o monitoramento da tartaruga.

“Algumas pessoas nos mandaram vídeos e fotos do animal desovando lá em Arroio do Sal. E a partir disso a gente veio monitorando pra ver se ela ia desovar mesmo em outra praia. E ela desovou exatamente 11 dias depois, aqui em Balneário Gaivota. Então viemos até o local para ver o ninho, para falar com as pessoas que encontraram, para gente tentar monitorar esses ninhos até os filhotes nascerem”, disse Cariane Campos Trigo, bióloga do Ceclimar/UFRGS.

O acompanhamento agora é realizado pela equipe do projeto Educamar, Universidade Unesc e UFRGS, com suporte da PMA (Polícia Militar Ambiental) e Projeto TAMAR do Espírito Santo.

A distância entre as praias de Arroio do Sal e Balneário Gaivota é de cerca de 50 km.

Quem viu pela primeira vez em Santa Catarina foi a professora Flaviana Hofmam dos Santos, que ficou encantada com a grandiosidade da fêmea.

“É um fenômeno muito lindo, ela tem uma cabeça do mesmo tamanho da cabeça da gente, e pesava, em média, uns 350 kg. É algo muito interessante. Ela parecia estar ofegante, lacrimejando, mas parecia não se importar com a nossa presença naquele ritual”, relata.

Para proteger o ninho, o pescador José Valcir da Costa construiu uma espécie de cercado.

“Peguei umas madeiras e cerquei porque essa é uma área que passa muita moto, jipe, muita criança brincando pela areia… e até mesmo pelos curiosos, a gente veio cercar e preservar”.

Cercado de madeira construído por pescador para proteger desova de tartarugaPescador construiu um cercado de madeira para proteger a tartaruga – Foto: Reprodução/NDTV

Por que a tartaruga-de-couro escolheu Santa Catarina?

Visto que as tartarugas-de-couro costumam desovar na praia onde nasceram, e seu habitat no Brasil normalmente é o Litoral Norte do Espírito Santo, o motivo do aparecimento no Sul do país gera dúvidas.

Porém, de acordo com Suelen Santos, bióloga do Educamar, a explicação pode estar em uma ocorrência de mais de 25 anos.

“Existe um relato e um artigo científico de que em 1995 uma tartaruga da mesma espécie, desovou no Litoral do Rio Grande do Sul, mais precisamente em praia do Paraíso. As chances de esta tartaruga ser um filhote gerado por este indivíduo que fez esta desova lá em 1995 é muito grande”, afirma.

Dessa forma, há uma “possibilidade enorme” da região do Sul do Litoral Catarinense e o Rio Grande do Sul passar a ser habitada por tartarugas-de-couro, conforme explica Suelen Santos.

“Portanto, conseguimos a partir de agora apontar o Sul de SC e RS como novo habitat favorável para desovas da tartaruga desta espécie. Assim, há a necessidade de proteção e monitoramento costeiro nestas regiões com frequência, afim de realizar a conservação da espécie.”

A primeira desova ocorreu no dia 23 de janeiro. No prazo máximo de sete a 14 dias ela fará uma nova desova pela região. O ciclo reprodutivo é de até sete desovas na região nos próximos meses.

Ainda segundo a bióloga Suelen Santos, a expectativa no final de todo processo de desova é de, no mínimo, 700 novas tartaruguinhas da espécie.

“Estaremos monitorando diariamente, aferindo a temperatura do ninho, observando se está tendo interferência da ação humana aqui no local e fazendo nosso trabalho que já é feito aqui no Litoral Sul de Santa Catarina, de monitoramento costeiro de animais marinhos.”

O tempo de incubação dos ovos pode ser de até 90 dias, já que o clima no litoral catarinense é mais ameno comparado ao Espírito Santo.

Mesmo acostumadas a temperaturas mais quentes, Suelen Santos acredita que a adaptação das tartarugas-de-couro no Sul do Brasil pode ocorrer.

“Cremos que seja possível, haja vista que esta tartaruga vive em águas tropicais e temperadas. Mas será necessário muita pesquisa e monitoramento na região com cada vez mais frequência”, alerta.

*Com informações da NDTV Criciúma.

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