Entrevista: arquiteto defende que moradias do futuro sejam mais sustentáveis

Em passagem por Florianópolis, Arthur Casas fala de tendências do mercado e de projeto desenvolvido a partir de sugestões colhidas na internet

Marco Santiago/ND

Arthur afirma que projetos devem incluir pilares sustentáveis em busca de qualidade de vida

Durante passagem por Florianópolis na semana passada, o arquiteto Arthur Casas apresentou o projeto “N.O.V.A – Nós Vivemos o Amanhã” e os conceitos empregados na construção de uma casa em Niterói (RJ) a partir de uma plataforma colaborativa. Antes do evento promovido pelo Shopping Casa & Design, ele conversou com o ND sobre a casa do futuro e os principais conceitos de sustentabilidade. Referência internacional com vários prêmios em arquitetura, Arthur fala também sobre apartamentos novos de até 40 metros quadrados e a falta de identidade das cidades brasileiras.

Como vai ser a moradia daqui a 15 ou 20 anos?
Na palestra em Florianópolis (quinta-feira, 10/3) falei sobre um projeto que surgiu através de um crowdsourcing realizado em 12 países e apresenta como seria o desejo dessas pessoas habitarem. Evidentemente, é um exercício. Várias coisas apareceram, como se ter um quarto de Airbnb [plataforma on-line para mediação de aluguel de temporada entre proprietários e hóspedes]. Em alguns lugares sugeriram até uma casa compartilhada: duas famílias usando a casa concomitantemente. Também surgiu a ideia de um home office compartilhado próximo à moradia. O que não faz parte do exercício é o seguinte: essa casa produz mais energia do que gasta. Isso é real: se consegue fazer isso através de painel solar e de eólicas domésticas. Tem o sistema de ar-condicionado através da geotermia, que vai captar a temperatura do solo a 20 metros de profundidade, que é basicamente sempre a mesma em qualquer parte do mundo – 16 graus – e vai jogar por intermédio dessas serpentinas no piso dessa casa. E isso vai dar sempre uma temperatura entre 23 e 24 graus no ambiente. A questão do lixo também é importante, que já veio para ficar. E não é só separar o lixo, que é fundamental, mas também ter um biodigestor na casa.

O senhor está falando colocar na prática a sustentabilidade, palavra bastante comentada ultimamente.
Sim, estou falando em sustentabilidade real. Quais sáo os pilares dessa casa em termos de sustentabilidade e de futuro? Reuso de água, lixo e energia. No caso da água, vai ter um teto verde que, além de captar água para uma cisterna e resolver o problema de abastecimento para vários lugares da casa (como limpeza externa e até lavação de roupa), também ajuda a recompor a fauna em alguns lugares. O lixo é uma coisa terrível. Como as pessoas, na maioria dos países, não pensa nisso? A produção de lixo é absurda. As questões que envolvem a sustentabilidade são relativamente fáceis de serem implementadas.

As casas projetadas nas próximas décadas têm que pensar, necessariamente, nessas questões sustentáveis então?
Exatamente, já tem que pensar nessas coisas aí. Os projetos mais recentes que estamos fazendo de casas em São Paulo já é obrigatório ter uso de energia solar, por exemplo. Uma coisa que não consigo entender é como a questão do lixo é tão esquecida nas cidades de forma geral. Eu, por exemplo, tenho um apartamento em Nova Iorque e o lixo orgânico a gente joga naqueles dutos, que hoje são proibidos no Brasil por conta de sujeira. Mas lá funciona e vai para um biodigestor no prédio. E o resto do lixo é separado. Não sei se isso acontece em todos os prédios da cidade, mas nos três em que morei funcionavam dessa forma.

O senhor já disse que acha que a tendência é as pessoas procurarem espaços menores para morar. Por quê?
No projeto de Niterói (crowdsourcing) estamos falando de uma casa em família, de umas quatro pessoas. Em cidades como São Paulo, Nova Iorque, Tóquio e Londres, em que o metro quadrado é muito caro, as pessoas têm que morar em espaços menores. Elas precisam disso por causa de dinheiro. O que está acontecendo em São Paulo, e estamos fazendo dois projetos nesse sentido, são apartamentos de 25 metros quadrados. O pessoal que trabalha no meu escritório mora em espaços até 40 metros quadrados. Por uma questão de problema de espaço físico e preço, mas também para morar perto de trabalho. Quem mora numa metrópole prefere, muitas vezes, ficar perto do trabalho e de facilidades. Por que são lugares que oferecem melhor qualidade de vida, perto do metrô, lojas, supermercados, vida noturna.

Preferem pagar mais caro.
Bem mais caro. O metro quadrado desse projeto custa R$ 25 mil. Um apartamento de 30 metros quadrados custa R$ 600 mil.

O senhor costuma dizer que as cidades brasileiras acabam não respeitando muito o passado delas. Em que sentido?
Não há como mudar a cor das casas de alguns lugares. Se há alguma importância na história ou na arquitetura da cidade não se pode mexer absolutamente nada. Em São Paulo, a gente não tem esse respeito, absolutamente. E o que aconteceu? Uma cidade foi sendo construída em cima da outra. Em 100 anos, São Paulo foi construída três vezes, isso é dado. Então, não se cria uma afinidade forte daquelas pessoas que habitam a cidade com o espaço urbano. O Brasil tem muito que aprender com isso. E não é só com relação a isso. Se tenho um restaurante em Paris e resolvo colocar um toldo roxo, não posso. Posso colocar vermelho ou preto, porque aquilo dialoga com o perfil da cidade. Há uma lógica coletiva que está acima da lógica individual, do proprietário do espaço.

Falamos antes de alguns conceitos relacionados à sustentabilidade. O senhor acha que os profissionais e os clientes hoje já estão preocupados com isso?
Não. Acho que só 40%. A maioria das pessoas ainda pensa a curto prazo.

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