Espuma na Lagoa da Conceição é fruto de contaminação da água por esgoto, aponta laudo

Reportagem do nd+ teve acesso ao laudo de recolhimento de amostras da água na região do trapiche que aponta alto nível de coliformes fecais

A espuma densa e amarelada que apareceu na Lagoa da Conceição, em Florianópolis, no fim de abril, vem chamando a atenção dos moradores e frequentadores de uma das regiões mais famosas da Ilha.

Segundo laudo com a análise da água da região do trapiche da Lagoa da Conceição, o qual a reportagem do nd+ teve acesso, é apontado grande índice de coliformes fecais e nitrogênio. Estes são fatores que indicam a contaminação da água por esgoto.

Situação da espuma na Lagoa da Conceição nesta segunda-feira (18) – Foto: Anderson Coelho/ND

A coleta do material foi feita em 27 de abril pela Avelisc (Associação de Vela e Preservação Ecológica Lagoa da Conceição) e levada a um laboratório privado.
A constatação do resultado foi feita pelo professor do Laboratório de Ficologia da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), Paulo Horta.

“O processo de decomposição e circulação gera esse tipo de formação. A proliferação das algas não causa a espuma. Ela é fruto da decomposição de matéria orgânica. Coliformes são bons marcadores de esgoto doméstico”, explica Horta.

Laudo aponta grande quantidade de nitrogênio e coliformes fecais na água – Foto: Reprodução

Conforme o biólogo de Florianópolis, Marco Perotto, segundo resolução 357/2005 do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), a água no local da coleta é classificada como classe três. Ou seja, no local é somente permitido esporte náutico sem contato com a água.

“Os parâmetros do oxigênio dissolvido são críticos. O nitrogênio também é crítico para essa categoria. E os coliformes fecais que indicam fezes na água é muito alto”, explica Perotto.

As contribuições para chegar nesse nível de nitrogênio alto, oxigênio dissolvido baixo e elevado número de coliforme fecal, conforme o biólogo, se dá por esgoto sem tratamento e restos de restaurante sem o tratamento devido.

Casan não registra “anomalias”

Questionada sobre a situação dos esgotos na região, a Casan (Companhia Catarinense de Águas e Saneamento) afirmou que não há registros de anomalias no local.

O órgão citou fatores como calor, falta de chuva e excesso de nutrientes, como nitrogênio e fósforo na água para o aparecimento da espuma.

“A Casan lembra que atua na fiscalização de ligações clandestinas em parceria com a Prefeitura Municipal de Florianópolis e lamenta que mesmo em uma região beneficiada com o sistema público de esgotamento sanitário ainda ocorra eventuais descartes indevidos no ambiente”, disse através de assessoria.

Floram diz “acompanhar o caso”

No último fim de semana, a Prefeitura de Florianópolis informou, por meio de nota, que a Floram (Fundação Municipal do Meio Ambiente de Florianópolis) tem recebido “diversos questionamentos” a respeito.

Também apontou que a espuma “é decorrente da proliferação de algas nas águas da lagoa que acontece por uma conjunção de fatores tanto climáticos quando ambientais”.

Grande extensão da espuma na Lagoa da Conceição – Foto: Anderson Coelho/ND

A proliferação de algas, explica a prefeitura, também é conhecida como maré vermelha e, apesar de natural, “pode ser agravada pela ação humana”.

Nesta segunda (18), a Floram afirmou seguir acompanhando o “estado da proliferação das algas nas águas da Lagoa da Conceição”. O órgão citou ainda a falta de chuva, como fator para a “baixa oxigenação da água no local”.

“O entorno da Lagoa da Conceição é constantemente fiscalizado pela Blitz Sanear. Recentemente, foram feitas ações de fiscalização na região, que lacrou saídas de esgoto de casas e estabelecimentos.

Nas próximas semanas, o grupo deve voltar ao entorno da Lagoa para intensificar a fiscalização no local, fazer novas vistorias, e identificar possíveis ligações irregulares de esgoto”, afirmou através de assessoria.

Ainda conforme a Floram, o IMA (Instituto do Meio Ambiente) já estaria ciente da situação e iria realizar um novo teste de balneabilidade no local. O último havia sido feito em março.

No entanto, o IMA confirmou à reportagem do nd+ que ficou ciente do problema existente na Lagoa através da imprensa e que não teria sido contatado pela Floram.

O órgão deve se reunir para decidir sobre a viabilidade da instalação de um laboratório móvel no local para realização da coleta e estudo do material.

MPSC irá investigar

O promotor de justiça responsável pela área ambiental da região, Paulo Locatelli, instaurou uma notícia de fato para coletar informações. Em documento oficial, o MP pede a Polícia Militar Ambiental que realize vistoria nos locais indicados.

Área do trapiche na Lagoa da Conceição – Foto: Anderson Coelho/ND

Conforme o MP cabe a Floram realizar vistorias no local para verificar possíveis irregularidades no tratamento de efluentes na região, além da coleta de amostras de água utilizada nos mesmos pontos de coleta dos relatórios de balneabilidade do IMA e pontos ao final da rua Canto da Amizade.

Serão realizados testes com análises químicas, microbiológicas e de toxicidade, encaminhados em sequência à Promotoria de Justiça.

O MP ainda pede ao IMA que realize “urgentemente” a coleta de amostras da água nos mesmos pontos coletados na última análise, além da rua Canto da Amizade.

Após 90 dias, o representante do MP poderá instaurar um inquérito civil para decidir se irá aprofundar as investigações ou arquivar o caso.

+

Meio Ambiente