Joinville e região: Passado e futuro marcados pelo avanço das águas

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Cidade mais populosa do Estado é um dos três municípios que deve enfrentar piores inundações em Santa Catarina em 30 anos, conforme estudo científico apresentado na COP25. Com prejuízos milionários, território ‘duela’ com a força das águas ao longo de sua história. Prefeituras da região já projetam medidas de contenção

REPORTAGEM: Luana Amorim
PESQUISA/TEXTO/EDIÇÃO: Beatriz Carrasco
ARQUIVO: Bruna Stroisc​​h

Inundações fazem parte da rotina dos mais de 590 mil habitantes que vivem na cidade mais populosa de Santa Catarina. Só nos últimos 11 anos, Joinville já registrou oito episódios que causaram prejuízos milionários aos cofres públicos e moradores. São pessoas que, em minutos, viram a água destruir seus patrimônios e moldar suas memórias. 

Mas engana-se quem pensa que as inundações na cidade são fatos recentes. Os primeiros relatos são de 1851, ano de fundação do município – de acordo com o livro História das Inundações em Joinville, de Wivian Nereida Silveira, Masato Kobiyama, Roberto Fabris Goerl e Brigite Brandenburg.

Bairros de Joinville podem sofrer inundações em 30 anos

Cheias marcaram Joinville em 1995 – Foto: jvilleCheias marcaram Joinville em 1995 – Foto: jville

Joinvillenses ainda guardam na memória o dia 9 de fevereiro de 1995. Após fortes chuvas, a água subiu de forma brusca e destruiu o que encontrou pela frente. Foram três mortos, 15 feridos, 15 mil desalojados, 5.725 desabrigados e 5 mil casas atingidas. Além disso, a enchente causou um prejuízo de mais de R$ 486 milhões, segundo a Defesa Civil municipal.

Histórias como de 1995 podem se repetir em Joinville e região nas próximas décadas. É o que afirma estudo da Ong Climate Central citado na Conferência sobre Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas – a COP25 -, que ocorreu neste mês em Madri, na Espanha.

Conforme a projeção, com as mudanças climáticas e a alta das marés, a tendência é que, já em 2050, a maioria dos bairros situados na Zona Sul e Leste da cidade sofram com o avanço das águas.

Parte de Joinville pode ser afetada com a alta das marés – Foto: Climate Central/ReproduçãoParte de Joinville pode ser afetada com a alta das marés – Foto: Climate Central/Reprodução

Na reportagem, o ND+ explorou o território catarinense em uma projeção do estudo para o ano de 2050, sob o cenário de “poluição moderada”, que consiste em um aumento gradual da temperatura da Terra em até 2ºC, até o final do século. O índice é 0,5ºC acima do que foi estipulado durante o Acordo de Paris, em 2015, quando 200 países se comprometeram em reduzir a emissão de gases do efeito estufa – substâncias como dióxido de carbono (CO2) e metano (CH4).

Moradora de bairro em risco viveu várias inundações

Entre os bairros que aparecem em risco, conforme a projeção, está o Fátima, na zona Sul. Segundo o periódico “Joinville Bairro a Bairro” publicado em 2017, a localidade contava com uma população de cerca de 15.500 pessoas, em uma área de 2,21 km².

Um dos rios que cortam o bairro Fátima, na Zona Sul – Foto: Luana Amorim/NDUm dos rios que cortam o bairro Fátima, na Zona Sul – Foto: Luana Amorim/ND

O bairro fica às margens dos rio Itaum-açú e Itaum-mirim, riacho Bupeva e do rio Cachoeira, e há anos sofre com inundações. O episódio mais recente foi em março deste ano, quando casas e comércios ficaram embaixo d’água após as chuvas que atingiram o município.

Entre os moradores afetados está Francelina Ezequiel da Silva, de 73 anos. A idosa mora há 35 anos no Fátima e já presenciou vários episódios semelhantes. Porém, foi em 2019 que ela, de fato, sentiu o prejuízo. 

“Eu já vi várias enchentes mas na minha casa a água nunca tinha chegado. Porém, nesta última que deu, eu perdi muita coisa. Na minha mercearia, eu perdi quase 2 mil reais”, lamenta. 

Dona Francelina, moradora há 35 anos do bairro Fátima, já presenciou várias inundações – Foto: Luana Amorim/NDDona Francelina, moradora há 35 anos do bairro Fátima, já presenciou várias inundações – Foto: Luana Amorim/ND

Segundo Francelina, naquele dia fechou o comércio, foi para casa com o filho e adormeceu. Minutos depois, o neto a acordou avisando que a água estava entrando na mercearia.

“Eu levantei de pijama e vim até a mercearia. Quando eu cheguei, a água era tanta que eu não conseguia nem abrir a porta. Nós então começamos a levantar as mercadorias, o freezer. Mas a força da água foi tanta que derrubou tudo no chão”, relembra. 

A Prefeitura de Joinville afirma que as fortes chuvas que atingiram a cidade nos dias 14 e 15 de março deste ano provocaram enchentes em ao menos 27 bairros. Além disso, mais de 15,3 mil residências e 54 mil pessoas foram afetadas. 

Francelina conta que o trabalho de limpeza para tirar a lama da casa e do comércio durou aproximadamente dois dias. Noves meses depois, a família da comerciante ainda tenta recuperar o que foi perdido naquela noite. 

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“Mesmo perdendo tudo isso, eu não desanimei. Sabe, não adianta a gente desanimar. Não é só aqui que enche. Então não fiquei assustada, apenas com medo de que algo pior pudesse acontecer”, conta. 

Questionada se está preparada para um episódio parecido, ela responde com sorriso no rosto e olhar distante: “Olha moça, preparada a gente não tá. Mas assim, vamos fazer o quê? O jeito é construir tudo de novo”. 

Prefeitura busca alternativas

Um dos fatores que contribui para o avanço constante das águas em Joinville é a influência das marés. Segundo a prefeitura, “quando este fenômeno ocorre, somado às chuvas, o impacto é maior”. Isso pode ser observado em um mapa produzido pela Defesa Civil municipal, que mostra os principais pontos suscetíveis a inundações por influência da maré na Bacia Hidrográfica do Rio Cachoeira. 

Mapa mostra regiões suscetíveis à inundações por influência de maré na Bacia Hidrográfica do Rio Cachoeira – Foto: Prefeitura de JoinvilleMapa mostra regiões suscetíveis à inundações por influência de maré na Bacia Hidrográfica do Rio Cachoeira – Foto: Prefeitura de Joinville

Apesar de os bairros construídos às margens do Rio Cachoeira serem os mais afetados, em outros episódios localidades como o Jardim Sofia, na Zona Norte – área que fica próxima ao Rio do Braço -, já viram de perto como a força das águas é capaz de destruir tudo em segundos.

Para reduzir as enchentes e alagamentos, a Prefeitura de Joinville afirma que vem trabalhando nos últimos anos em obras e projetos, entre elas a macrodrenagem do rio Mathias. 

Iniciada em 2014, a obra já teve a previsão de conclusão adiada várias vezes. O projeto prevê a construção de uma galeria de condução e conduto forçado de aproximadamente 2.500 metros de extensão, por baixo de ruas na área central da cidade, para ajudar na drenagem da água. 

Além disso, a obra também prevê um sistema de contenção e escoamento do rio Mathias, para diminuir as cheias causadas pela alta da maré no rio Cachoeira. A nova expectativa é de que seja concluída até o final de 2020.

A prefeitura também informou que vem realizando obras de prevenção com ações diretas em limpezas de rio, como o Mutucas e Águas Vermelhas (Vila Nova), e no Itaum-Mirim. 

O principal foco é a prevenção na região Sul da cidade, que é uma das mais atingidas. O Executivo afirmou que também trabalha em estudos que servirão de base para licitação das obras de macro e microdrenagem na sub-bacia hidrográfica do rio Itaum-Açu, com o objetivo de reduzir o impactos das marés. 

A Defesa Civil municipal também informou que conta com um mareógrafo, instalado no Joinville Iate Clube. O equipamento é alimentado por energia solar, com sensor de medição das marés.

Após coletadas, as informações são disponibilizadas online, no site do Centro de Informações de Recursos Ambientais e de Hidrometeorologia de Santa Catarina. 

A plataforma ainda permite acompanhar informações das outras Estações Maregráficas do Litoral catarinense. Os gráficos das marés previstas têm como base as leituras anteriores, com atualizações a cada 15 minutos.

Rompimento de barragem e pânico: o saldo de 1995

O ano era 1995. O dia, 9 de fevereiro. As fortes chuvas já vinham há dias castigando quem vivia no Norte do Estado. O rompimento da barragem do Rio Cubatão causou pânico e fez com que a água invadisse casas, plantações e estradas.

Enchente atingiu a cidade em fevereiro de 1995 – Foto: Anderson Coelho/NDEnchente atingiu a cidade em fevereiro de 1995 – Foto: Anderson Coelho/ND

Entre os que viveram o fatídico dia está Geremias Garcia Neto, que atuava na época como bombeiro voluntário do município. Ele conta que, naquele 9 de fevereiro, ao chegar à sede da instituição, foi designado a integrar a equipe que se deslocaria para Garuva, na divisa com o Paraná.

“Já tinha chovido o dia todo e a noite toda. Quando cheguei para trabalhar, por volta das 7h da manhã, me colocaram na equipe que iria ajudar o pessoal de Garuva, que estava precisando de socorro”, relembra.

Geremias foi um dos bombeiros que atuou no resgate das vítimas na enchente de 1995 – Foto: Luana Amorim/NDGeremias foi um dos bombeiros que atuou no resgate das vítimas na enchente de 1995 – Foto: Luana Amorim/ND

Já a caminho do município ao Norte, os bombeiros voluntários foram orientados a retornar a Joinville, já que localidades começaram a solicitar apoio por conta das cheias. No percurso, ele conta que, aos poucos, tudo era tomado pela água.

“Quando a gente passou próximo ao posto da PRF, ali em Pirabeiraba, indo para lá não tinha nada. Porém, quando a gente estava retornando já foi possível ver uma lâmina d’água de aproximadamente 30 centímetros na pista”. O tempo entre a ida e a volta foi de aproximadamente uma hora.

Os bombeiros voluntários, então, pararam perto do local e passaram a observar o aumento do nível da água. Foi neste momento que, segundo Geremias, uma ponte que ficava sobre o Rio Cubatão foi arrastada.

Assustada, a equipe saiu rapidamente da área e começou a auxiliar os moradores do distrito de Pirabeiraba, amarrando carros em postes e orientando a população para que procurassem um lugar seguro.

Já em Joinville, os bombeiros voluntários passaram o resto do dia trabalhando no apoio às famílias que viviam no bairro Jardim Sofia, local mais afetado pelas enchentes de 1995.

“Eu lembro que parei era meia-noite, quando já não tinha forças para lutar. Na época, nós tínhamos poucos motores [nos barcos], então a maior parte era remo. Às vezes as pessoas imploravam para que a gente as levasse, estava tudo um caos. Eu acho que esse foi o dia em que mais trabalhei como bombeiro em Joinville”, conta.

“Água subia como se estivesse enchendo um balde”

Inundações deixaram famílias desalojadas em Joinville em 1995 – Foto: O Estado/Reprodução/NDInundações deixaram famílias desalojadas em Joinville em 1995 – Foto: O Estado/Reprodução/ND

Outra pessoa que também trabalhou intensamente naquele dia foi o ex-comandante do Corpo de Bombeiros Voluntários de Joinville, Heitor Ribeiro Filho. Ele foi um dos primeiros a chegar no bairro no momento em que a água começou a subir.

“Eu trabalhava no Iririú [antiga sede do CBVJ], e no dia estava com mais umas três pessoas. Como a nossa unidade não tinha barco na época, nós fomos um dos últimos a serem chamados. Quando era umas duas horas da tarde, ligaram para nós dizendo que tinha um pessoal ilhado lá no Jardim Sofia, e pediram que a gente fosse para lá”, relembra.

Segundo Heitor, a equipe parou perto de uma ponte na chegada. Quando atravessaram a estrutura, a água já estava na altura de suas botas.

“A gente estava parado ali, e na hora nem estava chovendo, quando começou um volume de água decorrente do rompimento da barragem do Rio Cubatão. Nós olhávamos e parecia que estávamos enchendo um balde, um copo d’água na torneira, tamanha a velocidade da água”, relata.

Após o rompimento da barragem, a equipe começou o resgate dos moradores. Durante os trabalhos, uma pessoa, em especial, ficou guardada na memória de Heitor. Com os olhos brilhando, ele relembra o momento que até hoje “chega a arrepiar”.

Em uma das casas atingidas pela força das águas estava uma mulher com o filho nos ombros.

“Primeiro colocamos a criança na embarcação e posteriormente ela. Ao sair, na hora que empurramos o barco para sair da casa, ela pediu para que a gente voltasse para fechar as janelas e portas, para que os móveis que estavam boiando não fossem embora com a enchente. Eu tentei fechar as aberturas e depois voltei para a embarcação. A cena me marcou muito, porque olhando aquela senhora sentada no fundo, só com a roupa do corpo, sabendo que perdeu tudo, me marcou muito”, conta, emocionado.

O trabalho de resgate durou dia e noite. Pessoas foram levadas para abrigos ou casas de familiares. Segundo Heitor, a solidariedade emergiu em meio à tragédia. Os trabalhos duraram cerca de uma semana.

A tragédia de 1995 deixou três mortos, 15 feridos, 15 mil desalojados, 5.725 desabrigados e 5 mil casas atingidas. Além disso, a enchente causou um prejuízo de mais de R$ 486 milhões de reais, conforme a Defesa Civil municipal.

Cidades da região criam planos para conter inundações 

Além de Joinville, o estudo da Climate Central mostra que outras cidades do Norte do Estado também podem ser afetadas com o aumento do nível do mar nas próximas décadas. Principalmente os municípios situados ao redor da Baía da Babitonga.

Em Araquari, segundo José Antônio Vazquez, coordenador da Defesa Civil municipal, a cidade possui um Plano de Contingência que é atualizado anualmente. O documento traz um levantamento sobre equipamentos e material humano disponíveis em caso de desastres. 

“Cada secretaria ou entidade recebe uma cópia do plano e envia para nós. Assim sabemos de que forma cada um pode ajudar no caso de algum desastre”, explica. 

Além disso, o município faz medições nos rios e afluentes para monitorar o nível do mar. “Quando a régua de medição aponta 40mm, é porque há riscos de alagamentos. Além disso, nós também monitoramos cinco pontos considerados vulneráveis na cidade, para acompanhamento e também realização de obras para prevenção de cheias”, conta. 

Sobre as previsões de aumento do nível do mar, Vazquez informou que existem projeções, mas que ainda são limitadas. 

“Tudo está totalmente indefinido, o estudo a que temos acesso é muito restrito. O mais recente [estudo semelhante] foi sobre a abertura do Canal do Linguado, que supostamente atingiria e alagaria Balneário Barra do Sul e o centro de Araquari. Porém, não se sabe quanto tempo demoraria isso e não sabemos se, desassoreando o canal, isso não viria a acontecer”, explica. 

Em Itapoá, a Defesa Civil do município informou que também possui plano de contingência em casos de desastres. A cidade contava com um medidor de marés no Rio Saí Mirim, porém o equipamento foi furtado. 

Ainda conforme o órgão, atualmente não há projetos de obras para conter enchentes na cidade. A última obra para contenção das cheias foi realizada há aproximadamente 10 anos, quando galerias foram implantadas para a drenagem da água do rio.

Esse sistema, atualmente, acaba suportando a necessidade do município, segundo a Prefeitura. Além disso, outras vias que estão sendo revitalizadas, já prevem um reforço para drenagem da água. 

O avanço das marés é um caso que preocupa o município, e por isso, o executivo vem buscando meios para resolver o problema. Sobre o estudo, Taynara Pinheiro, oceanógrafa da Secretaria de Meio Ambiente de Itapoá, destacou que seria prudente que a cidade considerasse as previsões no planejamento e estratégia de contingência.  Segundo ela, grande parte das iniciativas relacionadas às mudanças climáticas são de nível estadual. 

“Nós temos a Defesa Civil que atua, pela capacidade técnica, humana e de recursos, mais em remediação do que em prevenção no momento. Há um movimento da Defesa Civil do Estado em se aproximar das instituições de ensino, órgãos públicos, empresas privadas para tratar dos problemas da costa em consonância com o Gerenciamento Costeiro, com foco na prevenção”, explica. 

Prefeitura realiza obras para combater enchentes e alagamentos na cidade – Foto: Prefeitura São Francisco do SulPrefeitura realiza obras para combater enchentes e alagamentos na cidade – Foto: Prefeitura São Francisco do Sul

Com seu território cortado pela Baía da Babitonga, São Francisco do Sul vem realizando trabalhos preventivos para minimizar os problemas com cheias.

De acordo com o Coordenador Geral de Projetos do município, Henrique Bueno, as obras iniciaram em setembro e chegarão a todos os bairros. Além da limpeza de valas, as equipes também trabalham para o desassoreamento e desobstrução de áreas com risco de enchentes e alagamentos. A prefeitura também informou que busca, anualmente, trocar tubulações para conter as cheias. 

Segundo Geovan Leandro Baumgratz, diretor da Defesa Civil municipal, a cidade também conta com Plano de Contingência, que é acionado em casos de desastres. Já em relação à alta da maré, os alertas são emitidos pelas coordenadorias do órgão. 

Geovan ainda afirma que o Município tem um mapeamento atualizado das áreas com riscos de enchentes, alagamentos e inundações.